O café divide opiniões, mas, para quem consome a bebida diariamente, um estudo de longo prazo que acompanhou mais de 130 mil pessoas ao longo de 43 anos indica que o consumo pode ir além do estímulo imediato e estar associado à proteção contra a demência. “Os resultados mostraram que a ingestão moderada de café com cafeína (2 a 3 xícaras por dia) ou chá com cafeína (1 a 2 xícaras por dia) foi associada a um risco reduzido de demência, declínio cognitivo mais lento e melhor preservação das habilidades cognitivas”, afirma a Dra. Marcella Garcez, médica nutróloga, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN). O estudo de coorte prospectivo, tipo de pesquisa observacional que acompanha indivíduos ao longo do tempo, foi publicado no periódico JAMA.
Embora os resultados sejam positivos, a médica ressalta que o impacto observado é limitado e que existem diversas estratégias para preservar a função cognitiva com o avanço da idade. “O declínio cognitivo é multifatorial, e a adoção de bons hábitos de vida é fundamental para reduzir o risco de demência. O estudo sugere que o consumo de café ou chá com cafeína pode integrar esse conjunto de fatores”, afirma. “A prevenção precoce da demência é especialmente importante porque os tratamentos atuais são limitados e, em geral, oferecem benefícios modestos após o início dos sintomas. Por isso, cresce o interesse científico por fatores de estilo de vida, incluindo a alimentação, que possam influenciar o desenvolvimento do declínio cognitivo”, acrescenta.
Segundo a nutróloga, café e chá contêm compostos como polifenóis e cafeína, associados à saúde cerebral. “Essas substâncias podem contribuir para a redução da inflamação e dos danos celulares, fatores ligados ao declínio cognitivo. No entanto, pesquisas anteriores apresentaram resultados divergentes, muitas vezes devido a períodos mais curtos de análise ou à limitação de dados sobre padrões de consumo a longo prazo e tipos de bebidas”, explica.
A médica destaca que os dados mais extensos permitem uma análise mais consistente. Os pesquisadores avaliaram a relação entre o consumo de café com cafeína, chá e café descafeinado e os desfechos cognitivos ao longo do tempo. Entre os participantes, 11.033 desenvolveram demência durante o acompanhamento. Aqueles que consumiam maiores quantidades de café com cafeína apresentaram um risco 18% menor de desenvolver a doença em comparação aos que raramente ou nunca consumiam. Também registraram menores taxas de declínio cognitivo subjetivo (7,8% versus 9,5%) e melhor desempenho em testes cognitivos objetivos. “A cafeína pode desempenhar um papel relevante. Padrões semelhantes foram observados entre consumidores de chá, enquanto o café descafeinado não apresentou as mesmas associações. Isso indica que a cafeína pode estar relacionada aos efeitos observados, embora sejam necessárias mais pesquisas para esclarecer os mecanismos envolvidos”, afirma.
Os efeitos mais expressivos foram identificados entre participantes que consumiam de 2 a 3 xícaras de café com cafeína ou de 1 a 2 xícaras de chá por dia. “Níveis mais elevados de ingestão de cafeína não demonstraram efeitos adversos no estudo e apresentaram resultados semelhantes aos da faixa moderada. A análise também incluiu indivíduos com diferentes predisposições genéticas para demência, com resultados consistentes entre os grupos”, diz a médica. Ela ressalta, no entanto, que a cafeína pode causar efeitos adversos em algumas pessoas, como desconfortos digestivos, alterações no ritmo cardíaco e no sono, casos em que o consumo deve ser evitado.














