A exposição Expressões, dedicada à obra de Siron Franco, foi prorrogada até o dia 30 de agosto após registrar público recorde em Goiânia. Em cartaz desde 6 de maio na Vila Cultural Cora Coralina, no Setor Central, a mostra já recebeu mais de 20 mil visitantes e se consolida como a maior exposição da carreira do artista goiano.
Com entrada gratuita, a exposição reúne mais de 100 obras produzidas ao longo de mais de cinco décadas de trajetória, conectando diferentes fases da produção de Siron Franco sem seguir uma ordem cronológica rígida. Trabalhos realizados ainda na adolescência, como Arca de Noé e Pietà de 1961, convivem com obras recentes, como Imigrantes, criada em 2025.
A mostra percorre temas centrais da experiência brasileira, como memória, violência, desigualdade social, autoritarismo e resistência cultural. Um dos núcleos mais impactantes é o dedicado ao acidente com o césio 137, ocorrido em Goiânia em 1987, considerado o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear.
O espaço foi concebido com referências à cápsula do material radiológico, utilizando elementos visuais que remetem ao pó prateado e à luminosidade azul associada ao césio. Ao transformar a tragédia em linguagem artística, Siron Franco cria uma poética marcada pela ideia de contaminação, permanência do trauma e recusa ao esquecimento.
A exposição também resgata o papel do artista na mobilização social após o acidente. Siron produziu a série Césio – Rua 57 com o objetivo de arrecadar recursos para as vítimas e participou de manifestações contra o preconceito sofrido por Goiânia naquele período, articulando debates públicos sobre os impactos humanos e políticos da tragédia.

Denúncia e reflexão
Outro eixo importante da exposição é a instalação sobre feminicídio, apresentada em diálogo com a série das Madonas, criada por Siron nas décadas de 1970 e 1980. As obras substituem a representação tradicional da Virgem Maria por imagens expressionistas e tensionadas, transformando a figura feminina em símbolo de fragilidade, violência e denúncia social.
Ao longo do percurso, o visitante é convidado a experimentar a exposição não apenas de forma contemplativa, mas também sensorial e emocional. A proposta é aproximar o público de temas ainda urgentes no presente, como exclusão, intolerância, violência contra a mulher e desigualdade.
Para o idealizador da mostra, Leopoldo Veiga Jardim, o conjunto dedicado ao césio 137 possui uma carga emocional especialmente forte para os goianos. “Há um gesto profundamente simbólico nisso: transformar a dor coletiva em arte, memória e resistência. O objetivo da mostra é que o visitante não saia indiferente. É uma exposição para ser vivida com profundidade”, afirma.
Natural da Cidade de Goiás, Siron Franco consolidou-se como uma das vozes mais importantes da arte brasileira contemporânea. Pintor, escultor, desenhista, gravador e diretor de arte, o artista recebeu premiações em importantes salões e bienais nacionais e internacionais desde a década de 1960.
Identidade e história
Segundo o próprio Siron, a exposição busca ampliar o repertório crítico e cultural do público por meio da arte. “A nossa ideia é trazer reflexões sobre fatos que aconteceram na história e que ainda reverberam na sociedade. É gratificante mostrar obras que têm muito a dizer sobre cultura, identidade, história e questões sociais urgentes”, destaca.
Para Leopoldo Veiga Jardim, a permanência da atualidade da obra de Siron está justamente em sua capacidade de dialogar com a condição humana. “Siron não produz uma arte apenas contemplativa. Sua obra provoca, denuncia, emociona e obriga o espectador a refletir. Enquanto existirem dores, conflitos, medos e esperanças, ela continuará atual”, conclui.
Com a prorrogação até 30 de agosto, o público que ainda não visitou Expressões ganha mais um mês para conhecer uma exposição que vai além da retrospectiva tradicional e propõe uma leitura crítica das contradições históricas, sociais e afetivas do Brasil.
Serviço – Exposição: Expressões – Siron Franco
Período: até 30 de agosto de 2026
Visitação: segunda a domingo, das 9h às 17h
Local: Vila Cultural Cora Coralina – Rua 23 com Rua 3, Setor Central
Entrada: gratuita
















