O roteirista, produtor e ator americano Adam G. Simon escolheu Goiânia como base para uma nova etapa de sua carreira. Conhecido por trabalhos como Point Blank (2019), Man Down (2015) e The Dreadful, o cineasta deixou Los Angeles e passou a viver na capital goiana ao lado da atriz e modelo Larissa Andrade, com quem é casado. A mudança, no entanto, não representa apenas uma decisão pessoal. Em Goiânia, ele criou a produtora S2L e pretende aproximar o mercado audiovisual de Goiás da indústria internacional, levando para o Estado projetos de cinema, formação profissional e conexões com nomes de Hollywood.
A relação com Goiânia começou pela vida pessoal. Simon e Larissa, que foi por duas vezes capa da Zelo, se conheceram na Califórnia, viveram por um período na Tailândia e decidiram retornar ao Brasil. Para o cineasta, a presença da família de Larissa e o acolhimento encontrado na cidade foram determinantes para a escolha. “O que trouxe ele para cá fui eu, né?”, brinca Larissa durante a entrevista à Zelo. O produtor, porém, encontrou na capital outros motivos para permanecer. Ele destaca a infraestrutura, a segurança e, principalmente, a existência de uma comunidade criativa que, em sua avaliação, ainda não tem o mesmo acesso ao mercado encontrado por profissionais de São Paulo e Rio de Janeiro.
Segundo ele, essas pessoas já possuem capacidade técnica para integrar produções de maior escala, mas enfrentam uma distância em relação aos grandes centros de produção. “Há muitos artistas: atores, escritores, produtores que são muito bons, cinematógrafos, fotógrafos”, afirma. É justamente nesse espaço que o cineasta pretende atuar. A S2L nasce com a proposta de financiar e coproduzir projetos com investimentos dos Estados Unidos, da China e de outros países, enquanto utiliza talentos e equipes locais para contar histórias brasileiras destinadas a públicos de diferentes mercados.
Nova lógica de produção
A escolha por Goiás também nasce de uma crítica de Simon ao modelo tradicional de produção de Hollywood. Ao longo da carreira, o cineasta trabalhou em países como Estados Unidos, Canadá, México, Reino Unido e Tailândia e diz ter visto grandes produções aproveitarem incentivos e estruturas locais sem necessariamente integrar os profissionais da região às equipes. “Hollywood sempre faz isso. Se a história se passa em Nova York, eles filmam em Toronto fingindo que é Nova York, porque é mais barato”, explica. Em Goiânia, sua proposta é estabelecer uma relação diferente, com contratação de profissionais locais e desenvolvimento de uma cadeia produtiva no próprio Estado.
A cidade também atende a necessidades concretas dos projetos que o cineasta pretende desenvolver. A proximidade com a Chapada dos Veadeiros, por exemplo, foi um dos fatores considerados para Under, que terá parte da história ambientada na região. Ao mesmo tempo, Goiânia aparece como referência para uma série que ele desenvolve com a diretora Teresa Lampreia, que já trabalhou na Globo e na Record. A produção será ambientada em uma cidade semelhante à capital goiana. “Foi uma bênção encontrar uma cidade que estivesse perto de onde eu iria fazer um filme, mas que também refletisse a história que estou tentando contar na série”, afirma.
A decisão de permanecer em Goiás também veio acompanhada de convites para levar os projetos a São Paulo e ao Rio de Janeiro. Simon conta que recebeu propostas para trabalhar nos dois mercados, mas preferiu desenvolver a produção a partir de Goiânia. Para ele, a escolha tem relação com a própria forma de representar os lugares no cinema. Se uma história se passa em determinada cidade, defende, a produção deve buscar elementos reais daquele território, em vez de reproduzi-los em outra locação apenas por questões de custo ou estrutura.
A primeira produção a colocar essa proposta em prática será Under, longa-metragem que marca a estreia de Simon na direção. O projeto já passou da fase de desenvolvimento e está em pré-produção. A equipe avalia agora a construção de cenários e as locações, com previsão de início das filmagens em janeiro. Goiânia, Rio de Janeiro e Chapada dos Veadeiros estão entre os locais previstos para a produção.
Goiás como cenário
Simon revela poucos detalhes da trama, mas define o filme como uma reflexão sobre o sofrimento e sobre as razões pelas quais acontecimentos ruins atingem pessoas boas. A história acompanha um homem americano e uma mulher brasileira de mundos diferentes, cujas vidas são devastadas pela guerra. A narrativa acompanha a tentativa dele de retornar para a família e também incorpora questões vividas pelo próprio diretor durante sua adaptação ao Brasil. “É realmente lindo, é a minha coisa favorita que já escrevi”, afirma.
O cineasta conta que viver em outro país, aprender o idioma e se aproximar da família brasileira da mulher influenciaram a construção da história. A experiência também reforçou sua decisão de não permanecer restrito a comunidades de estrangeiros. Em vez disso, ele diz querer se integrar à sociedade brasileira e estabelecer relações com artistas e profissionais locais.
Essa intenção já aparece na estrutura planejada para Under. A proposta é formar a equipe principalmente com profissionais de Goiás, incluindo diretores de fotografia, operadores de câmera, equipes de iluminação, maquinaria, construção de cenários e atores. A produção também avalia a criação de estruturas próprias na capital. O cineasta afirma que já conversa com parceiros que possuem espaços de estúdio e que a preparação do filme revelou uma rede de profissionais disponíveis na cidade. “Não estou procurando construtores de cenários de Hollywood; estou procurando construtores de cenários aqui em Goiânia”, resume.
Durante a pesquisa para a produção, Simon diz ter encontrado operadores de drone, diretores de fotografia e atores que podem atender às demandas do longa. A ideia é que Under funcione, assim, como uma experiência concreta de integração entre uma produção de escala internacional e o mercado audiovisual goiano. A atuação da S2L, no entanto, pretende ir além dos sets de filmagem. Ele articula uma agenda de encontros com profissionais internacionais em Goiânia, aproveitando relações construídas ao longo de sua carreira.
Entre os nomes que já demonstraram interesse em participar estão o diretor e roteirista Joe Carnahan, o ator Frank Grillo, o ator Noah Danby e a atriz Sophie Turner, que poderá participar de atividades por videoconferência. A programação deve incluir exibições de filmes em que trabalhou e conversas com integrantes das produções. Entre os títulos estão Point Blank, com Anthony Mackie, Man Down, com Shia LaBeouf e Gary Oldman, e The Dreadful, com Sophie Turner e Kit Harington. Este último, segundo Simon, ainda não foi exibido no Brasil. As atividades devem chegar a universidades, escolas de cinema, cursos de atuação e outros espaços de formação em Goiânia.
O objetivo é aproximar os profissionais internacionais de quem está começando no mercado. O cineasta pretende garantir a participação gratuita de estudantes de cinema, tecnologia e multimídia em parte dos encontros. A ideia é que o contato não fique restrito a palestras, mas possa gerar oportunidades profissionais. “Todo mundo adora eventos de tapete vermelho e exclusividade, o que faz parte, mas também queremos garantir que estudantes possam ir a esses eventos de graça e ter acesso a esses profissionais”, explica.
Essa conexão deverá continuar quando as câmeras começarem a rodar. Estudantes de produção poderão participar das equipes dos filmes, enquanto atores em formação poderão concorrer a oportunidades no elenco. Dessa maneira, os encontros com profissionais estrangeiros funcionam como uma extensão do projeto cinematográfico: além de trazer referências internacionais para Goiânia, Simon quer criar caminhos para que talentos locais possam entrar em contato direto com a indústria e, posteriormente, trabalhar nela.
Futuro do cinema
A percepção de que Goiânia já reúne profissionais preparados para grandes produções surgiu, segundo Simon, durante sua própria adaptação à cidade. Ao acompanhar apresentações de teatro e conhecer profissionais do audiovisual, ele passou a identificar talentos que poderiam integrar projetos de maior escala. A descoberta também aconteceu nos bastidores. Ao procurar operadores de drone, câmeras e outros profissionais para suas produções, encontrou na capital pessoas que já dominavam essas funções. “Eu estava olhando ao redor e pensando: ‘Nossa, preciso de drones e operadores de drone’. E então vejo esses operadores de drone incríveis aqui. Depois penso: ‘Onde vou arranjar câmeras?’. E vejo que há um diretor de fotografia incrível que mora aqui em Goiânia”, conta.
A experiência reforçou a percepção de que o principal desafio não é necessariamente formar uma cena audiovisual do zero, mas criar conexões que permitam a esses profissionais acessar produções e mercados maiores. Essa rede deverá alimentar os três projetos devem começar a tomar forma antes do fim do ano: Under, uma série documental e uma série de ficção. A intenção é que os trabalhos tenham participação de profissionais de Goiás em diferentes etapas, criando continuidade entre as produções e ampliando a experiência adquirida pelas equipes a cada novo projeto.
Essa visão se conecta ao Cinema Futuro, organização sem fins lucrativos que Simon apresenta como outra frente de sua atuação no país. A iniciativa busca criar oportunidades, recursos e formação para jovens interessados em cinema e outras áreas criativas, em parceria com escolas e universidades. A proposta inclui encontros, eventos e atividades que aproximem estudantes das diferentes etapas de uma produção profissional. Mais do que oferecer contato com nomes internacionais, o projeto pretende criar caminhos para a entrada desses jovens no mercado. A formação pode, assim, acompanhar as próprias produções desenvolvidas pela S2L, conectando aprendizado e experiência prática. A ideia é que estudantes tenham contato com profissionais, conheçam diferentes funções dentro de um set e possam, posteriormente, participar de filmes, séries e eventos.
Para o produtor, essa combinação entre produção e formação é fundamental para que a presença internacional em Goiás não se limite a projetos pontuais. A intenção é deixar conhecimento, conexões e experiência profissional como parte do legado das produções realizadas no Estado. É nesse ponto que a mudança para Goiânia ganha uma dimensão maior do que a de um cineasta estrangeiro que escolheu a cidade como endereço. Ao trazer projetos, relações e profissionais de sua trajetória internacional, ele pretende construir uma ponte de mão dupla: levar talentos goianos para novas oportunidades e aproximar a capital de um mercado que, até então, estava distante. “Está tudo aqui”, resume.
A relação com a cidade, no entanto, ultrapassa os planos profissionais. O estadunidense afirma que já obteve residência brasileira e que pretende se tornar cidadão brasileiro. A decisão de permanecer em Goiás está ligada também ao desejo de construir uma vida integrada à comunidade. “Eu amo estar aqui e sinto que, em vez de apenas vir e fazer um filme como qualquer outra pessoa faria, quero fazer parte da comunidade”, afirma.

















