O consumo de bebidas energéticas pode elevar a pressão arterial e provocar alterações nos batimentos cardíacos de adolescentes, segundo estudos que avaliaram os efeitos desses produtos em jovens. Consumidos, muitas vezes, para aumentar a disposição para estudar, treinar ou permanecer acordado, os energéticos também podem provocar palpitações, ansiedade e dificuldade para dormir.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta que crianças e adolescentes são mais vulneráveis aos efeitos da cafeína. A substância está presente não apenas nos energéticos, mas também no café, em refrigerantes à base de cola, chás e chocolates, o que torna importante observar o consumo total ao longo do dia. Um estudo clínico realizado em 2022 com 27 crianças e adolescentes saudáveis, com idade média de 14,5 anos, identificou aumento da pressão arterial após o consumo de bebida energética. Em comparação com o placebo, a pressão sistólica aumentou em até 5,23 mmHg, enquanto a pressão diastólica registrou elevação de até 3,29 mmHg.
Para a cardiopediatra Mirna de Sousa, os efeitos estão relacionados, principalmente, à presença de substâncias estimulantes e à quantidade ingerida. “A cafeína em excesso pode acelerar os batimentos cardíacos e elevar a pressão arterial. Em adolescentes, isso pode se manifestar por meio de palpitações, tremores, ansiedade e até mal-estar”, explica.
Além das alterações na pressão arterial, pesquisas também identificaram impactos sobre o ritmo cardíaco. Em um ensaio clínico com crianças e adolescentes saudáveis, o consumo de energético esteve associado ao aumento significativo de extrassístoles supraventriculares em comparação com o placebo. Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que o estudo não avaliou doses mais elevadas nem os efeitos em pacientes com doenças cardíacas preexistentes.
Sono também pode ser afetado
O efeito estimulante da cafeína também pode comprometer o descanso. A SBP aponta que a substância pode provocar agitação, distúrbios do sono e aumento da ansiedade. Para adolescentes que recorrem aos energéticos para combater o cansaço, a sensação de disposição pode ser temporária e não substitui a necessidade de descanso adequado.
“Às vezes, o adolescente está cansado e utiliza o energético para conseguir estudar ou treinar. Ele sente uma disposição momentânea, mas isso não significa que o organismo esteja descansado. O sono continua sendo fundamental nessa fase da vida”, afirma Mirna.
Outro ponto de atenção é o consumo dessas bebidas durante atividades físicas. Os energéticos não devem ser confundidos com bebidas esportivas ou isotônicas. Enquanto os isotônicos são desenvolvidos para auxiliar na reposição de líquidos e sais minerais, os energéticos contêm substâncias estimulantes, como cafeína, guaraná e outros compostos.
Segundo a cardiopediatra, os responsáveis devem observar não apenas a quantidade consumida, mas também a frequência e os motivos que levam o adolescente a recorrer a esse tipo de produto. “Se o adolescente precisa de energético com frequência para estudar, treinar ou permanecer acordado, é importante compreender por que ele está tão cansado. A bebida não deve ser utilizada como solução para a falta de sono ou para o excesso de atividades”, orienta.
A atenção deve ser redobrada entre adolescentes que já apresentam doenças cardíacas ou outras condições de saúde. Estudos experimentais apontam alterações cardiovasculares após o consumo agudo de bebidas energéticas por jovens saudáveis, e os próprios pesquisadores recomendam cautela em casos de condições médicas preexistentes. Palpitações persistentes, aceleração excessiva dos batimentos cardíacos, dor no peito, falta de ar, tontura ou desmaio após o consumo dessas bebidas exigem avaliação médica.
“Bebida energética não deve ser tratada como um refrigerante comum. Quando falamos de adolescentes, especialmente daqueles que já apresentam alguma alteração cardíaca, o cuidado deve ser ainda maior”, destaca Mirna.















