A grife francesa Coperni anunciou o encerramento de suas atividades após meses de tentativas de solucionar uma disputa financeira com a Tomorrow, sua distribuidora exclusiva e então principal acionista. A decisão foi comunicada pelos fundadores e diretores criativos da marca, Arnaud Vaillant e Sébastien Meyer, que atribuíram o desfecho a um impasse envolvendo valores não pagos.
Em uma mensagem enviada à Vogue Business, os estilistas relembraram os oito anos de trajetória da empresa e agradeceram aos profissionais e parceiros que participaram de sua construção. “Esses oito anos foram extraordinários. A Coperni sempre foi uma aventura coletiva, e temos imenso orgulho do que criamos”, afirmaram. Apesar do encerramento, os fundadores sinalizaram que pretendem continuar atuando na indústria da moda. Na mensagem, destacaram o interesse por inovação e criação e disseram olhar para o futuro com otimismo e novas ideias.
O conflito ganhou força após a Tomorrow deixar de repassar à Coperni valores referentes à participação nas receitas e ao reembolso de despesas operacionais. Pelo modelo de negócios, a distribuidora recebia as receitas das marcas de seu portfólio e pagava royalties conforme os contratos estabelecidos. Também deveria reembolsar custos relacionados a atividades como desfiles e campanhas.
Disputa financeira
Segundo relatos publicados pela Vogue Business, a Coperni afirmou que a Tomorrow interrompeu esses pagamentos em meio às dificuldades enfrentadas por sua operação de atacado. Em junho, a marca obteve proteção judicial do Tribunal de Paris, mecanismo que permitiu manter as atividades enquanto buscava uma solução para a crise.
Outro ponto de tensão envolveu a mudança de controle da Tomorrow. Em março, a empresa foi vendida à Progetto 11, holding ligada à plataforma italiana de comércio eletrônico The Level Group, que mantém relações comerciais com marcas como Palm Angels, Herno e Off-White. Após a aquisição, Stefano Martinetto, fundador e então diretor-executivo da Tomorrow, deixou o cargo.
Desde então, Vaillant e Meyer tentavam recomprar a Coperni e recuperar o controle da grife. A Progetto 11, por sua vez, afirmou que encontrou uma empresa envolvida em disputas de propriedade e governança, sem financiamento suficiente e com os fundadores interessados em retomar a operação.
Os problemas financeiros da Tomorrow também tiveram reflexos em outras marcas de seu portfólio. A Coperni cancelou seu desfile da coleção outono-inverno 2026 durante a Semana de Moda de Paris. Em março, a estilista Martine Rose também informou que não conseguiria produzir sua coleção seguinte por motivos alheios à sua vontade.
Os resultados financeiros da Tomorrow ajudam a dimensionar a crise. No exercício de 2024, o faturamento da empresa caiu 34%, para 8,4 milhões de libras. A margem de lucro bruto recuou de 76% em 2023 para 41%, enquanto o prejuízo operacional cresceu 28%, chegando a 7,5 milhões de libras. O encerramento da Coperni marca o fim de uma trajetória de oito anos, construída por Vaillant e Meyer em torno de propostas que aproximavam moda, tecnologia e experimentação. A marca ainda não detalhou quais serão os próximos passos profissionais da dupla.
Experimentos que marcaram a Coperni
Ao longo de oito anos, a Coperni construiu uma identidade que aproximou o minimalismo da experimentação tecnológica. Sob a direção de Sébastien Meyer e Arnaud Vaillant, a passarela se transformou em espaço para explorar materiais, robótica e referências da cultura pop. Alguns momentos ultrapassaram o circuito da moda e ganharam repercussão internacional.
A marca já estreou sob o signo da inovação com o famosos “momento de Bella Hadid”, onde um vestido branco foi pulverizado diretamente no corpo da super modelo. Este se tornou um dos maiores fenômenos virais da história recente da moda. A performance aconteceu no encerramento do desfile de Primavera/Verão 2023 da grife francesa durante a Paris Fashion Week, em 30 de setembro de 2022.
Um dos episódios mais comentados aconteceu na coleção outono-inverno 2023, durante a Semana de Moda de Paris. Cinco robôs quadrúpedes Spot, desenvolvidos pela Boston Dynamics, dividiram a passarela com as modelos. Em uma das cenas, um dos equipamentos retirou delicadamente a jaqueta dos ombros da modelo Rianne Van Rompaey e a devolveu em seguida. Outro interagiu com a bolsa carregada por Lila Moss.
A experimentação também chegou aos acessórios. Inspirada no gesto de desbloqueio de um celular, a Swipe Bag tornou-se uma das peças mais reconhecíveis da marca. Em 2022, a parceria com o estúdio Heven deu origem a uma versão de vidro soprado, usada por celebridades como Doja Cat e Kylie Jenner. Dois anos depois, a Air Swipe Bag chamou atenção pela composição: 99% de ar e 1% de vidro, com aerogel de sílica, material desenvolvido originalmente para aplicações espaciais. A peça pesava apenas 33 gramas.
Na coleção primavera-verão 2024, a Coperni voltou a explorar a integração entre moda e tecnologia. A apresentação incluiu jaquetas com lapelas que funcionavam como alto-falantes planos e transparentes. Também marcou a estreia na passarela do Humane AI Pin, dispositivo vestível de inteligência artificial capaz de projetar imagens na palma da mão.
Outro marco foi o desfile primavera-verão 2025, realizado na Disneyland Paris. Em uma apresentação noturna, a dupla explorou referências a princesas e vilões em uma narrativa sobre a passagem da infância para a maturidade. Kylie Jenner encerrou o desfile diante do castelo do parque, com um vestido preto de gala e fogos de artifício. Na ocasião, a marca também apresentou a Ariel Swipe Bag, acessório de silicone líquido moldado com auxílio de robôs.
Esses projetos ajudaram a consolidar a Coperni como uma das marcas mais associadas à experimentação na moda contemporânea. O encerramento das operações interrompe uma trajetória que fez da tecnologia não apenas um recurso de apresentação, mas parte central de sua linguagem criativa.


































