Nos bloquinhos de Carnaval, é comum ver foliões com uma bebida na mão. Entre música, fantasias e altas temperaturas, persiste a ideia de que não é possível aproveitar a festa sem álcool. Especialistas, porém, alertam: não existe nível seguro para o consumo de bebidas alcoólicas.
“As evidências científicas mais recentes indicam que não há um nível seguro para o consumo de bebidas alcoólicas. Mesmo quantidades consideradas moderadas podem estar associadas a riscos significativos para a saúde física e mental”, afirma a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).
Entre os riscos está o câncer. “Evitar o consumo de álcool deve ser um compromisso constante, até porque um dos principais perigos é o aumento do risco de câncer. Beber não significa que você terá a doença, mas o risco cresce conforme a quantidade ingerida”, explica o oncologista e clínico-geral Dr. Ramon Andrade de Mello, de São Paulo.
Intoxicação e ressaca
Além das consequências a longo prazo, o álcool pode provocar efeitos imediatos. Segundo o Dr. Ramon, a intoxicação alcoólica, ou embriaguez, é uma condição temporária causada pelo consumo excessivo e pode evoluir para quadros graves, com perda de consciência, dificuldade de coordenação motora, coma e até morte.
A ressaca, por sua vez, é uma resposta do organismo ao excesso de álcool. “É caracterizada por desidratação, alterações metabólicas, inflamação e mal-estar geral”, explica a Dra. Marcella. Os sintomas incluem dor de cabeça, náuseas, vômitos, retenção de líquidos e indisposição, podendo durar um ou dois dias.
Independentemente do teor alcoólico, as bebidas impactam o organismo. “Elas afetam o fígado, desregulam o sono, aumentam a vontade por alimentos mais gordurosos e causam desidratação”, reforça o Dr. Ramon.
Prevenção
Para quem opta por consumir álcool, os médicos indicam medidas para reduzir danos. A primeira é manter a hidratação. Como o álcool tem efeito diurético, aumenta a perda de líquidos. “Consumir água ao longo do dia ajuda a manter o equilíbrio hídrico. Uma dica é beber pelo menos dois litros de água antes de eventos com consumo de álcool”, orienta a Dra. Marcella.
Outra recomendação é não beber de estômago vazio. “A comida reduz a velocidade de absorção do álcool no trato gastrointestinal”, explica a nutróloga. Refeições com proteínas e gorduras boas, como ovos, abacate e azeite de oliva, podem ajudar a retardar a absorção do etanol na corrente sanguínea.
Moderação
No calor e na euforia do Carnaval, o cuidado deve ser redobrado. Evitar misturas de diferentes tipos de bebidas alcoólicas é uma das orientações, já que coquetéis variados estão associados a mais sintomas de ressaca. A combinação com energéticos também é desaconselhada. “O álcool já atrapalha o sono, e os energéticos podem acelerar o coração e manter a pessoa em estado de alerta, prejudicando o repouso”, alerta o Dr. Ramon.
Beber devagar é outro ponto importante. A ingestão rápida favorece quadros de intoxicação e dificulta a percepção do próprio limite. Intercalar cada dose com água ajuda a reduzir a desidratação, especialmente em dias quentes.
A endocrinologista Dra. Deborah Beranger reforça a importância da hidratação constante. “Como suamos mais, o risco de desidratação é alto. Ande sempre com uma garrafa de água. Levar frutas como maçã, pera e melão também contribui para a hidratação”, orienta.
Evitar bebidas muito açucaradas também faz diferença, já que o excesso de açúcar pode piorar o desconforto gastrointestinal. A moderação segue como principal recomendação. “O etanol interfere na função do hormônio antidiurético, fazendo com que o rim perca mais água do que o habitual”, explica a Dra. Deborah, destacando a sobrecarga renal provocada pelo álcool.
Depois da festa
Ao fim da folia, a reidratação deve ser retomada o quanto antes. Água, soluções de reidratação oral, isotônicos e água de coco ajudam a repor líquidos e eletrólitos, como sódio, potássio e magnésio.
A alimentação também influencia na recuperação. “Inclua frutas, mel e torradas integrais. Evite frituras e alimentos muito calóricos”, recomenda a Dra. Marcella. Alimentos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, como chá de gengibre, suco de limão e frutas vermelhas, podem auxiliar na resposta do organismo ao metabolismo do álcool.
Por fim, o descanso é indispensável. “O sono é essencial para que o corpo recupere o equilíbrio metabólico e hormonal. O álcool interfere no padrão de sono e pode resultar em cansaço no dia seguinte”, afirma o Dr. Ramon.
Em meio ao Carnaval, os especialistas reforçam que é possível aproveitar a festa com responsabilidade. Para quem decide beber, a moderação ou a abstinência continuam sendo as escolhas mais seguras.














