Por que não Leoni?

(Foto: Reprodução/Cotidiano da Gente)
Carlos Leoni Rodrigues Siqueira Júnior, ou simplesmente Leoni, começou sua carreira como principal compositor e baixista do Kid Abelha, nos anos 80, e estourou. Ainda garoto, descobriu o amor pela música e deu início às aulas de violão aos onze anos, desistiu de duas faculdades, frequentou duas bandas, lançou carreira solo e ficou seis meses em primeiro lugar nas paradas de sucesso de todo o país, com a música “Garotos II”. O carioca que não tinha certeza se conseguiria fazer da música a sua profissão eternizou parcerias com artistas como Cazuza, Herbert Vianna, Léo Jaime, Paula Toller e Frejat. Na próxima quinta-feira (23/01), o cantor se apresenta em Goiânia, no Shopping Passeio das Águas, e bateu um papo bem legal com a Zelo sobre carreira, música, internet e projetos futuros. Confira a entrevista:

Qual foi o seu primeiro contato com a música? Quando foi que sentiu que seria sua profissão?
Leoni: Não foi uma decisão consciente em momento algum! Havia uma decisão de que a música faria parte da minha vida, mas até entrar na faculdade eu não achava que seria minha profissão. Mesmo porque tinha muito pouco espaço para a música que eu gostava de fazer, que era mais rock. Nos anos 80 que a coisa se modificou e a gente percebeu que havia espaço para fazer isso profissionalmente, eu já devia ter uns 19 ou 20 anos. E a partir daí foi muito rápido, desde a decisão até as coisas acontecerem. Assim que a Blitz estourou, tinha a Rádio Fluminense, o Circo Voador, e as coisas aconteceram muito rápido aqui no Rio, foi quando surgiu o Kid Abelha. Então não houve muito tempo de maturação da ideia, tanto que eu acabei largando a faculdade, porque eram muitos shows, gravações, eu realmente não tinha mais tempo para estar na faculdade.

Quais eram suas maiores inspirações no início da carreira?
Leoni: Eram bandas internacionais da época e principalmente bandas nacionais amigas, eu era amigo do pessoal do Paralamas (do Sucesso), Capital (Inicial), Legião (Urbana), o Leo Jaime, com quem eu até dividi apartamento, então a gente se influenciava muito. Era o rock da época! Mas eu gostava muito dos letristas. Chico Buarque eu adorava! Só que aqui no Brasil eram poucos que faziam uma linguagem parecida com a nossa, era mais Rita Lee, Raul Seixas, Mutantes.
Como se deu a formação do Kid Abelha e como era integrar o grupo?
Leoni: Eu tinha alguns amigos na escola que também gostavam de música e a gente ficava tocando juntos, então montamos uma banda, que na época tinha outro nome, outra ideia, nenhuma pretensão de profissionalizar. Já na época da faculdade, esses amigos desistiram da música, queriam carreiras mais “confiáveis”. E a gente começou a refazer a banda já na PUC-Rio, foi aí que eu conheci a Paula (Toller) e o (Carlos) Beni, que era baterista na época, conheci o George Israel, e então a gente remontou a banda e ficamos procurando um guitarrista, só um tempo depois que encontramos o Bruno Fortunato. Nascia então Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, nome que foi escolhido durante uma transmissão ao vivo na Rádio Fluminense. Mas no começo a gente não achava que as coisas fossem acontecer, tanto que quando tocou nossa primeira música na Fluminense a gente já começou a pensar que tinha vencido na vida, que seria o auge da nossa carreira. Não sabíamos que era só o começo do caminho! Aquilo era uma demo quando tocou na rádio, depois nós fomos gravar com a produção do Lulu Santos, a gente já não acreditava que tinha conseguido tanta repercussão. Houve até um deslumbramento total!
Em 1995 você lançou o “Letra, música e outras conversas”, livro no qual entrevistou grandes nomes da música sobre seus processos criativos. Já pensou em fazer algo parecido agora, quase 20 anos depois?
Leoni: Eu estou pensando em relançar ele agora. A única diferença seria uma entrevista com o Alvin L., que é um compositor, meu parceiro, parceiro do Dinho Ouro Preto. Ele fez uma entrevista comigo sobre o meu processo de composição, que eu vou inserir no livro e fazer uma segunda edição. Eu adoraria fazer outro livro, entrevistar outras pessoas, mas dá muito trabalho, eu me lembro que tirei seis meses de vida só para escrever e eu não vou ter esse tempo.
Ao lançar o “Áudio-retrato” você trabalha diretamente com o que você compôs até então. Qual foi sua intenção com o disco?
Leoni: Aconteceu meio por acaso. Tinha uma época que a Som Livre lançava uns discos chamados de “Perfil”, que eram os grandes sucessos dos artistas reunidos. Eu não tinha como fazer um perfil meu, eu não havia interpretado meus maiores sucessos. Uma parte era Kid Abelha, outra parte era Heróis da Resistência, tinham algumas canções que eu não tinha gravado, mas que tinham feito sucesso com o Cazuza, com o Leo Jaime. Foi um jeito de eu poder me apropriar do meu repertório, das produções que eu havia composto, então eu regravei aquilo tudo e pude lançar como meu repertório. Eu chamei no release de “reapropriação do meu repertório”, porque muita gente não sabia que eu tinha composto “Exagerado”, com o Cazuza, “Fórmula do Amor”, com o Leo Jaime. Então foi um jeito também das pessoas entenderem melhor quem eu era como compositor.
Com as facilidades que a internet trouxe, principalmente no cenário musical, você acha que essa praticidade veio para somar ou acabou atrapalhando?
Leoni: Olha, tem dois lados! Para quem estava no mercado e tinha uma gravadora foi um desastre. Porque as gravadoras deixaram de possuir o controle de distribuição das músicas, elas estavam em todos os lugares, você podia baixar na internet, ouvir no Youtube, não era mais preciso comprar um CD. A vendagem de discos caiu muito e também quem estava nesse clubinho fechado, mas todo o resto ganhou. Todo mundo hoje em dia tem direito de se lançar na internet, procurar o seu público, criar uma carreira, independente de ter gravadora ou não. A música ganhou muito também, porque as gravadoras apostavam nos ‘formatos vencedores’, músicas de até três minutos, com arranjos chegados ao axé ou ao sertanejo, e agora quem quiser lança o que quiser. Então, ficou muito mais democrático, é um período muito fértil musicalmente, que pode não estar na televisão ou na rádio, mas a internet é um frisson de novos estilos, propostas. Em Goiânia mesmo tem uma banda que eu adoro, a Boogarins, eu quero até conhecer os caras. Enfim, em qualquer lugar do Brasil tem uma cena bacana, que é uma coisa que não acontecia. Acho que a música está muito mais democrática, mais plural do que já foi, só está mais difícil chamar atenção, porque consequentemente você compete com muito mais artistas, mais informação. Muitos artistas, inclusive, reclamaram da internet por terem perdido sua condição de ‘eleitos’. Eu já acho que é um momento muito rico culturalmente, porque com tanta gente oferecendo música, pra chamar atenção tem que ser bom, tem que ter talento.
E você usa essa questão da internet e redes sociais pra manter contato com o público? Como é sua relação com os fãs?
Leoni: Muito! Eu acho que fui um dos pioneiros aqui no Brasil. Comecei com o Orkut, ainda em 2004, montei um site em 2006, em que eu cadastrava as pessoas e promovia concursos de composição, de canto, de literatura, e até pesquisas com as opiniões dos fãs. Agora mesmo eu estou lançando, pelo meu site, um trabalho só de demos, eu faço as demos solos de músicas inéditas minhas e lanço uma por mês de graça. E o título desse trabalho foi escolhido pelos internautas, foi batizado de “Promessas de Gaveta” e não vai ter pra vender, é uma proposta gratuita mesmo.
E sobre o show em Goiânia na próxima quinta-feira (23), o que o público goiano pode esperar do #comomudaromundo? Que mensagem você pretende passar com o show?
Leoni: Primeiro a gente tem que ver que não é uma afirmação, não sou eu dizendo como mudar o mundo, tem um ponto de interrogação. Porque eu acho que o melhor jeito da gente mudar o mundo é junto, se vier alguém com uma fórmula mágica vai agradar alguns e desagradar outros. A gente precisa conversar, é muito mais complicado do que as pessoas imaginavam no século XX com aquelas ideologias. A democracia é muito mais complexa, a gente tem que ouvir todos os lados, ouvir aquilo que a gente não gosta, então a ideia é que as pessoas participem. Eu escrevi algumas músicas de cunho político para o show, mas por outro lado, é um show mais dançante, mais festa. Eu também acho que a política faz parte da celebração da vida em sociedade. Vai ser um show mais dançante, eu toco menos violão, mais guitarra, tem menos baladas e no final tem um “festival de sucessos” pro público cantar junto.
Algum projeto futuro que você possa compartilhar com a gente?
Leoni: Eu até botei no meu site, esse ano eu vou lançar muita música, nem sei como, mas vou lançar! Tem esse projeto de demos solos, tem algumas músicas que eu compus pro show que eu quero gravar com a banda e registrar. Tem músicas que eu quero dar continuidade às parcerias, tenho três parcerias com a Zélia Duncan, cinco com Frejat, uma com o Dudu Falcão, várias que eu nunca registrei. Eu estou compondo com algumas bandas novas, iniciando uma parceria com Vespas Mandarinas, de São Paulo, tem várias músicas engatilhadas com artistas, então vem muita música aí! Não pretendo lançar um disco, mas vou lançar mais músicas do que lançaria com um disco.
Para finalizar, tem algum momento que você considera o mais marcante da sua carreira?
Leoni: Tem sim! Primeiro, é claro, quando eu toquei com o Kid Abelha no Rock in Rio, em 1985, eu era um garoto, um pirralho, e ver aquela multidão foi muito emocionante, eu não esperava por aquilo. Quando eu lancei minha carreira solo também, eu estava bastante afastado da mídia, sem gravadora, e quando eu voltei ao Canecão, em São Paulo, e soube que na véspera já não tinha mais ingressos, foi outra emoção muito grande.

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