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Aquarela cotidiana sobre um Goiás de cores: Amaury Menezes e a memória de Goiânia

Aos 95 anos, o artista plástico recebeu a Zelo em sua casa para uma retrospectiva sobre a carreira e relembrou como suas telas acompanharam as transformações da capital e ajudam a contar a história da arte no Estado
Amaury Menezes
(Foto: @joaocarlos84)
Amaury Menezes
(Foto: @joaocarlos84)

Foi com o olhar atento a todos os detalhes enquanto a equipe preparava o espaço para fotografá-lo que o pintor e desenhista Amaury Menezes recebeu a Zelo em sua casa, em uma ruazinha perpendicular à Igreja do Rosário, no Centro Histórico da Cidade de Goiás, para uma conversa sobre a sua trajetória. Aos 95 anos e com mais de seis décadas de dedicação à arte, ele se consagrou como um dos mais célebres cronistas visuais goianos pela sua sensibilidade capaz de retratar a cidade como personagem viva, com suas ruas, feiras, trabalhadores, crianças e cenas de um cotidiano urbano e ao mesmo tempo bucólico, traduzindo em aquarelas e telas uma memória afetiva que reconta boa parte da história não só da capital do Estado, mas da formação e ascensão do movimento artístico local.

Nascido em Luziânia em 1930, José Amaury de Menezes é um dos nomes mais importantes da história das artes plásticas em Goiás. Filho de um fiscal do Ministério da Fazenda, viveu parte da infância na Cidade de Goiás e, com a transferência da capital para Goiânia, mudou-se com a família, em 1936, tornando-se um dos pioneiros a testemunhar o crescimento da capital e a consolidação de sua identidade cultural. Tornou-se referência sobre a produção artística goiana, além de membro da cadeira nº 25 do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e da cadeira nº 13 da Academia de Letras e Artes do Planalto (Alap). Mas tudo começou quando ele ainda era um menino que gostava de brincadeiras de rua e de correr pelo quintal.

“Em 1937, nós morávamos em Campinas enquanto ocorria a construção da nossa casa, na Avenida Araguaia, no Centro. Um dia meu pai chegou da rua com uma caixa cheia de pedrinhas, os seixos rolados que eram usados para fazer concreto na época, para a minha irmã brincar. Eu peguei aquelas pedras, fui enfileirando pelo assoalho e desenhei um automóvel. Quando a minha irmã viu, ela quis desmanchar. Mas o meu pai não deixou e perguntou o que era. Eu expliquei o desenho, onde estavam todas as partes do carro. No dia seguinte, ele levou para mim um bloco de papel e uma caixa de lápis de seis cores. Ele não disse nada, nem eu, mas eu senti que ele estava confiando no meu talento”, relembra. “E a partir daí, eu quis ser artista. E estou tentando até hoje, né?”, brinca.

De aluno a professor

Sua formação artística teve início na Escola Goiana de Belas Artes, na época, Universidade Católica de Goiás (UCG), sob a orientação de mestres como Frei Nazareno Confaloni, D.J. Oliveira, Gustav Ritter e Luiz Curado. Um fato curioso é que, enquanto ainda era aluno, Menezes foi convidado a lecionar na instituição. “Eu estava no segundo ano, quando um grupo de professores deixou a escola. E, com isso, foram abertas vagas. Então, fui convidado pelo D.J. Oliveira, que era um artista da cidade já muito conhecido, o Frei Confaloni e o professor Luiz Curado. Eles acreditaram no meu talento e me convidaram a deixar de ser aluno para me tornar professor. Eu devo muito a eles pelo incentivo e o apoio que sempre me deram”, afirma.

Um pouco antes disso, enquanto era somente aluno, Amaury já havia recebido uma validação muito significativa. “O Frei Confaloni estava pintando os afrescos aqui da Igreja do Rosário, na Cidade de Goiás. E ele precisava de um auxiliar para ajudá-lo, então me chamou. Eu contribuí na condição de operário de arte, lavando pincel, ajudando a montar andaime, essas coisas. Mas eu me senti muito orgulhoso por ser convidado para participar desse trabalho, porque tinha outros alunos talvez até mais talentosos que eu e, no entanto, ele pensou em mim para a tarefa”, conta.

Amaury, então, se tornou professor de Desenho e Plástica na Escola de Belas Artes, a partir de 1961, e foi um dos fundadores e o primeiro diretor do Departamento de Artes e Arquitetura da Universidade Católica de Goiás, em 1968. Lecionou até 1986, quando foi homenageado pela UCG e pelo Ministério da Educação com o título de “Notório Saber”.

Amaury Menezes
(Fotos: @joaocarlos84)

O retrato e a paisagem

Ele comenta que se inspirou em artistas como Van Gogh e Renoir, cujas criações sempre o encantaram. “O retrato foi uma técnica que eu pratiquei muito na juventude, porque eu queria agradar as meninas e minhas amigas da época, então pintava retratos delas. Era uma prática que sempre me chamou muita atenção, que me agradava. E, com isso, eu quase me tornei um retratista”, comenta. Futuramente, o artista viria a produzir vários retratos de personalidades goianas, entre escritores, magistrados e políticos, que se tornariam amplamente conhecidos.  Mas a verdadeira paixão de Amaury era outra.

“Eu sempre gostei de pintar paisagem, geralmente paisagem urbana, porque eu sou um ser urbano. E poucas vezes eu pintei paisagem rural. Quando eu ia ao Rio Araguaia, eu sempre me inspirava pelas águas. Mas meu tema predileto sempre foi a cidade. Sempre enxerguei o lado romântico e poético da vida urbana. Tanto que os meus amigos diziam que eu deveria ser mais agressivo para agradar a crítica. Mas nunca acreditei em crítica de arte, sempre achei que a crítica importante é a feita pelo público ou pelo tempo. Eu sempre disse que se eu souber que uma pessoa teve um momento de paz ao observar um trabalho meu, acho que valeu a pena a pintura”, conta.

O artista revela que iniciou o seu trabalho pintando aquarela porque achava que seria uma técnica mais fácil, afinal, “dependia apenas de um copo d’água, um pincel, um estojo de aquarela e uma folha de papel”. “Mas eu percebi depois que aquarela é a técnica mais difícil de pintura, porque não existe a tinta branca. A branca é a água, e se você coloca mais água no vermelho, sai rosa, e assim por diante. Então, foi um processo para eu dominar a aquarela. Tanto que, quando eu pinto a óleo, também uso a técnica da aquarela no óleo para conseguir uma tinta mais ou menos encorpada”, diz. O esforço rendeu-lhe o Prix Lucien Martial, concedido pela Société Internationale des Beaux-Arts, na França, em 1991.

Amaury Menezes
(Fotos: @joaocarlos84)

Retrospectivas

Em 1959, na sua primeira exposição, uma mostra coletiva realizada no Teatro Emergência, localizado onde é atualmente o edifício do Jóquei Clube de Goiás, Amaury vendeu duas aquarelas. Em 1966, participou da mostra “10 Artistas de Goiás”, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), responsável por projetar seu nome nacionalmente e, com ele, a produção artística goiana. “Eu fiz exposições no Brasil inteiro, e algumas no exterior, mas um momento muito importante para mim foi essa mostra que participei com mais nove artistas amigos”, relembra.

Autor dos livros Da Caverna ao Museu – Dicionário das Artes Plásticas em Goiás; Confesso que Chorei, e DJ Oliveira – Operário da Arte, seus trabalhos estamparam as capas de 136 obras lançadas pela Prefeitura de Goiânia no projeto “Goiânia em Prosa e Verso”, em 2010. Em 2023, sua trajetória foi revisitada na exposição “Amaury Menezes de A a Z”, no Museu Frei Confaloni, na Antiga Estação Ferroviária, e em 2024 teve um documentário biográfico, dirigido por Weber Santana. “Cada exposição é uma novidade, é um frio na barriga. E é muito especial ver o trabalho desde o meu início de carreira com essas retrospectivas”, diz. Mais recentemente, neste ano, ele ganhou uma exposição em sua homenagem no Museu de Arte de Goiânia (MAG), reunindo 84 obras, parte do acervo da instituição e parte de coleções particulares que contribuíram para a realização da mostra.

“A minha idade e os meus cabelos brancos me autorizam a dar conselhos. E o que eu diria para os novos artistas é que sejam bons observadores, para observarem bem a natureza e o seu contorno. Tanto faz se na música, na literatura, na pintura, nas artes plásticas, de qualquer maneira, o bom observador é aquele que sabe refletir o tempo. Então, só para dar um exemplo: Vivaldi, quando compôs As Quatro Estações, era uma melodia sem letras. No entanto, ele captou e percebeu cada momento daquela primavera, do verão, do outono e do inverno. Reza a lenda que Beethoven compôs a Sonata ao Luar para que uma moça cega de nascença soubesse como era uma noite de lua cheia, baseando-se na sua observação. Então, um bom observador é capaz de perceber o mundo e de refleti-lo na sua linguagem”, arremata.

Amaury Menezes
Amaury Menezes, na casa em que vive na Cidade de Goiás, o mesmo endereço de onde observa, há décadas, a cidade que inspira suas aquarelas (Foto: @joaocarlos84)
Matéria originalmente publicada na edição de número 52 da revista Zelo.

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