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Presidente do Paraguai renuncia após crise envolvendo banco digital

Decisão foi anunciada enquanto a Câmara dos Deputados discutia a abertura de um processo de impeachment contra o presidente. Crise financeira envolve depósitos de milhões de correntistas e recursos públicos
(Fonte: José Cruz/Agência Brasil)
(Fonte: José Cruz/Agência Brasil)
(Fonte: José Cruz/Agência Brasil)

Enquanto a Câmara dos Deputados do Paraguai discutia, nesta quinta-feira (5), a abertura de um processo de impeachment contra o presidente, Santiago Peña anunciou sua renúncia ao cargo, em meio a uma crise financeira desencadeada pela intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no banco digital Ueno Bank.

Pressionado pelo próprio partido, que passou a defender sua saída do governo, Peña justificou a decisão como uma medida necessária para garantir a estabilidade do país e preservar as instituições. O vice-presidente Pedro Alliana assumirá a Presidência.

“Me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância”, disse o presidente, em pronunciamento nas redes sociais. “A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos cabe vivenciar. Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia à Presidência da República”, acrescentou.

Crise financeira e política no Paraguai

A crise financeira que atingiu o Paraguai começou na terça-feira (3) e rapidamente ganhou dimensão política. Na manhã desta quinta-feira, a Câmara dos Deputados iniciou o debate sobre a abertura de um processo de impeachment, que já contava com o apoio de integrantes do próprio Partido Colorado, legenda de Peña.

A crise foi desencadeada pela liquidação do Ueno Bank, instituição que reunia 2,9 milhões de correntistas, aproximadamente 60% da população adulta do país. Com a medida, os depósitos dos clientes foram congelados.

Após a liquidação da instituição, o presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo. Antes de assumir a chefia do órgão, ele havia sido dirigente do banco digital até 2023. Protestos nas ruas cobram a responsabilização dos envolvidos na crise. O Ministério Público do Paraguai pediu a prisão de oito pessoas, entre elas o presidente do Ueno Bank, Juan Manuel Gustale.

Relação de Peña com o banco

A crise também atingiu diretamente o presidente Santiago Peña, que foi acionista, até março de 2025, do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank. Eleito em 2023, Peña é filiado ao Partido Colorado, legenda de orientação conservadora que governa o Paraguai há cerca de sete décadas, com exceção do período entre 1947 e 1952.

O banco digital também administra o pagamento de pensões de milhares de aposentados e concentra aproximadamente 30% dos depósitos de fundos públicos, estimados em US$ 850 milhões.A oposição responsabiliza Peña pela crise, sob o argumento de que o presidente nomeou um ex-dirigente do Ueno para comandar o Banco Central. Ao anunciar sua renúncia, o mandatário pediu desculpas à população paraguaia.

“Também quero pedir desculpas ao povo, caso em algum momento eu tenha falhado. Nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim. A cada dia, assumi esta responsabilidade com a vontade de trabalhar pelo Paraguai”, afirmou Peña.

Partido Colorado se afasta do presidente

O presidente do Partido Colorado e ex-presidente do Paraguai, Horacio Cartes, afirmou que a legenda não estará ao lado “do latrocínio de fundos públicos, privados e dos aposentados”.Dois dias antes de defender a renúncia de Peña, o presidente do Congresso paraguaio, Bachi Núñez, havia declarado à imprensa que o chefe do Executivo não poderia ser responsabilizado pela crise, uma vez que o Banco Central possui autonomia institucional.

A oposição acusa o Partido Colorado de tentar se distanciar do escândalo, apesar de integrantes da legenda terem participado das decisões relacionadas à instituição financeira. Durante a sessão da Câmara, a deputada Johanna Ortega, do Partido País Solidário (PPS), destacou que os recursos dos aposentados estavam depositados em um banco próximo ao presidente Peña.

“Temos alertado sobre conflitos de interesses, sobre a utilização de instituições públicas para favorecer negócios privados de uns poucos, e sobre o crime de gestão em proveito próprio, prática na qual este Presidente da República tem incorrido sistematicamente”, afirmou.O Paraguai possui um fundo garantidor de depósitos que prevê o reembolso de até US$ 38 mil por pessoa, equivalente a ₲ 228.300.000 na moeda local, ou 75 salários mínimos.

Consequências econômicas da crise no Paraguai

A crise financeira e política coloca em xeque a imagem do Paraguai como destino emergente para investimentos estrangeiros na América do Sul, com possíveis repercussões sobre a economia nacional. A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) destacou, em nota, que duas em cada três transações realizadas pelas grandes redes varejistas do país passam por contas do Ueno Bank.

“Ocorrerá, sem dúvida, uma semiparalisação do mercado comercial no Paraguai. Essa situação não nos afeta apenas no âmbito comercial; ela impacta também o cotidiano das famílias, afetando, assim, a vida diária de milhões de pessoas”, afirmou a entidade em comunicado divulgado pela imprensa local.A agência de classificação de risco Moody’s avaliou que o caso representa um teste para a capacidade das autoridades paraguaias de administrar a situação de uma instituição financeira de grande porte.

“Um dos principais riscos que a Moody’s identifica está nos depósitos que excedem a cobertura do seguro. Ainda que o BCP indicou que 97% dos depositantes estariam completamente cobertos, somente 30% dos depósitos do Ueno se encontravam dentro dos limites da garantia”, informou a Bloomberg Línea, com base em uma análise da agência de classificação de risco.No Brasil, grupos políticos vêm apontando o Paraguai como exemplo de sucesso econômico e financeiro. Para o antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), parte dessa admiração está relacionada à presença do agronegócio brasileiro na economia do país vizinho.

“A direita brasileira achar que é um paraíso porque já estão com os contatos políticos estabelecidos lá. Tem até agências do Banco do Brasil, e se fala em português em escolas públicas, contrariando a lei paraguaia. É como um terreno ocupado pelo agronegócio brasileiro”, afirmou o pesquisador, que acompanha a realidade paraguaia. (Fonte: Agência Brasil)

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