A pianista, flautista e pesquisadora Andréa Luísa Teixeira, natural de Goiânia, integra o álbum Jornal de Modinhas: Inéditos, que conquistou a Medalha de Prata no Global Music Awards, na categoria de música de câmara. O projeto se destaca como um marco artístico e musicológico ao apresentar o primeiro registro comercial de modinhas publicadas em Portugal no final do século XVIII.
Com pesquisa e coordenação de Alberto Pacheco, o álbum reúne 17 canções históricas cujas partituras estão preservadas na Biblioteca Nacional de Portugal. A gravação ocorreu em 2025, no Palácio Nacional de Queluz, conectando pesquisa acadêmica e performance contemporânea em um trabalho que resgata a memória musical luso-brasileira.
“Participar de um disco premiado é saber que houve uma transformação em permanência. Que estamos em um lugar no mundo”, afirma Andréa, ao refletir sobre o reconhecimento internacional. Para a musicista, o prêmio vai além da consagração individual: “não se trata apenas de um prêmio, mas de um encontro entre tempos e culturas, que retorna ao mundo com uma força que já não é só nossa”.
Esta não é a primeira colaboração entre a pianista e Alberto Pacheco, que se conheceram em Portugal, em 2010, e fundaram a Academia dos Renascidos no ano seguinte. O nome homenageia a Academia Brasílica dos Renascidos (1759), em Salvador, e reflete o interesse pelas relações entre música e literatura, especialmente no repertório de câmara e de salão luso-brasileiro, como modinhas, hinos e recitativos.
Turnê interacional
Professora da Escola de Música e Artes Cênicas (EMAC) da Universidade Federal de Goiás (UFG) desde 1993, Andréa construiu uma carreira que articula ensino, pesquisa e performance. Com formação em piano pela UFG, especializações na Europa e doutorado em andamento em Lisboa, a artista se dedica à valorização da música brasileira, com ênfase em repertórios folclóricos, indígenas e nas conexões com o universo lusófono.
Reconhecida como a musicista goiana mais premiada de 2024, acumula distinções como o Prêmio Gala da Lusofonia e a Comenda Ordem do Mérito Cora Coralina. Sua atuação também inclui projetos de difusão cultural, como o Sons do Cerrado, voltado ao mapeamento das manifestações do bioma.
Em fevereiro de 2026, Andréa realizou uma turnê europeia com apresentações na Itália, França e Portugal, passando por cidades como Turim, Florença, Paris e Lisboa. O repertório incluiu desde música brasileira para piano solo até apresentações ligadas ao lançamento do álbum premiado. Segundo a artista, a recepção do público europeu foi imediata: as pessoas “adoram a música brasileira, seja ela popular ou clássica”, afirma, destacando a abertura internacional para diferentes vertentes da produção nacional.
Popular, erudito e folclórico
Na base desse percurso está Goiás, apontado pela musicista como elemento central de sua formação. Mais do que origem geográfica, o Estado aparece como uma “paisagem sonora”, onde tradição e contemporaneidade coexistem. “Aqui, o passado não está encerrado: ele se atualiza continuamente”, afirma.
Essa escuta começou ainda na infância: “Comecei a estudar piano aos 3, 4 anos, com minha mãe me ensinando as primeiras melodias. Aos 12 anos comecei a estudar flauta transversal e cavaquinho,” conta Andréa, que aos 12, começou a esturada também flauta transversal e cavaquinho. “Goiânia tinha o Clube do Choro, anterior ao Clube do Choro de Brasília, onde nos encontrávamos todos os fins de semana para tocar”, diz ela.
Esta aproximação desde a infância com a música popular e erudita, ajudaram a moldar uma percepção mais ampla da música, para além da partitura. É nesse ambiente que o repertório erudito passa a dialogar com a oralidade, com os ritmos e com as dinâmicas sociais que atravessam o território. É nesse ambiente que o repertório erudito passa a dialogar com a oralidade, com os ritmos e com as dinâmicas sociais que atravessam o território.
Esta fusão de referências guia a carreira de Andréa ao longo dos anos: “ O clássico, o popular e a pesquisa folclórica não são, para mim, territórios separados, são camadas interligadas”, diz ela. “O clássico oferece a estrutura, o rigor; a arquitetura musical se faz com todas as referências da música; o popular traz o pulso da vida, a respiração do cotidiano, a espontaneidade do gesto; e o folclórico guarda a memória, aquilo que resiste ao tempo e continua a nos dizer quem somos,” conclui.
À frente de iniciativas como o Sons do Cerrado, Andréa mapeia manifestações que preservam memórias coletivas e modos de vida, incorporando esses elementos à sua prática artística. O resultado é uma abordagem em que técnica e tradição se encontram de forma orgânica, sem hierarquias.














