Um estudo publicado em 2026 na revista científica Clinics apontou que o uso de esteroides anabolizantes entre praticantes brasileiros de atividade física recreativa varia de 2,1% a 31,6%, conforme a região e o perfil da população analisada. Os dados reforçam o alerta sobre o avanço do uso de testosterona sem indicação médica e seus riscos à saúde.
Entre estudantes e professores de Educação Física de Belém, por exemplo, o percentual chegou a 31,6%, enquanto, entre frequentadores de grandes academias de São Paulo, alcançou 19%. O uso de testosterona e outros esteroides anabolizantes sem indicação médica deixou de se restringir ao universo dos atletas profissionais. A busca por ganho acelerado de massa muscular e definição corporal ampliou o consumo dessas substâncias entre praticantes de atividade física recreativa e acendeu um alerta para os riscos associados ao abuso hormonal.
Para o médico nutrólogo e intensivista José Israel Sanchez Robles, é importante diferenciar o uso abusivo da testosterona da reposição hormonal indicada para pacientes com deficiência comprovada. Segundo ele, o tratamento pode ser recomendado em casos de hipogonadismo, após avaliação de sintomas, exames e acompanhamento médico. O emprego de doses elevadas com objetivo estético, porém, representa uma situação diferente e envolve outros riscos.
Entre usuários que recorrem aos anabolizantes sem indicação médica, é comum a realização de ciclos durante semanas ou meses. Também ocorre a combinação de diferentes substâncias, prática conhecida como stacking. Algumas pessoas associam os anabolizantes ao hormônio do crescimento, clembuterol e antiestrogênicos, ampliando a possibilidade de interações e reações imprevisíveis. “O resultado estético pode surgir rapidamente, enquanto as complicações podem evoluir de forma silenciosa. Coração, fígado, sangue e sistema reprodutivo podem sofrer alterações mesmo quando o indivíduo acredita estar tolerando bem o ciclo”, alerta o médico.
Efeitos no organismo
O uso abusivo e prolongado da testosterona e de outros esteroides anabolizantes está associado, segundo o especialista, a alterações cardiovasculares. Entre elas estão disfunção cardíaca, aceleração da aterosclerose, mudanças nos níveis de colesterol e aumento do risco de eventos cardiovasculares.
Os riscos também envolvem o fígado e o metabolismo. O uso dessas substâncias pode provocar lesões hepáticas, resistência à insulina e eritrocitose, condição marcada pelo aumento da concentração de glóbulos vermelhos no sangue. Com maior viscosidade sanguínea, cresce também o risco de trombose.
Na saúde reprodutiva, o uso de testosterona externa pode reduzir a produção hormonal natural do organismo. Entre as possíveis consequências estão atrofia testicular, infertilidade, ginecomastia e hipogonadismo prolongado. O uso também pode estar associado a alterações de humor, agressividade, dependência e episódios de depressão durante períodos de abstinência. “A interrupção abrupta pode provocar uma queda significativa nos níveis de testosterona, além de perda da libido, disfunção sexual e depressão. Por isso, quem já utiliza essas substâncias deve procurar acompanhamento médico e relatar de forma transparente o histórico de uso”, orienta José Israel Sanchez Robles.
Riscos para mulheres
Nas mulheres, os efeitos descritos incluem acne, aumento de pelos, alterações de humor e mudanças na voz. Algumas dessas alterações podem persistir mesmo depois da interrupção do uso. O especialista ressalta que a testosterona não deve ser tratada como uma solução genérica para emagrecimento, aumento da disposição ou ganho de massa muscular.
A popularização de conteúdos sobre transformação corporal também contribui para que o uso dessas substâncias seja apresentado, em alguns contextos, como um atalho para resultados rápidos. O alerta é que os ganhos estéticos não eliminam os riscos de efeitos que podem se desenvolver de forma silenciosa e comprometer diferentes sistemas do organismo.
O acompanhamento médico é fundamental para distinguir tratamentos indicados para condições clínicas específicas do uso de hormônios com finalidade estética. Pessoas que já utilizam anabolizantes sem acompanhamento devem informar o histórico de forma transparente a um profissional de saúde antes de interromper ou alterar o consumo por conta própria.
No Brasil, o Conselho Federal de Medicina proíbe a prescrição de anabolizantes para fins estéticos ou para melhora do desempenho esportivo. A Lei nº 9.965/2000 também estabelece restrições para a comercialização desses medicamentos, exigindo apresentação e retenção da receita. Apesar das restrições, o mercado clandestino oferece produtos falsificados ou com composição diferente daquela indicada nos rótulos. Esse cenário adiciona outra camada de risco ao consumo, já que o usuário pode não saber exatamente quais substâncias ou concentrações estão presentes no produto utilizado.
Os dados reunidos pelo estudo reforçam que o uso de anabolizantes alcança diferentes grupos fora do esporte profissional. Diante da ampliação do consumo e da busca por resultados físicos rápidos, especialistas alertam para a importância de informação, diagnóstico adequado e acompanhamento médico.
















