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Viviane Mosé: “Quando você sofre de verdade, a dor passa”

Filósofa, psicanalista e poeta esteve em Goiânia para o Vitrine do Conhecimento e falou sobre sofrimento, finitude, arte e a necessidade de dizer sim à vida
Viviane Mosé
Viviane Mosé (Foto: Reprodução)
Viviane Mosé
Viviane Mosé (Foto: Reprodução)

Psicóloga, psicanalista, filósofa e poeta,  Viviane Mosé esteve em Goiânia como convidada do Vitrine do Conhecimento, iniciativa do Flamboyant Instituto que reuniu nomes de diferentes áreas para discutir ideias e questões contemporâneas. Com uma trajetória que aproxima o pensamento filosófico da experiência cotidiana, ela leva temas como sofrimento, solidão e saúde mental para além dos espaços acadêmicos. “A vida dói para todo mundo”, afirmou durante sua passagem pela capital em conversa mediada pela escritora e poeta Yani Rebouças

Para ela, enfrentar essa condição, em vez de tentar eliminá-la, é parte de uma relação mais honesta com a existência. Sua reflexão parte da filosofia, da psicanálise e da própria experiência para questionar a busca por respostas prontas e padrões de felicidade. Ela lançou em 2024 o livro Meu braço esquerdo: Um sim à vida que mescla romance, prosa fragmentada, autoficção e poemas em versos livres para abordar o papel do sofrimento na condição humana. O livro deu origem ao o espetáculo poético-filosófico Um Sim à Vida, que ela apresenta pelo Brasil e que ela promete trazer a Goiânia ainda em 2026, como disse em entrevista à Zelo. 

Graduada em Psicologia, com mestrado e doutorado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Viviane Mosé transita entre diferentes linguagens. A poesia, os palcos, a televisão e as palestras ajudaram a ampliar o alcance de suas ideias e a consolidar uma voz singular no debate cultural brasileiro. Ela ganhou projeção nacional ao levar a filosofia à TV aberta no quadro Ser ou Não Ser, exibido pelo Fantástico. A partir de então, consolidou uma forma direta de discutir autores e conceitos complexos sem simplificar as questões que eles levantam. Friedrich Nietzsche é uma de suas principais referências. 

Em suas leituras, o filósofo alemão surge menos como uma figura distante da academia e mais como um pensador capaz de provocar perguntas sobre a vida, a finitude e a criação. “Nietzsche não é pessimista, ele é um crítico cruel da civilização. Mas é romântico, e as pessoas não entendem isso. O romântico é apaixonado pela natureza. É alguém que ama a vida que pulsa,” define ela 

Essa aproximação está no centro de seu trabalho. Para Mosé, a filosofia não precisa oferecer soluções definitivas. Pensar pode significar ampliar a capacidade de permanecer diante do desconhecido e aceitar que nem toda experiência será explicada. A vida, afinal, não cabe em respostas rápidas. E é justamente essa recusa em reduzir a existência a fórmulas que atravessa sua produção intelectual e artística.

Razão e sensibilidade

O sofrimento ocupa um lugar central em suas reflexões. Mosé questiona a necessidade contemporânea de transformar toda dor em algo que precisa ser imediatamente corrigido, apagado ou enquadrado. Para ela, existem experiências dolorosas que fazem parte da condição humana. A perda, a solidão, o envelhecimento e a finitude atingem pessoas de diferentes origens e condições financeiras. “Quem tem milhões não sofre menos do que quem mora na favela”, afirmou.

A ideia não é romantizar a dor. É reconhecer que dinheiro, fama e consumo não eliminam as questões fundamentais da existência. “Quando você está triste, não importa se está em Paris ou no subúrbio de Goiânia. Você não enxerga nada”, disse. Em sua perspectiva, dizer sim à vida significa reconhecer aquilo que existe, inclusive o que não foi escolhido. É assumir a própria história sem reduzir a experiência ao ressentimento ou à culpa.

A poesia ocupa um papel decisivo nesse pensamento. Para Mosé, razão e sensibilidade não são campos opostos. A arte pode ser uma forma de elaborar aquilo que a linguagem cotidiana nem sempre consegue explicar. “A arte foi o que me salvou”, afirmou. Segundo ela, a expressão artística não elimina o sofrimento, mas permite dar uma forma a ele. Um grito, um gesto, uma dança ou um poema podem deslocar a dor e tornar possível observá-la de outra perspectiva.

Esse movimento, para a filósofa, não exige que alguém seja artista profissional. A arte também está na possibilidade de expressar o que se vive e, depois, conseguir olhar para aquilo de fora. “Quando a dor está dentro, você só dói”, resumiu. A arte cria uma distância e permite reconhecer a própria fragilidade sem fugir dela.

Uma alma ampla

A crítica de Viviane Mosé também alcança os padrões que orientam a sociedade contemporânea. Em suas falas, ela questiona a busca permanente por aprovação e a necessidade de corresponder às expectativas externas. A filósofa defende a importância de enfrentar a solidão. Para ela, assumir que cada indivíduo vive uma experiência singular é uma condição para construir relações menos pautadas pelo medo de não pertencer. Essa consciência exige coragem. Mosé também fala sobre a necessidade de ampliar o olhar diante da imensidão do mundo e daquilo que não se pode controlar. 

Contemplar o universo, a natureza e a própria finitude pode ajudar a produzir, como ela define, “uma alma ampla”, capaz de comportar contradições, dores e conflitos. “Posso estar sem dinheiro, posso estar mal vestida, posso ter sido abandonada, posso tudo, mas eu existo. Estou aqui e carrego a grande honra de viver”, afirmou. Entre a filosofia e a poesia, Viviane Mosé construiu uma obra que não promete uma vida sem sofrimento. Sua proposta é outra: reconhecer a dor, expressá-la e continuar. Porque, como ela própria resumiu no palco do Vitrine, “a vida dói para todo mundo”.

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