O casarão está em obras, mas também está em festa. É a noite de abertura da mostra “Morar Mais” e Glória Pires recebe os convidados, conduzindo-os por cada detalhe. “De dia, isso aqui é um negócio mágico, os pássaros são lindos!”, diz encantada. A atriz e o marido, o músico Orlando Morais, emprestaram a propriedade, na Avenida T-3, em Goiânia, para que arquitetos, designers e paisagistas locais apresentassem seus ambientes, e foi ali também que ela recebeu a Zelo para uma conversa mais intimista.
O local escolhido foi o Café Glorioso, novo empreendimento de Glória em parceria com o arquiteto Luiz Fernando Taquaral, integrado à mostra. Situado nos fundos da mansão, com vista para o Córrego Vaca Brava e com o canto dos pássaros como trilha sonora, o café é, segundo Glória, “um charme”: “Eu gosto muito de ler aqui, escutando o barulho da água.” Ela lembra que só agora conseguiu dedicar tempo ao espaço: “Sempre trabalhei muito, morando no Rio [de Janeiro], em São Paulo, depois Paris, Los Angeles… uma vida sem rotina. Agora, finalmente, com a segunda edição da Morar Mais aqui, Luiz me chamou e eu entrei nessa empreitada.”
A casa, projetada pelo arquiteto Fernando Rabello, carrega história. Com forma arquitetônica comparada à de um barco, sua estrutura inusitada foi estudada em faculdades de arquitetura, e, para a mostra, a piscina teve o trampolim transformado no teto do bar. Por anos adormecida, a propriedade foi redescoberta por Glória e Orlando, tornando-se um espaço de encontro entre passado, arte e natureza. A atriz confessa estar emocionada com o design goiano, ressaltando a identidade própria dos profissionais locais. “Eles mostraram arquitetura, design, paisagismo que têm muito da nossa raiz. É um mercado superaquecido, com alma própria, e não apenas revestimentos ou acabamentos, tem uma identidade que é daqui”, afirma.
Apesar de rumores sobre futuramente a casa virar um hotel-boutique, Glória prefere estudar a demanda: “Vamos criar algo do zero, que fique, que não seja só modismo. Pode ser um hotel, um espaço de bem-estar, ou ambos. Estamos entendendo o que Goiânia precisa.” Esta preocupação com o ambiente é uma forma de retribuir o amor que tem recebido da cidade: “Eu nasci carioca, mas já sou bem goiana. Meu filho caçula, Bento, nasceu aqui, como toda a família do pai dele. Tenho raízes profundas em Goiânia e em Goiás. O Cerrado é belo, deslumbrante, e sou fã e ativista pela sua preservação.”
Enquanto a casa e o café oferecem refúgio e contemplação, Glória não descansa. Ela acabou de estrear na direção de cinema com o longa Sexa, um projeto que levou quatro anos para se concretizar e que reflete sua atenção à representatividade feminina. Glória reuniu uma equipe formada exclusivamente por mulheres em funções ainda pouco comuns para elas no cinema, como fotografia, som e operação de câmera, além das áreas tradicionais de figurino e direção de arte. “Foi um projeto que me deu muita alegria, porque consegui chamar mulheres que já conhecia de outros trabalhos e mostrar que é possível ocupar espaços ainda raros no set. O filme fala sobre a mulher, sobre como somos múltiplas, sobre nossos dilemas, prazeres e conquistas”, explica.
Para ela, a obra também aborda a maturidade de maneira positiva: “Envelhecer é bom, é sinal de que estamos vivas. O nome Sexa é uma brincadeira entre as palavras sexagenária e sexo. Porque o sexo faz parte da vida, mas a gente para de pensar e falar sobre ele à medida que envelhece.”
Uma das atrizes mais queridas e reconhecidas do Brasil, Glória vive um período de descoberta, revelando novas dimensões de si mesma, enquanto se mantém aberta ao aprendizado. Com esse momento de reinvenção inspirado pelo conceito japonês Shoshin, ela conclui: “Ter a mente de aprendiz significa ver possibilidades em tudo. Quero sempre aprender, com olhar novo e mente aberta para o que pode aparecer.”
















