O artista visual Jorge Feitosa leva à Mata Lab, na Cidade Matarazzo, em São Paulo, um acervo que transforma colecionismo em narrativa cultural. A mostra, que pode ser uma excelente dica para quem visita a capital paulista nos próximos dias, reúne obras autorais e peças históricas garimpadas ao longo de mais de 20 anos por Feitosa e seu marido, o executivo Fábio Garcia, em antiquários e feiras de antiguidades ao redor do mundo.
Ítens como uma bandeja de cobre do século XIX, um vaso francês em cristal azul-cobalto, porcelanas vintage da Yves Saint Laurent e uma cornucópia de cerâmica brasileira encontrada em um antiquário norte-americano compõem parte do acervo, que reúne obras autorais do artista visual e uma seleção de objetos históricos colecionados ao longo de mais de 20 anos ao lado do marido, o executivo Fábio Garcia.
Mais do que uma exposição de peças decorativas, o projeto apresenta uma curadoria construída a partir do conceito de “Memória da Matéria”, desenvolvido por Jorge Feitosa. A ideia parte da compreensão de que os objetos carregam marcas do tempo, histórias e significados que ultrapassam sua função original. “O que define a memória da matéria é compreender que os objetos não são inanimados. Eles retêm os rastros do tempo, as mãos que os tocaram e as histórias que sobreviveram ao esquecimento”, afirma o artista.
O convite para ocupar a Mata Lab surgiu após os diretores Carolina Friedmann e Tunico de Castro Filho conhecerem o acervo pessoal do casal e identificarem afinidade com a visão estética e curatorial desenvolvida por Jorge. A partir daí, a coleção privada ganhou uma dimensão pública, passando a integrar um dos principais espaços dedicados ao design autoral e à economia criativa no país.
Design e memória
A exposição reúne obras recentes de Jorge Feitosa, incluindo pinturas, aquarelas e cerâmicas, algumas recém-chegadas de uma mostra realizada em Paris durante o Ano do Brasil na França. Ao lado da produção contemporânea, estão peças históricas acompanhadas por fichas de curadoria que detalham sua origem e trajetória.
Entre os destaques está um raro vaso em Cristal Doublé azul-cobalto produzido pelas extintas Cristalleries de Nancy, na França, entre as décadas de 1920 e 1930. Também integram o acervo castiçais da tradicional cristaleria belga Val Saint Lambert, taças da coleção Golden Zuzana, criadas pelo designer tchecoslovaco Jozef Stanik, e porcelanas vintage produzidas pela Yves Saint Laurent em colaboração com a fabricante japonesa Yamaka International.
A produção brasileira também ocupa lugar de destaque na mostra, com peças como castiçais da Metalúrgica Abramo Eberle, referência da ourivesaria nacional no início do século XX, além de exemplares da cerâmica brasileira produzida entre as décadas de 1950 e 1970.
Segundo Fábio Garcia, o colecionismo acabou se transformando em uma forma de construir memória e identidade. “Aprendi com o Jorge que criar um acervo é também imprimir identidade e construir um legado de curadoria. Nossas viagens se tornaram um aprendizado mútuo, aprofundado em anos de observação, seleção e entendimento do que realmente tem valor”, afirma.
Muitas peças carregam histórias curiosas de descobertas e reencontros. Uma delas é uma cornucópia de cerâmica brasileira dos anos 1960 encontrada nos Estados Unidos e trazida de volta ao país. Outra é um vaso de cerâmica adquirido durante uma viagem ao Oregon, cuja descoberta acabou inspirando a ampliação do projeto para além das obras de arte do artista.
A chegada do Acervo Jorge Feitosa à Mata Lab também reflete uma tendência crescente do mercado de luxo: a valorização de objetos com história, autoria e relevância cultural. Em vez da busca pelo novo a qualquer custo, a proposta aposta em peças que carregam narrativas e atravessam diferentes épocas. “O acervo não é sobre revenda comercial. É sobre continuidade. É conectar objetos que têm história a novos lares. No fundo, não somos donos dessas peças — somos apenas guardiões temporários da história que elas carregam”, resume Jorge Feitosa.
Serviço – Acervo Jorge Feitosa na Mata Lab
Onde: Mata Lab – Cidade Matarazzo
Endereço: Alameda Rio Claro, 260, Bela Vista, São Paulo (SP)
Visitação: de segunda a sábado, das 10h às 22h; domingos, das 14h às 20h

















