Goiânia recebeu, no último sábado (11), o escritor André Carvalhal, que esteve na cidade para o lançamento de seu novo livro, A alegria em ficar de fora, em encontro realizado na Casa VerdePerto. Conhecido por sua atuação nas áreas de comportamento, criatividade e sustentabilidade, o autor apresenta na obra uma investigação sobre as dinâmicas contemporâneas que atravessam o tempo, o consumo e as relações, com foco na influência do ambiente digital sobre essas dimensões.
Resultado de uma parceria editorial entre os selos Coquetel e Agir, da Ediouro, o livro estrutura sua reflexão a partir do contraste entre dois conceitos que ganharam projeção nos últimos anos: o FOMO (Fear of Missing Out), associado ao medo de ficar de fora, e o JOMO (Joy of Missing Out), entendido como a capacidade de escolher, de forma consciente, o que não acompanhar. Mais do que opor os termos, Carvalhal propõe uma leitura que busca compreender os mecanismos que sustentam esses comportamentos e suas consequências práticas no cotidiano.
Ao longo da publicação, o autor combina experiências pessoais, referências bibliográficas e observações de sua prática profissional para construir uma narrativa que ultrapassa o campo conceitual. A leitura é organizada de forma a incluir pausas e exercícios, com a inserção de palavras cruzadas, ilustrações para colorir assinadas por Rafael Figueiredo e listas de conteúdos culturais, que funcionam como dispositivos de desaceleração e reflexão.
Em entrevista exclusiva à Zelo, Carvalhal destaca que a diferença central entre FOMO e JOMO está na forma como o indivíduo se posiciona diante das próprias escolhas. Segundo ele, a lógica do excesso, que envolve a tentativa de acompanhar tudo, consumir tudo e estar em todos os lugares, inviabiliza a experiência de presença plena. “Quando a gente acha que precisa fazer tudo, saber de tudo, estar em todos os lugares, a gente nunca está inteiro no que está fazendo”, pontua.
Essa percepção, de acordo com o autor, está diretamente relacionada à forma como o consumo é estruturado na contemporaneidade. Ao ampliar o conceito para além de bens materiais, ele inclui o consumo de informação, de conteúdos digitais e de experiências sociais como parte de um mesmo sistema orientado pela lógica da disponibilidade permanente. Nesse contexto, o JOMO surge como uma prática de recorte: escolher o que acessar, o que acompanhar e, sobretudo, o que deixar de lado.
Carvalhal observa que, quando orientado pelo FOMO, o comportamento tende a se alinhar à reprodução de tendências e à comparação constante, reduzindo o espaço para a construção de critérios próprios. “A gente está o tempo inteiro olhando para fora e olhando muito pouco para dentro”, diz. Para ele, esse movimento contribui para o que define como superconsumo, que se manifesta tanto na aquisição de produtos quanto na absorção contínua de conteúdos e estímulos.
Autocuidado x performance
Um dos eixos centrais do livro é a análise do deslocamento de práticas associadas ao bem-estar para um regime de desempenho. Atividades tradicionalmente vinculadas ao descanso e ao equilíbrio, como exercícios físicos, alimentação e pausas cotidianas, passam a ser mensuradas por métricas de produtividade e engajamento, especialmente quando mediadas pelas redes sociais.
O autor aponta que esse deslocamento pode ser identificado quando práticas inicialmente benéficas deixam de ser sustentáveis. “Se aquilo começa a trazer culpa, peso ou sensação ruim, é um sinal de que deixou de ser sustentável”, explica. Para ele, o critério de sustentabilidade individual, entendido como a capacidade de manter um hábito sem sobrecarga emocional, funciona como parâmetro para diferenciar cuidado de cobrança.
Ao tratar do tema, Carvalhal não descarta a importância de processos de adaptação ou reeducação, mas ressalta a necessidade de que essas mudanças ocorram dentro de limites viáveis. A transição entre o que faz bem e o que passa a gerar pressão, segundo ele, tende a ser gradual, exigindo atenção aos sinais de desequilíbrio ao longo do processo.
Tempo e controle
Outro ponto abordado no livro diz respeito à influência das tecnologias digitais na percepção de tempo e nas interações sociais. Carvalhal avalia que as ferramentas contemporâneas ampliam a sensação de controle ao permitir acelerar, pausar ou descartar conteúdos, criando uma expectativa de que o mesmo nível de gestão seja replicável na vida offline. Essa lógica, segundo ele, reconfigura não apenas o ritmo de consumo de informação, mas também a forma como os indivíduos passam a se relacionar com processos que, por natureza, demandam duração, escuta e continuidade.
“Na vida real, a gente não consegue acelerar uma conversa ou simplesmente ignorar o que não gosta”, afirma. Para o autor, essa discrepância entre o ambiente digital e o cotidiano concreto tensiona habilidades fundamentais, como a escuta ativa, a tolerância ao tédio e a capacidade de lidar com frustrações. Elementos que integram a experiência relacional passam a ser percebidos como entraves, uma vez que não oferecem as mesmas possibilidades de edição e controle disponíveis nas plataformas digitais.
Nesse contexto, Carvalhal observa que a percepção de tempo também sofre deslocamentos. A ideia de otimização constante, reforçada por recursos que condensam ou fragmentam conteúdos, contribui para uma expectativa de imediatismo que não encontra correspondência nas dinâmicas da vida presencial. O resultado, segundo ele, é uma tensão entre o tempo vivido e o tempo mediado, que impacta diretamente a qualidade das interações.
O autor aponta ainda para transformações nas formas de vínculo. Sistemas como os chatbots de Inteligência Artificial, que operam com disponibilidade contínua, respostas imediatas e baixo nível de conflito, tendem a oferecer interações mais previsíveis e ajustadas às expectativas do usuário. “Essas plataformas estão sempre disponíveis, muitas vezes concordam, acolhem, respondem na hora”, afirma.
Segundo Carvalhal, pesquisas indicam um movimento de aproximação afetiva com esses recursos, o que pode alterar a forma como as pessoas lidam com espera, discordância e negociação no convívio humano. A ausência de fricção, nesse caso, não elimina o conflito, mas desloca a capacidade de enfrentá-lo para fora das relações cotidianas, reduzindo o exercício de competências como argumentação, escuta e construção de consenso.
Desacelerar
Ao discutir caminhos possíveis para a desaceleração, o autor aponta para a incorporação do pensamento crítico em ações rotineiras. A proposta envolve questionar, antes de cada escolha, a necessidade e a origem de determinados impulsos, especialmente no uso de dispositivos digitais.
A prática, segundo ele, se aproxima do conceito de consumo consciente, ao deslocar decisões do campo automático para o campo intencional. Embora reconheça a complexidade desse exercício em um cotidiano marcado por múltiplas demandas, Carvalhal defende que a repetição desse tipo de reflexão tende a tornar o processo mais acessível ao longo do tempo.














