Goiânia entrou oficialmente no circuito da Bienal de São Paulo na noite de segunda-feira (2), com a abertura da itinerância da 36ª edição da mostra no Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC Goiás), no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A iniciativa, realizada em parceria com o Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) e da Secretaria da Retomada, marca a primeira vez que o Estado recebe uma etapa do programa itinerante da Fundação Bienal de São Paulo, iniciado há 11 anos.
Com o título Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, a exposição inaugura em Goiânia o circuito de mostras que, ao longo de 2026, passará por mais de dez cidades no Brasil e no exterior. Ao todo são 14 artistas participantes da Bienal expondo telas, gravuras, esculturas, intervenções, instalações, projeções e fotografias formando um mosaico de linguagens e temas.

Descentralização e acesso
Responsável pelo recorte apresentado na Capital, o curador Thiago de Paula Souza destacou que a proposta foi pensar como a Bienal poderia se desdobrar no Centro-Oeste a partir de um diálogo real com o território. “A Bienal de São Paulo é uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo. Historicamente, ela sempre foi essa plataforma para apresentação de artistas no contexto global. Trazer uma parte da exposição para Goiânia é pensar como esse projeto entra em diálogo com a cidade e com o Centro do país”, afirmou.
Segundo ele, a presença de artistas vinculados a Goiás foi estruturante para a itinerância. “Desde o começo, pensamos como essas participantes poderiam estar aqui. A Sallisa Rosa apresenta novamente o trabalho que esteve no pavilhão, agora no contexto de Goiânia. E o Sertão Negro ganha uma dimensão ampliada, com vídeo na exposição e a proposta de visitas ao espaço do coletivo”, explicou.
Superintendente executivo da Fundação Bienal de São Paulo, Antônio Lessa reforçou que a itinerância cumpre um dos pilares institucionais da entidade: a difusão. “Quando levamos as mostras para longe de São Paulo, possibilitamos a um público que não pode ir até lá ter acesso ao que foi produzido para a Bienal. É uma forma de democratizar arte, cultura e educação”, disse.
Lessa também destacou o alcance do programa educativo, que acompanha a exposição. “Na última edição, atendemos mais de 90 mil crianças presencialmente e 26 mil professores. Educação é um dos pilares da Fundação, e esse trabalho continua nas itinerâncias”, afirmou. Sobre a escolha da capital, ele foi direto: “Já tencionávamos vir a Goiás há algum tempo. Decidimos apresentar conjuntos diferentes em Brasília e Goiânia, ampliando o acesso no Centro-Oeste”.

Goiás em foco
A secretária de Estado da Cultura, Yara Nunes, classificou o momento como um divisor de águas. “É um dia de extrema honra. Abrimos uma porta que ninguém vai conseguir fechar no nosso Estado. A cultura em Goiás vem subindo degraus desde 2019, e esses degraus ficaram altos demais para qualquer retrocesso”, declarou.
Para a artista Sallisa Rosa, expor em sua cidade natal tem dimensão afetiva e política. “Sou uma artista de Goiânia e trazer esse trabalho para cá é muito especial. Trabalho muito fora do Estado, então agora sinto que estou produzindo para minha família e para minhas amigas”, afirmou. A obra Muitos nomes parte de uma memória oral sobre o medo de passar sob um cipó no mato e se perder. “Descobri que essa história existe em vários lugares e tem muitos nomes. Criei um labirinto de espirais, um lugar de passagem, de se encontrar e se perder. Tem muito a ver com o Cerrado”, explicou.
A artista destacou que a itinerância ressignifica o alcance de sua pesquisa ao colocá-la diante do próprio território que a inspirou. “Quando mostrei esse trabalho em São Paulo, ele estava em diálogo com um contexto internacional. Aqui, ele encontra as pessoas que cresceram ouvindo histórias parecidas com a minha. Isso transforma a obra”, afirmou.
Integrante do Sertão Negro, Lucélia Maciel ressaltou a importância da itinerância para quem não conseguiu visitar a Bienal em São Paulo. “Muita gente não consegue se deslocar daqui para lá. Agora pode ver aqui e ainda participar das oficinas no Sertão. Parte do que desenvolvemos em São Paulo está sendo realizado em Goiânia”, disse. Ela também reforçou o caráter coletivo da experiência e a potência do Sertão Negro como espaço de formação. “A Bienal não chega só como exposição, mas como troca. A gente abre o ateliê, convida para as oficinas, para o cineclube. É uma oportunidade de fortalecer nossa ancestralidade e, ao mesmo tempo, dialogar com o mundo”, disse.

Trajetória consolidada
A chegada da Bienal também repercutiu entre entusiastas da arte no Estado. O curador e galerista Divino Sobral avaliou que a presença da Bienal no MAC Goiás fortalece o circuito regional. “É uma contribuição muito valiosa, sobretudo em uma edição que tem artistas formados aqui. Permite ao público conhecer também parte da produção internacional apresentada pela Bienal”, afirmou.
Para ele, a arte goiana nunca saiu de foco. Apesar do destaque mais recente, a arte feita em Goiás tem trajetória consolidada: “Se pensarmos que Siron Franco ganhou o grande prêmio da Bienal de São Paulo ainda jovem, entendemos que este Estado sempre teve uma força visual muito forte, com raízes nas culturas indígenas, nos povos tradicionais e também nas heranças europeias”, disse.

A mostra reúne 14 artistas de nove países, entre eles Adama Delphine Fawundu, Akinbode Akinbiyi, Alberto Pitta, Ernest Cole, Gervane de Paula, Hajra Waheed, Julianknxx, Juliana dos Santos, Malika Agueznay, Márcia Falcão, Ming Smith, Oscar Murillo e Song Dong, além da goiana Sallisa Rosa e do coletivo Sertão Negro.
Aberta até 19 de abril, com entrada gratuita, a itinerância da 36ª Bienal reafirma o MAC Goiás como espaço de circulação de ideias e posiciona Goiânia como polo ativo no debate contemporâneo sobre arte e humanidade. Mais do que uma exposição, a mostra inaugura um novo capítulo na inserção do Estado no circuito nacional e internacional das artes visuais.

Serviço: 36ª Bienal de São Paulo – itinerância em Goiânia
Onde: Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC Goiás), Centro Cultural Oscar Niemeyer
Quando: até 19 de abril
Entrada: gratuita














