A Semana de Alta-Costura de Paris, realizada entre os dias 6 e 9 de julho, apresentou as principais direções criativas que devem influenciar a moda de luxo nos próximos anos. Com 30 maisons no calendário oficial, a temporada Outono/Inverno 2026-2027 foi marcada por estreias aguardadas, avanços tecnológicos aplicados ao vestuário e um diálogo cada vez mais intenso entre moda, arte e artesanato.
Entre os momentos mais comentados estiveram a estreia de Pierpaolo Piccioli na Balenciaga, a chegada de Duran Lantink à Jean Paul Gaultier e o retorno de Iris van Herpen ao calendário oficial. As apresentações consolidaram uma temporada em que inovação técnica e construção narrativa caminharam lado a lado.
Dimensão escultórica
Uma das tendências mais evidentes das passarelas foi a valorização da tridimensionalidade. Vestidos, saias e corsets abandonaram as formas convencionais para assumir volumes arquitetônicos, construídos com materiais rígidos como poliuretano termoplástico, madeira e estruturas plásticas.
Plissados e drapeados também ganharam protagonismo. Em vez de funcionarem apenas como acabamento, passaram a definir a própria arquitetura das peças, criando movimento e efeitos visuais que aproximam a alta-costura das artes plásticas.
Outro destaque foi o retorno da corseteria estruturada. Silhuetas marcadas e bustos esculpidos apareceram em diversas coleções, especialmente na Schiaparelli, que apresentou corpetes anatômicos combinados a saias amplas e fluidas.
Fantasia substitui o minimalismo
Depois de temporadas marcadas pelo pragmatismo, a moda voltou a apostar na imaginação. Chanel apresentou um desfile inspirado em contos de fadas, com cenários que remetiam a jardins encantados, folhas, flores e borboletas. Na Dior, Jonathan Anderson também explorou referências botânicas e elementos quase oníricos.
Na Schiaparelli, o surrealismo apareceu em texturas translúcidas que lembravam carapaças, peles e criaturas mitológicas, reforçando uma estética que mistura fantasia, alta-costura e escultura.
As plumas também retornaram com força. Na Balenciaga, surgiram em tons vibrantes, enquanto outras grifes optaram por aplicações mais discretas, funcionando como golas, echarpes e detalhes de acabamento.
Tecnologia na alta-costura
Se a fantasia esteve presente na narrativa, a tecnologia foi responsável por alguns dos momentos mais surpreendentes da temporada. Iris van Herpen apresentou um vestido luminoso desenvolvido a partir de pesquisas científicas que dispensava LEDs para produzir brilho, além de utilizar mais de 30 mil microesferas de vidro sopradas à mão para criar efeitos de refração da luz conforme a modelo caminhava.
Já Alexis Mabille explorou peças reversíveis que transformavam completamente sua aparência durante o desfile: casacos de veludo escuro revelavam superfícies metalizadas em prata e dourado à medida que eram manipulados.
Na Schiaparelli, experimentações com silicone líquido e látex moldado permitiram criar corpetes que pareciam uma segunda pele, aproximando moda, joalheria e escultura.
Protagonismo indiano
Um dos movimentos mais significativos desta edição foi a consolidação de estilistas indianos entre os protagonistas da alta-costura parisiense. Manish Malhotra tornou-se apenas o quarto designer da Índia a integrar o calendário oficial. Sua coleção de estreia, intitulada Maa, homenageou sua mãe e chamou atenção por estruturas tridimensionais que revelavam diferentes imagens conforme as modelos caminhavam pela passarela.
Rahul Mishra apresentou a coleção Devi: The Eternal Muse, inspirada em templos e esculturas indianas. Utilizando técnicas tradicionais de bordado como zardozi e dabka, criou vestidos que pareciam talhados em granito, bronze ou basalto, embora fossem confeccionados com tecidos extremamente leves.
Já Gaurav Gupta manteve sua pesquisa sobre o corpo humano com vestidos de aparência quase anatômica, construídos por meio de filamentos bordados que simulavam sistemas nervosos e musculares. A presença desses criadores reforça uma transformação importante na alta-costura: técnicas artesanais antes executadas nos bastidores por ateliês indianos passam agora a ocupar o centro da narrativa criativa.
Cores intensas
Além das experimentações estruturais, as passarelas também sinalizaram uma mudança na cartela cromática. Em vez dos tons suaves que dominaram temporadas recentes, azul, vermelho e amarelo apareceram em blocos de cor intensos, indicando o retorno do color blocking ao universo da alta-costura.
As coleções também apontam para uma moda menos preocupada com tendências passageiras e mais interessada em unir inovação tecnológica, excelência artesanal e narrativas visuais capazes de transformar cada desfile em uma experiência artística.
Com o encerramento da temporada de alta-costura, o calendário internacional da moda segue agora para as semanas dedicadas às coleções de Verão 2027, passando por Copenhague, Nova York, Londres, Milão e, novamente, Paris entre agosto e outubro. Essas apresentações devem mostrar como as ideias lançadas na alta-costura serão reinterpretadas pelo prêt-à-porter e chegarão, gradualmente, às ruas e ao mercado de luxo.















