As mulheres vivem, em média, cerca de cinco anos a mais do que os homens, diferença observada em praticamente todos os países. Embora a expectativa de vida varie conforme fatores sociais, econômicos e culturais, pesquisadores afirmam que a maior longevidade feminina não pode ser explicada por um único motivo, mas por uma combinação de fatores biológicos, genéticos, comportamentais e ambientais.
O tema voltou ao centro das discussões após uma análise publicada pela BBC reunir pesquisas do Instituto de Oxford para Envelhecimento da População, da Universidade de Valência, na Espanha, e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. Os estudos reforçam que a vantagem feminina é resultado da interação entre diferentes mecanismos que influenciam o envelhecimento ao longo da vida.
o médico intensivista e nutrólogo José Israel Sanchez Robles explica: “Estudos recentes demonstram que a maior expectativa de vida das mulheres decorre da interação entre fatores biológicos, comportamentais e ambientais. A longevidade feminina não pode ser atribuída exclusivamente aos hormônios ou ao estilo de vida, mas sim a um fenômeno multifatorial, amplamente documentado na literatura científica”. Segundo ele, entre os principais fatores biológicos está o estrogênio. Durante boa parte da vida, o hormônio contribui para controlar os níveis de colesterol, possui ação antioxidante, fortalece a resposta imunológica e ajuda a proteger o sistema cardiovascular, o cérebro e os ossos.
Após a menopausa, quando os níveis de estrogênio diminuem, aumenta também o risco de doenças cardiovasculares e osteoporose, tornando ainda mais importante o acompanhamento médico nessa fase. A genética também desempenha um papel importante. Enquanto os homens possuem um cromossomo X e um Y, as mulheres contam com dois cromossomos X. Segundo pesquisadores, essa duplicidade pode funcionar como uma proteção natural contra determinadas mutações genéticas. “Ter dois cromossomos X pode representar uma vantagem biológica por ampliar a capacidade de compensação de determinadas alterações genéticas. Esse é um dos mecanismos investigados para explicar por que as mulheres apresentam menor suscetibilidade a algumas doenças ao longo da vida”, afirma o especialista.
Hábitos fazem diferença
Além da biologia, o comportamento tem grande influência na expectativa de vida. Diversos estudos mostram que os homens fumam mais, consomem mais bebidas alcoólicas, estão mais expostos a atividades de risco e registram índices mais elevados de mortes por acidentes de trânsito, violência, homicídios e suicídios.
Outro fator importante é a menor procura por consultas médicas e exames preventivos, o que favorece o diagnóstico tardio de diversas doenças. Esses hábitos ajudam a explicar, por exemplo, a redução da diferença entre a expectativa de vida de homens e mulheres observada em países como o Reino Unido após campanhas de combate ao tabagismo.
“A prevenção permanece entre os principais determinantes da longevidade. Consultas médicas periódicas, controle dos fatores de risco, alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e cessação do tabagismo têm impacto comprovado na redução da mortalidade prematura, especialmente entre os homens”, destaca José Israel.
A diferença na longevidade entre machos e fêmeas também é observada em diversos mamíferos, como primatas, leões e orcas. Pesquisadores investigam se parte desse fenômeno está relacionada à evolução das espécies. Um estudo publicado em 2025 pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva mostrou que espécies monogâmicas apresentam diferenças menores na expectativa de vida entre machos e fêmeas. Já em espécies nas quais os machos competem intensamente por parceiras, como leões e gorilas, essa diferença tende a ser maior.
Uma das hipóteses é que o maior investimento energético na competição reprodutiva e no desenvolvimento de características associadas ao sucesso reprodutivo possa reduzir a longevidade masculina.
Aposta na qualidade de vida
Apesar da maior expectativa de vida, as mulheres também convivem por mais tempo com doenças crônicas incapacitantes, como osteoporose, depressão, dores lombares e doenças inflamatórias. Segundo os especialistas, esse cenário mostra que aumentar os anos de vida não é suficiente. O desafio é ampliar também o tempo vivido com saúde, autonomia e qualidade de vida.
“Mais importante do que aumentar os anos de vida é ampliar os anos vividos com autonomia, funcionalidade e saúde. A ciência demonstra que homens e mulheres podem reduzir fatores de risco, prevenir doenças e favorecer um envelhecimento mais saudável por meio da adoção de hábitos de vida saudáveis e do acompanhamento médico regular”, conclui o médico.















