por Adan Neto
Empreender é uma atividade historicamente associada aos homens. Nos últimos anos, porém, as mulheres ampliaram sua participação no ambiente de negócios e passaram a ocupar espaço cada vez mais relevante na economia goiana. Da criação à confecção, mulheres lideram marcas, coordenam equipes e movimentam uma cadeia produtiva que figura entre as mais relevantes do estado. É o que mostra o relatório Perfil da Mulher Empreendedora 2026, realizado pelo Sebrae Goiás, que aponta que o Estado reúne 374 mil mulheres empreendedoras, número que corresponde a 12% da população feminina em idade ativa. Entre cerca de 1 milhão de pequenos negócios ativos em Goiás, 435 mil são liderados por elas.
Para muitas empreendedoras, administrar o próprio negócio representa a possibilidade de conciliar diferentes jornadas, além de ampliar a autonomia financeira e profissional. Em um setor historicamente impulsionado pelo trabalho feminino, histórias de criatividade, persistência e adaptação ajudam a explicar a força da moda goiana. Goiás abriga o segundo maior polo de vestuário do país, impulsionado pela produção têxtil, pelo comércio atacadista e pela presença de marcas autorais. A atividade está distribuída por diferentes regiões do estado, com destaque para a Região da 44, em Goiânia, um dos principais núcleos do setor.
De acordo com o relatório, a capital está entre os três municípios com maior número de empreendimentos femininos em Goiás. Costureiras, modelistas, designers e outras profissionais sustentam uma atividade que abastece mercados dentro e fora do estado, com forte concentração na Região da 44.
Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Confecções de Roupas em Geral de Goiânia, Edilson Borges, as mulheres representam 70% da mão de obra do setor. “O ramo de confecções é o segundo maior na geração de empregos e é líder na empregabilidade de mulheres na capital”, afirma.
Costurando o próprio negócio

Além do polo produtivo e comercial da 44, composto por galerias, shoppings e a Feira Hippie, outras regiões compõem o cenário da capital, como Campinas, Marista e a Avenida Bernardo Sayão. O empreendedorismo feminino possui diferentes características, já que cada negócio nasce a partir de histórias, vivências e contextos únicos.
A Limoeiro Azul é um dos exemplos da diversidade da moda goiana. Comandada pela estilista Gisliane Mariela e por sua mãe, Maria Elizett, a marca se destaca no mercado por apostar em uma abordagem descentralizada, em que a liberdade criativa e o respeito aos processos artesanais são princípios intrínsecos à produção.
Durante a graduação, Gisliane produzia bolsas com ilustrações autorais e assinava figurinos para artistas independentes. O primeiro passo para criar a marca surgiu após uma experiência frustrante com o mercado de trabalho. “Eu era obrigada a questionar o porquê das costureiras irem tanto ao banheiro e isso me doeu profundamente porque contradiz tudo que eu acredito”, recorda a designer sobre o período em que coordenava uma confecção de artigos militares em Trindade.
A experiência deu espaço para transformar a Limoeiro Azul em um negócio. Maria Elizett foi a grande incentivadora da filha. O empreendimento já conta com mais de 10 anos no mercado e suas criações já pararam até nos palcos do Lollapalooza Brasil. Atualmente, a marca comercializa peças para diferentes regiões do país por meio da internet. “As principais vendas são feitas por meio das redes sociais. Criamos uma comunidade forte que acredita no nosso trabalho”, revela Gisliane sobre a importância da digitalização no atual contexto.
Além do e-commerce, a dupla utiliza as plataformas para se conectar com as clientes e outros profissionais do ramo. Apelidada de “amizades”, a comunidade defende o consumo e produção humanizada. “A moda, na maioria das vezes, é glamourizada. Mas só quem faz, sabe. E dentro de uma confecção nada pode ser romantizado”, afirma.
Desde a modelagem à finalização, blusas, vestidos, saias, conjuntos, macacões e encomendas personalizadas são produzidos por Gisliane. “No dia que estou mais inspirada, faço 20 peças completas”. A estamparia tropical e a criação de um visual criativo tornaram-se assinaturas da marca, que se baseia em uma produção consciente, no estilo slow-fashion, e na inclusão de diferentes tipos de corpos. “Temos o objetivo de entregar peças de qualidade para que elas sejam usadas em vários momentos da vida”, afirmam as empreendedoras.
Outra iniciativa feminina que revela as múltiplas características da moda em Goiânia é o Ateliê Marlene Carneiro. Localizado na região sudoeste, o empreendimento realiza o aluguel e a produção de trajes para celebrações formais e casamentos. Há 18 anos, Marlene transforma sonhos em vestidos. “Todas essas peças foram feitas por mim”, revela a empreendedora que conta com um acervo de mais de dois mil itens.
Filha de costureira, Marlene cresceu observando as mulheres da família transformarem tecidos e linhas em criações únicas na Cidade de Goiás. O que começou como uma tradição familiar tornou-se profissão. Durante décadas – conciliando casa, trabalho e maternidade – Marlene realizou encomendas, ajustes e roupas sob medida.
A ideia de abrir o próprio negócio surgiu quando ela percebeu que o conhecimento acumulado ao longo dos anos poderia trazer mais autonomia e uma melhor qualidade de vida à família. A partir disso, Marlene reuniu suas criações e construiu um acervo. “A locação de vestidos foi a virada de chave da minha vida”, afirma a empreendedora.
Além de coordenar a empresa, Marlene também corta, costura, modela e borda. Atualmente, o ateliê funciona mediante uma lista de espera com média de três meses para encomendas de vestidos de noiva. Com trabalho, dedicação e enfrentando as dificuldades do mercado e do etarismo, o negócio cresceu e apresentou novos horizontes. “A costura permitiu que eu realizasse todos os meus sonhos”, arremata a empreendedora, que, atualmente, compartilha nas redes sociais suas aventuras pelo mundo ao lado do filho.

Desafios, conexão e incentivo
Quando se analisa o panorama de remuneração, os homens ainda continuam com maiores ganhos, enquanto as mulheres lidam com dificuldade de acesso ao crédito. Em Goiás, cerca de 78% das empreendedoras ainda enfrentam dificuldades financeiras. Nesse sentido, o Sebrae, por meio do programa Plural, criou o projeto Delas para contornar essas desigualdades no empreendedorismo goiano e incentivar a inclusão feminina. “Com eventos e trilhas de capacitação temos o objetivo de criar um ambiente acolhedor para que essas barreiras sejam transpostas”, afirma a gestora de moda do Sebrae Goiás, Thais Oliveira, em entrevista exclusiva a Zelo.
O registro também é outra alternativa que viabiliza maiores remunerações às empreendedoras. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), coletados durante o terceiro trimestre de 2025, revelam uma diferença de mais de três mil reais no rendimento de empreendimentos formalizados em relação às iniciativas irregulares.
Outro desafio do empreendedorismo goiano é a desvalorização da cadeia produtiva. Em relação à Indústria da Moda, a gestora revela que a competitividade de preços menores entre os lojistas incentiva a precarização da mão de obra local. Segundo Thais, a união entre os empreendedores torna o mercado mais amigável e respeitoso com os profissionais incluídos. “Se o pequeno empreendedor conseguir agregar valor a sua marca, construir estratégias assertivas e conseguir criar bons relacionamentos com os clientes ele não irá competir por preços. E isso acontece quando ele passa a valorizar quem produz”, afirma.
Com o intuito de unificar os empreendedores do vestuário, o Sebrae Goiás atua com o projeto Conecta Moda: uma ferramenta idealizada para aproximar negócios e para desmistificar a concepção de concorrência no mercado. O programa reúne marcas, fornecedores, profissionais, pequenos produtores, costureiras, modelistas, desenhistas, estilistas, bem como instituições públicas e privadas, com o objetivo de fortalecer o polo goiano.
Entre as estratégias de conexão do programa, está a criação de canais de comunicação online para a divulgação de serviços e prestadores, além da promoção de portfólios para todo o estado. “O que pudermos fazer para que, cada vez mais, possamos somar e dar visibilidade ao cenário é bem-vindo”, continua Thais.
A Karine Brasil é uma das integrantes das políticas inclusivas do Sebrae e representa a categoria de acessórios com peças artesanais feitas a partir de cerâmica. A designer tem como assinatura o coração humano e utiliza de referências culturais goianas para a produção de anéis, colares, broches e esculturas.
Por meio dos projetos, a marca atua em duas frentes: moda e artesanato. De acordo com a idealizadora, a possibilidade de participar de consultorias, cursos e eventos são experiências diferenciais para a projeção do negócio. “Por meio de ensinamentos, aprendemos a nos adaptar ao mercado e a atender as tendências do público. Isso facilita uma produção mais assertiva”, revela Karine.
A empresa já participou de três edições consecutivas da Amarê Fashion. A empreendedora comenta que a experiência viabilizou projetos especiais e permitiu parcerias com instituições de outras regiões do país, como o Rio Moda. Atualmente, a marca também integra o time de criativos de iniciativas comerciais e de internacionalização, como o grupo Mulheres de Negócios – exclusivo ao empreendedorismo feminino, e o Conecta Moda.
Segundo Karine, as políticas de incentivo do Sebrae Goiás ajudaram o negócio a enfrentar os desafios do mercado. Por meio de consultorias e acompanhamentos constantes, o negócio foi impulsionado. “A visibilidade da minha empresa cresceu bastante, bem como o faturamento. É um processo contínuo de aprendizagem e adaptação”, finaliza.















