Número de brasileiros que vivem sozinhos mais que dobra, diz IBGE

Dados da pesquisa PNAD Contínia mostram avanço dos domicílios unipessoais, impulsionado pelo envelhecimento da população e por mudanças nos arranjos familiares
brasileiros morando sozinhos
(Foto: Vitaly Gariev/Unsplash)
brasileiros morando sozinhos
(Foto: Vitaly Gariev/Unsplash)

Viver sozinho deixou de ser exceção no Brasil e passou a refletir uma transformação estrutural na forma como os brasileiros se organizam. Em 2025, 19,7% dos domicílios do país tinham apenas um morador, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (17). O crescimento é significativo na última década. Em 2012, os lares unipessoais representavam 12,2% das residências. Em números absolutos, passaram de 7,5 milhões para 15,6 milhões, um avanço de 109,8%.

Segundo o analista do IBGE William Kratochwill, o movimento acompanha mudanças demográficas e sociais, com destaque para o envelhecimento da população. Com o aumento da expectativa de vida e a reconfiguração das famílias, cresce o número de pessoas que passam a viver sozinhas, especialmente em fases mais avançadas da vida. Fatores como a saída dos filhos de casa e a viuvez tornam-se mais frequentes em uma sociedade que envelhece, ampliando esse tipo de moradia. Ao mesmo tempo, escolhas ligadas à autonomia e independência também ajudam a explicar o fenômeno.

Apesar do avanço dos domicílios individuais, o modelo nuclear, formado por casais com ou sem filhos, ainda é predominante no país, representando 65,6% dos lares em 2025, embora em trajetória de queda.

Diferenças demográficas

Entre os brasileiros que vivem sozinhos, os homens são maioria: 54,9% em 2025. Esse perfil está frequentemente associado a separações ou a deslocamentos por trabalho, especialmente em grandes centros urbanos. Entre as mulheres, o cenário é distinto. Mais da metade (56,5%) das que vivem sozinhas têm 60 anos ou mais. O dado reflete a maior longevidade feminina, além de situações como viuvez e a decisão de manter autonomia residencial em idades mais avançadas. Nos demais arranjos familiares, os dados indicam maior equilíbrio entre homens e mulheres nos domicílios nucleares, enquanto as mulheres predominam como responsáveis em lares estendidos, que incluem outros parentes.

A presença de domicílios unipessoais é mais elevada em regiões mais urbanizadas e envelhecidas. O Sudeste lidera, com 20,9%, seguido pelo Centro-Oeste, com 20%. Já o Norte registra 15,1%. Nas capitais, a proporção é ainda maior. Florianópolis aparece no topo, com 30,5% dos domicílios ocupados por apenas uma pessoa. O cenário reflete tanto o envelhecimento quanto o papel das grandes cidades como polos de trabalho, estudo e mobilidade. Ainda assim, o crescimento mais acelerado desde 2012 ocorreu nas regiões Norte e Nordeste, onde o número de lares unipessoais aumentou 131%.

Aumento de idosos

As mudanças nos arranjos familiares acompanham uma transformação mais ampla na demografia brasileira. Em 2025, o país alcançou 212,7 milhões de habitantes, com aumento expressivo da população idosa. A parcela de brasileiros com 60 anos ou mais passou de 11,3% em 2012 para 16,6%. Já o grupo com 65 anos ou mais representa 11,6% da população.

Em sentido oposto, o número de pessoas com menos de 30 anos caiu 10,4% no período, refletindo a redução da fecundidade e do número de nascimentos. A estrutura etária revela um país em transição: a base da pirâmide populacional se estreita, enquanto as faixas adultas e idosas ganham peso. O crescimento populacional também desacelera, com taxa anual em torno de 0,40% nos últimos anos.

Outro reflexo aparece na distribuição por sexo nas idades mais avançadas. A partir dos 60 anos, há 78,9 homens para cada 100 mulheres, evidenciando a maior longevidade feminina. O avanço dos lares unipessoais, nesse contexto, não apenas reflete mudanças demográficas, mas também aponta para novas formas de viver, morar e se relacionar nas cidades brasileiras.

Imóveis alugados em alta

O avanço dos domicílios unipessoais ocorre em paralelo a mudanças mais amplas nas condições de moradia no país. Em 2025, o Brasil contabilizava 79,3 milhões de domicílios particulares permanentes, um crescimento de 18,9% em relação a 2016. Entre os diferentes tipos de ocupação, os imóveis alugados foram os que mais cresceram no período, com alta de 54,1%, enquanto os domicílios próprios ainda em pagamento aumentaram 31,2% e os já quitados tiveram elevação mais moderada, de 7,2%.

As características físicas dessas moradias também revelam padrões consolidados. A cobertura com telha sem laje de concreto segue predominante, presente em 48,9% dos domicílios, enquanto as paredes em alvenaria ou taipa com revestimento alcançam 89,7%. O acesso à infraestrutura básica avança, com 86,1% dos lares conectados à rede geral de abastecimento de água. Ainda assim, persistem desigualdades, especialmente nas áreas rurais, onde apenas 8,9% dos domicílios contam com escoamento de esgoto pela rede geral.

Outros indicadores ajudam a dimensionar as transformações no cotidiano doméstico. A queima de lixo ainda é realidade em 4,8 milhões de residências, concentrada principalmente fora dos grandes centros. Ao mesmo tempo, o acesso a bens duráveis se amplia, com destaque para o crescimento contínuo da presença de máquinas de lavar roupa nos lares brasileiros. Esse conjunto de dados acompanha mudanças demográficas mais amplas, como a redução da população jovem e o avanço do envelhecimento, reforçando um cenário de transição que impacta tanto a forma de morar quanto os arranjos familiares no país.

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