Esquecer compromissos, perder objetos com frequência, procrastinar tarefas ou ter dificuldade para manter a atenção fazem parte da rotina de muitas pessoas. Quando esses comportamentos são persistentes, surgem ainda na infância e provocam prejuízos na vida escolar, profissional e social, eles podem ser indicativos do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns e, ao mesmo tempo, cercado por estigmas.
Celebrado em nesta segunda-feira (13), o Dia Mundial de Conscientização do TDAH reforça a importância de ampliar o conhecimento sobre a condição e combater interpretações equivocadas. Segundo especialistas, pessoas com o transtorno costumam ser rotuladas como desorganizadas, preguiçosas ou desinteressadas, quando, na realidade, convivem com alterações neurobiológicas que afetam a atenção, o controle dos impulsos e as funções executivas do cérebro.
De acordo com a psicóloga Mariana Ramos, professora da Afya Centro Universitário Itaperuna, o TDAH interfere diretamente na capacidade de planejar, organizar, iniciar e concluir tarefas. “Não se trata de falta de disciplina ou de interesse. O TDAH é uma condição neurobiológica que interfere na forma como o cérebro organiza e executa comportamentos direcionados a objetivos”, explica.
Avaliação especializada
Embora os primeiros sintomas costumem surgir antes dos 12 anos, muitas pessoas só recebem o diagnóstico na adolescência ou na vida adulta. Isso acontece porque, durante a infância, alguns indivíduos desenvolvem estratégias para compensar suas dificuldades, que passam a se tornar mais evidentes com o aumento das responsabilidades acadêmicas, profissionais e familiares.
Segundo o psiquiatra Rodrigo Eustáquio, professor de pós-graduação em Psiquiatria da Afya Vitória, o diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico e não pode ser confirmado por exames laboratoriais ou de imagem. “O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico. Não existe exame de sangue, ressonância magnética ou qualquer outro exame que confirme o transtorno”, afirma.
A investigação envolve entrevistas detalhadas, análise do histórico de desenvolvimento, desempenho escolar e profissional, além da avaliação do impacto dos sintomas na rotina. Também é necessário descartar outras condições que podem apresentar manifestações semelhantes, como ansiedade, depressão, distúrbios do sono e dificuldades específicas de aprendizagem.
O TDAH não se manifesta da mesma forma em todos os pacientes. Algumas pessoas apresentam predominância da desatenção, com dificuldade para manter o foco, organizar atividades, administrar o tempo e concluir tarefas. Outras convivem principalmente com hiperatividade e impulsividade, caracterizadas por inquietação, interrupções frequentes durante conversas e dificuldade para esperar ou controlar impulsos.
Há ainda a forma combinada, que reúne os dois grupos de sintomas. Segundo os especialistas, as manifestações também podem variar conforme a idade e o sexo. Meninas costumam apresentar com maior frequência o perfil predominantemente desatento, enquanto meninos tendem a apresentar sintomas associados à hiperatividade e impulsividade. Na vida adulta, a inquietação física pode diminuir, mas permanecem dificuldades relacionadas à organização, planejamento e concentração.
Impactos na saúde mental
Apesar de a desatenção ser o sintoma mais conhecido, o transtorno afeta diferentes aspectos da vida cotidiana. Alterações nas funções executivas dificultam estabelecer prioridades, cumprir prazos, controlar impulsos, lidar com frustrações e finalizar projetos. Outro aspecto pouco conhecido é o chamado hiperfoco. Pessoas com TDAH podem demonstrar intensa concentração em atividades que despertam grande interesse, enquanto encontram enorme dificuldade para executar tarefas consideradas pouco estimulantes. Esquecimentos frequentes, procrastinação e dificuldade para perceber a passagem do tempo também fazem parte do quadro e estão relacionados ao funcionamento cerebral, e não à falta de esforço.
Os efeitos do TDAH vão além do desempenho escolar ou profissional. Ao longo da vida, muitas pessoas convivem com críticas constantes, o que pode favorecer o desenvolvimento de baixa autoestima, ansiedade e depressão. Para Mariana Ramos, frases como “você é inteligente, mas não se esforça” ou “você nunca termina o que começa” podem gerar sofrimento emocional significativo e dificultar ainda mais o enfrentamento do transtorno.
Já Rodrigo Eustáquio destaca que o diagnóstico correto permite compreender a origem dessas dificuldades e desenvolver estratégias para melhorar a qualidade de vida, reduzindo também o risco de transtornos emocionais associados. Os especialistas ressaltam que não existe um tratamento único para o TDAH. A abordagem depende da idade do paciente, da intensidade dos sintomas, do grau de comprometimento funcional e da presença de outras condições associadas. O tratamento pode incluir medicamentos prescritos por um médico, psicoterapia — especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) —, reabilitação neuropsicológica, orientação familiar e adaptações nos ambientes escolar e profissional.
Também são recomendadas estratégias para facilitar a rotina, como estabelecer horários estruturados, reduzir estímulos que favoreçam distrações e desenvolver técnicas de organização e planejamento. “O objetivo do tratamento não é apenas reduzir os sintomas, mas melhorar a qualidade de vida, favorecer a autonomia e permitir que cada pessoa desenvolva todo o seu potencial”, conclui o psiquiatra.
Os especialistas reforçam que nem toda dificuldade de atenção significa TDAH. Diante de sintomas persistentes e prejuízos no cotidiano, a recomendação é buscar avaliação com profissionais qualificados para um diagnóstico preciso e um tratamento baseado em evidências científicas.















