Celebrado em 6 de janeiro, o Dia da Gratidão ganha novos significados à luz da neurociência. Antes associada apenas a tradições filosóficas e espirituais, a gratidão hoje ocupa espaço relevante nos estudos sobre saúde mental, com impactos diretos no cérebro, na redução do estresse e na qualidade das relações humanas. Segundo a psicóloga Aparecida Tavares, que atende no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, a prática da gratidão ativa áreas cerebrais ligadas à regulação emocional, à tomada de decisão e ao bem-estar. “A neuropsicologia e a neurociência conseguem demonstrar hoje os grandes benefícios de ser grato e de atuar com gratidão”, afirma.
Entre essas áreas está o córtex pré-frontal, responsável pela avaliação das emoções e pelo controle das respostas impulsivas. De acordo com a especialista, a ativação dessa região ajuda a reduzir reações ligadas ao medo e à ansiedade patológica, favorecendo escolhas mais conscientes e equilibradas no dia a dia. Além disso, a gratidão impacta diretamente o hipotálamo, área envolvida na regulação do estresse e do sono. “Quando praticamos a gratidão, conseguimos reduzir os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. Isso contribui para uma vida mais saudável e evita o estresse crônico”, explica Aparecida.
Gratidão, dopamina e bem-estar
Outro efeito relevante acontece no chamado sistema de recompensa, localizado no estriado central, especialmente no núcleo accumbens. É ali que ocorre a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à motivação e à sensação de prazer. Nesse contexto, a gratidão deixa de ser apenas um sentimento abstrato e passa a atuar como um estímulo químico positivo no organismo. Para a psicóloga, esse processo reforça vínculos e amplia a consciência do presente. “A gratidão fortalece as relações, traz o aqui e agora e favorece a inteligência relacional, permitindo uma convivência mais cordial com o outro”, pontua. Assim, o sentimento passa a envolver todas as dimensões do ser humano: biológica, psicológica e social.
Por isso, Aparecida define a gratidão como um regulador emocional. Ao ser praticada de forma constante, ela contribui para um olhar mais resiliente sobre a vida e melhora a forma como lidamos com emoções como medo, raiva e tristeza. “Quando regulamos essas emoções, criamos espaço para sensações positivas e relações mais saudáveis”, destaca.
Além do discurso nas redes sociais
Popularizada nas redes sociais, a expressão “gratiluz” também pode ganhar um significado mais profundo quando associada à vivência cotidiana. Para Aparecida, a gratidão se constrói em gestos simples, mas conscientes. O primeiro passo, segundo ela, é respirar. “A respiração consciente nos conecta com o fato de estarmos vivos e presentes. Isso, por si só, já é um motivo de gratidão”, afirma. A partir daí, o exercício se estende ao cotidiano: observar a troca no mercado, reconhecer o outro, perceber que as relações vão além de uma lógica puramente funcional.
Esse olhar dialoga com a ideia de sentido da vida, defendida por Viktor Frankl, Psiquiatra austríaco, criador da logoterapia e autor de Em busca de sentido. “O sentido se constrói presentificando. Quando trago meu pensamento para o aqui e agora, posso ser grata pelo café, pela cadeira onde estou sentada, pelas pessoas que cruzam meu caminho”, observa.
Do ponto de vista neurológico, a gratidão também modula a amígdala, estrutura ligada às respostas de medo e ansiedade. Sob a influência do córtex pré-frontal, essas reações diminuem, favorecendo emoções positivas e a sensação de segurança. Além disso, a prática estimula a liberação de ocitocina, substância associada ao vínculo afetivo. “Quando vivemos com gratidão, fortalecemos circuitos neuronais e criamos boas conexões com o outro, com a vida e com o mundo”, resume a psicóloga. Assim, mais do que um gesto simbólico, a gratidão se apresenta como uma ferramenta concreta para a saúde mental. “Ela traz leveza, brilho no olhar e esperança, mesmo diante das situações mais desafiadoras”, conclui Aparecida.













