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No Dia do Escritor, personalidades de Goiás revelam os livros que marcaram suas vidas

De clássicos da literatura brasileira a ensaios sobre arte, arquitetura e filosofia, convidados da Zelo compartilham obras que transformaram sua forma de enxergar o mundo
Bienal Goiânia
Yara Nunes (Foto: @criativa.mp)
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Yara Nunes (Foto: @criativa.mp)

O escritor francês Daniel Pennac dizia que “o tempo para ler, assim como o tempo para amar, amplia o tempo para viver”. A frase ajuda a explicar por que alguns livros permanecem conosco muito depois da última página. São obras que atravessam diferentes fases da vida e continuam oferecendo novas interpretações a cada releitura, exatamente o que revelam as recomendações reunidas pela Zelo para celebrar o Dia Nacional do Escritor.

Celebrado em 25 de julho, a data homenageia aqueles que transformam ideias, memórias e observações em literatura. A data foi instituída em referência ao I Festival do Escritor Brasileiro, realizado pela União Brasileira de Escritores (UBE) em 1960, e convida também a valorizar o outro lado dessa relação: os leitores, que encontram nas páginas dos livros novas maneiras de compreender o mundo.

A Zelo convidou personalidades goianas de diferentes áreas para responder a uma pergunta simples: qual livro todos deveriam ler? As respostas revelam um mosaico de interesses que passa pela literatura brasileira, filosofia, arquitetura, arte, história e desenvolvimento pessoal.

Identidade e Memória

A secretária de Estado da Cultura de Goiás, Yara Nunes, escolheu O que Podemos Saber, de Ian McEwan. Segundo ela, o romance se destaca por provocar o leitor a rever suas próprias convicções. O romance publicado em 2022, acompanha uma cientista cuja descoberta coloca em xeque conceitos sobre conhecimento e verdade.

“O livro me fez refletir sobre conhecimento, verdade e até sobre as pessoas que acreditamos conhecer tão bem,” afirma a secretária. Ela diz que além de ser muito envolvente, o livro deixa várias perguntas na cabeça mesmo depois que a leitura acaba. 

Também voltado às reflexões sobre identidade e memória, O Primeiro Homem, de Albert Camus, é a indicação de Leopoldo Veiga Jardim, diretor regional do Sesc e do Senac Goiás. Para ele, a obra revela que compreender o presente passa, inevitavelmente, por reconhecer as próprias origens.

“É um livro indispensável porque nos lembra que compreender quem somos começa por compreender de onde viemos. Em uma narrativa de rara sensibilidade, Camus revela que a verdadeira grandeza da vida está na memória, nos afetos e na dignidade silenciosa das pessoas comuns.” diz ele. 

A compreensão da formação do Brasil orienta a indicação do secretário de Estado de Indústria, Comércio e Serviços de Goiás, Joel de Sant’Anna Braga Filho, que escolheu Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. “Livro essencial para todos os brasileiros conhecerem a análise da estrutura social do Brasil e a miscigenação cultural do povo brasileiro,” define o secretário.

Além do clássico de Gilberto Freyre, o secretário também recomenda a trilogia de Elio Gaspari sobre o período da ditadura militar — A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada e A Ditadura Acabada — como leitura indispensável para compreender um dos períodos mais importantes da história recente do país.

Quando o assunto é literatura brasileira, o jornalista e editor do Jornal Opção, Euler Belém, é categórico: seu romance favorito é Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Para ele, a força da obra está tanto na história quanto na precisão da linguagem. “Além da história em si, com pobres sendo protagonistas, a linguagem concisa e precisa do escritor alagoano é praticamente uma personagem,” argumenta o jornalista.  

Ele destaca ainda Machado de Assis e Guimarães Rosa como mestres da literatura nacional, mas considera Graciliano Ramos um escritor de perfeição rara: “O ‘velho Graça’ escreve tão bem quanto Tchekhov”, diz. 

Arte e imaginação

A relação entre arte e imaginação aparece na escolha da designer de joias Eleonora Hsiung, que retorna frequentemente às páginas de As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Neste livro, o autor italiano imagina um diálogo entre Marco Polo e Kublai Khan para refletir sobre memória, desejo e imaginação. 

“Volto a ele porque me lembra que imaginar também é uma forma de conhecer”, conta a designer, que acrescenta: “É um livro que nunca se esgota: a cada releitura encontro uma cidade diferente, talvez porque eu também seja outra.”

Na arquitetura, a leitura também se transforma em experiência. A arquiteta Marília Teixeira escolheu A Viagem do Oriente, de Le Corbusier, relato da viagem realizada pelo arquiteto europeu ainda jovem. Ela conta que acompanhava a leitura comparando os croquis produzidos pelo autor com imagens atuais dos lugares visitados. 

A experiência foi tão marcante que a leitura acabou se transformando em roteiro de viagem e assunto constante com amigos e familiares. “Eu queria compartilhar o tempo todo. Chamava meu marido para ler alguns trechos, mostrava as imagens e recomendava o livro aos amigos,” recorda. 

Novas perspectivas

Para o colecionador de arte contemporânea José Seronni, a recomendação é Modos de Ver, de John Berger. Publicado em 1972, o ensaio tornou-se uma referência na crítica de arte ao defender que a forma como interpretamos imagens e obras de arte é influenciada por fatores sociais, políticos, econômicos e culturais.

Seronni afirma que o aspecto mais marcante da obra é justamente a maneira como Berger questiona a ideia de que a arte deve ser compreendida apenas pela história oficial ou pelo mercado. “Ele mostra como imagens moldam poder, desejo, consumo e cultura. É um livro que muda a maneira de visitar museus, colecionar e conversar sobre arte”, observa.

Entre as escolhas aparecem também livros que ultrapassaram o contexto em que foram escritos. É o caso de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, recomendado pelo cirurgião-dentista Rildo Lasmar. “Me ajuda em todos os momentos de decisões,” diz ele. 

Escrito há mais de dois mil anos, o tratado militar chinês tornou-se uma referência para áreas como liderança, gestão e estratégia, sendo constantemente revisitado por profissionais dos mais diferentes segmentos.

Já a empresária Wanira Godói aposta em uma narrativa contemporânea. Em A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig, encontrou uma reflexão sobre as escolhas que fazemos ao longo da vida.

“Todos nós fazemos escolhas ao longo do tempo e algumas vezes nos perguntamos ‘e se’ tivéssemos feito uma escolha diferente. O livro mergulha em universos paralelos e nos leva a questionar nossas escolhas. É empolgante,” diz ela. 

No Dia do Escritor, as recomendações lembram que toda grande obra começa com alguém disposto a observar o mundo e transformá-lo em palavras. Décadas depois de publicadas, muitas delas continuam encontrando novos leitores e novos significados. 

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