O Festival Bananada voltou. Sete anos depois de sua última edição presencial, realizada em 2019, o evento retomou em 2026 a escala que o transformou em um dos principais festivais de música independente do Brasil. Entre os dias 18 e 23 de agosto, mais de 100 shows ocuparam bares, casas culturais e grandes palcos de Goiânia, em uma maratona que recolocou o festival no centro da produção musical brasileira.
A edição anterior havia acontecido em um contexto bastante diferente. O Bananada estava menor e concentrado no estacionamento de um shopping, enquanto o país atravessava um período de ataques ao setor cultural e às políticas de incentivo. Depois vieram a pandemia, um longo hiato e sete anos de ausência do formato presencial.
O retorno aconteceu em grande escala. A programação passou por espaços como o Centro Cultural Martim Cererê, referência da música independente em Goiânia, além de bares e casas da cidade. No fim de semana, a Arena Bananada, no Centro Cultural Oscar Niemeyer, concentrou três palcos e algumas das principais atrações da edição.
Ao fim da maratona, encerrada no domingo (23), uma constatação parecia evidente: o Bananada fez falta. O festival voltou a demonstrar sua importância para a cena musical de Goiás e do Brasil. Ao mesmo tempo, o retorno revelou dois desafios para os próximos anos: garantir a sustentabilidade financeira de uma estrutura desse porte e ampliar sua conexão com o público mais jovem.
Estrutura para crescer
O primeiro desafio parece ter encontrado caminhos. A edição de 2026 apresentou uma estrutura poucas vezes vista na história do festival. Palcos, som, iluminação e organização acompanharam a dimensão da programação, permitindo que artistas de diferentes portes ocupassem seus espaços com condições técnicas consistentes. A realização contou com recursos da seleção Petrobras Cultural e da Lei Rouanet.
A chegada de Daniela Cantagalli e Rodrigo da Matta, criadores do Psicotrópicos Festival, em Berlim, também sinaliza uma nova etapa. A entrada dos dois como sócios aponta para uma perspectiva de internacionalização do projeto criado em Goiânia. Fabrício Nobre, diretor do Bananada, revelou que o acordo garante a realização de pelo menos dez edições do festival, incluindo a de 2026 e outras nove. A notícia oferece uma perspectiva de continuidade para um evento que marcou diferentes gerações de público e artistas ao longo de sua trajetória.
“Goiânia continua sendo a casa do festival. A gente firmou um compromisso de longo prazo, vão ter que me aguentar por mais 10 anos”, afirmou Fabrício. Para quem acompanhou a trajetória do Bananada, a permanência representa a possibilidade de manter vivo um espaço que aproximou grandes nomes e artistas em início de carreira.
Foi nos palcos do festival que diferentes gerações assistiram a shows de artistas como Jorge Ben Jor, Emicida e Gilberto Gil. O Bananada também acompanhou momentos decisivos da música produzida em Goiás, ajudando a ampliar a circulação de nomes como Boogarins e Carne Doce.
Memória e futuro
Parte desse público voltou ao festival em 2026. A presença de artistas que já haviam construído uma relação com o Bananada reforçou essa sensação de reencontro. Boogarins, Felipe Cordeiro, Black Drawing Chalks, BaianaSystem e Tulipa Ruiz trouxeram ao palco memórias de outras edições e diferentes momentos da história do evento. A nostalgia, no entanto, não impediu a energia dos shows. Pelo contrário, ela ajudou a criar uma atmosfera de celebração entre um público que cresceu frequentando o festival e agora reencontrava artistas que fizeram parte de sua própria formação musical. Em alguns momentos, o Bananada assumiu até certo perfil de “festival millennial”.
Também havia novidades. Gaby Amarantos e Arnaldo Antunes, por exemplo, fizeram suas primeiras apresentações no festival. Ambos dialogaram diretamente com esse público fiel, que voltou a ocupar os espaços do Bananada depois de sete anos de espera. Nos bastidores, Gaby Amarantos resumiu o significado de sua presença no evento. Para a cantora, subir ao palco do Bananada representava um desejo antigo. “Tocar aqui é a realização de um sonho”, disse em entrevista à Zelo.
O segundo grande desafio está justamente em alcançar quem não viveu as edições anteriores. Durante os anos de hiato, novas cenas surgiram, artistas ganharam projeção nas plataformas digitais e uma geração inteira passou a construir outras referências musicais e formas de frequentar festivais. O line-up buscou acompanhar parte desse movimento, com artistas que ganharam visibilidade nos últimos anos, sobretudo na internet, como o Dj Tubas, MC Taya, Vera Fischer Era Clubber e Clementaum.
Ainda assim, a programação parece não ter atraído plenamente o público que se formou durante a ausência do Bananada. Fabrício Nobre reconhece essa lacuna e aponta outras cenas que ainda podem ganhar mais espaço nas próximas edições. Entre elas estão o electro funk, o rap e o hip-hop, gêneros que movimentam novos públicos e possuem presença crescente na produção musical contemporânea.
A questão, no entanto, também pode ser entendida como parte da própria natureza de um festival que sempre mudou junto com a música. A catarse coletiva provocada pelo show do BaianaSystem, um dos momentos mais intensos do fim de semana, sintetizou uma das forças que o Bananada recuperou em seu retorno. O festival voltou a criar encontros entre artistas e público, independentemente do tamanho de cada carreira ou do tempo de estrada.
O Bananada está de volta ao seu público e ao tamanho que o consagrou. A próxima etapa será entender como preservar essa dimensão, ampliar sua sustentabilidade e, sobretudo, abrir espaço para quem ainda está começando a construir uma relação com o festival. Se 2026 mostrou a força de sua memória, as próximas edições deverão mostrar sua capacidade de construir novos futuros.
















