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Artista visual goiana Òkun é finalista do Prêmio Pipa 2026

Única representante de Goiás na fase final do Pipa Online, artista fala à Zelo sobre ancestralidade, espiritualidade, Cerrado e os desafios da arte contemporânea fora do eixo Rio-São Paulo
Okun Premio Pipa
Ókun (Foto: Divulgação)
Okun Premio Pipa
Ókun (Foto: Divulgação)

A artista visual goiana Òkun é a única representante de Goiás classificada para o segundo turno do Pipa Online 2026, modalidade de votação popular do Prêmio Pipa, uma das principais iniciativas de incentivo à arte contemporânea brasileira.  Em entrevista exclusiva à Zelo, Òkun fala sobre a relação entre espiritualidade e pintura, a influência do Cerrado em sua produção, a experiência de expor no Brasil e no exterior e a necessidade de ampliar o espaço para artistas que produzem fora do eixo Rio-São Paulo. 

Criado em 2010 pelo Instituto Pipa, o Prêmio Pipa busca incentivar a produção de artistas visuais brasileiros, ampliar sua visibilidade e fortalecer o cenário da arte contemporânea nacional. Nesta edição, 17 artistas disputam a etapa final do Pipa Online, definida por votação popular. A votação segue aberta até domingo (26), com resultado previsto para segunda-feira (27). O primeiro colocado receberá R$ 10 mil e o segundo, R$ 5 mil.

Para a artista, a classificação representa um reconhecimento do caminho construído ao longo da carreira e reforça a convicção em sua pesquisa artística. “É uma alegria enorme poder concorrer com tantos artistas que admiro. Essa indicação representa uma reafirmação do meu propósito enquanto artista, uma força que tem me movido para continuar produzindo e acreditando nos meus sonhos.”

Nascida em Goiânia, em 2000, Òkun é bacharel em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), artista residente do Ateliê/Escola de Arte Sertão Negro e assistente de arte de Dalton Paula. Sua produção parte das vivências nas religiões de matriz africana, especialmente Umbanda e Kimbanda de Lei, para construir uma pesquisa que articula ancestralidade, memória e espiritualidade.

Memória, espiritualidade e arte

Orelha-mar, ouça a calunga grande, 2023
Orelha-mar, ouça a calunga grande, 2023 (Foto: Divulgação)

Òkun desenvolveu o conceito de “Pintura de Encruzilhadas”, linguagem autoral que compreende a pintura como um gesto ritualístico de conexão entre os mundos visível e invisível, tendo Exu como princípio de movimento, transformação e escuta.  Segundo a artista, sua pesquisa artística nasce da convivência com as religiões de matriz africana e do respeito aos saberes transmitidos entre gerações. “Minha vivência em religião de matriz africana sempre me ensinou muito a respeitar e honrar os mais velhos. Acho que é isso que eu tento sempre trazer no meu trabalho: honrar essa história que já vem sendo construída há tantos anos.”

Ao longo da carreira, participou de exposições como Crônicas Cariocas, no Museu de Arte do Rio (2021); Dos Brasis: Arte e Pensamento Negro, no Sesc Belenzinho (2023); Mulheres que Mudaram 200 Anos, na Caixa Cultural Brasília (2023); e da mostra internacional Sertão Negro: Território Vivo, realizada em Nova York, em 2025. Também integrou a instalação coletiva Sertões, apresentada pelo Sertão Negro na 36ª Bienal de São Paulo.

A artista explica que seu processo criativo começa antes mesmo do contato com a tela, em um ritual de oração e conexão espiritual: “No meu processo criativo eu parto de uma ritualística de reza e conexão pessoal, para que, quando eu estiver pintando, meus ancestrais estejam ao meu lado me orientando, pintando comigo”, explica. 

Território de criação

Òkun afirma que sua produção permanece profundamente ligada ao território goiano. “A terra vermelha do Goiás sempre foi meu chão e será até o fim. É a terra da minha família,” defende a artista, que busca também evidenciar histórias frequentemente invisibilizadas sobre o Estado. 

Para a artista, o Cerrado permanece vivo através das práticas de benzedeiras, raizeiros, parteiras, povos quilombolas, povos originários e povos de terreiro: “Muitas pessoas acham que nós temos só o sertanejo e o agro, mas a verdade é que o povo negro e o povo indígena que vive nessas terras sempre construíram suas histórias, culturas, legados e saberes riquíssimos.”

Segundo Òkun, o contato com outras produções modifica continuamente sua maneira de compreender a arte. “Ver o trabalho de outros artistas do Brasil e fora dele me possibilitou pensar outras formas de fazer arte, de se relacionar com ela e de me apaixonar por ela inúmeras vezes.” As exposições realizadas no Brasil e no exterior também transformaram sua maneira de compreender a produção artística. “Ir para outras terras com o meu trabalho é um movimento que sempre me expande como pessoa e artista.” 

Mais do que transmitir uma mensagem específica, Òkun deseja que suas obras provoquem uma experiência sensível em quem as observa. “Eu quero poder atravessar as pessoas de uma forma que elas se sintam abertas para experienciar a espiritualidade e se conectar novamente com isso.” 

Para ela, a arte pode funcionar como um contraponto ao ritmo acelerado da vida contemporânea. “Num mundo de tanta guerra, IA, celular, notícias ruins, caos e pânico, as pessoas têm ficado cada vez mais apáticas. Quero que as pessoas se sintam vivas, que apreciem a grandeza de um detalhe, que vejam o quão sagrado pode ser uma tarde de domingo sentados ao lado de seus avós conversando sobre a vida. Isso, para mim, é magia,” explica.

Ela acredita que fortalecer ateliês, escolas independentes, coletivos e espaços culturais de outras regiões é essencial para tornar o circuito artístico mais diverso. “Existir, pesquisar e criar a partir de outros territórios é um ato de resistência.” E conclui: “O cenário nacional só será plenamente plural quando a circulação, a crítica e a validação reconhecerem que o pulso da arte brasileira acontece, com força e autonomia, em todas as suas encruzilhadas.”

 

Sentinela, 2021
Sentinela, 2021 (Foto: Divulgação)

Votação popular

Òkun está entre os 17 artistas classificados para o segundo turno do Pipa Online 2026, etapa definida exclusivamente por votação popular. A contagem foi reiniciada nesta fase e todos os candidatos voltaram a disputar os votos do público em igualdade de condições. Os votos podem ser registrados na página oficial da artista no site do Prêmio Pipa, basta clicar no botão “Vote Aqui” e seguir as instruções da página. 

A votação segue aberta até as 23h59 de domingo (26), e o resultado será divulgado na segunda-feira (27). O vencedor receberá R$ 10 mil, enquanto o segundo colocado será premiado com R$ 5 mil. Os votos podem ser registrados na página oficial da artista no site do Prêmio Pipa. Conforme o regulamento, a organização realiza a verificação dos acessos e exclui votos identificados como originados por robôs para garantir a lisura do processo.

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