Um acessório criado pela designer goiana Eleonora Hsiung chamou a atenção em uma das cenas mais dramáricas de Quem Ama Cuida, novela da Globo. Durante o confronto entre Dora, personagem de Mariana Ximenes, e Ademir, interpretado por Dan Stulbach, parte do público só queria saber informações sobre a peça. A choker Suma integra o figurino da personagem e reforça uma trajetória que já levou criações do Ateliê Eleonora Hsiung a diferentes produções da emissora.
A participação das joias da designer na novela começou antes das gravações. Em entrevista à Zelo, Eleonora conta que a produção procurou o ateliê para desenvolver a composição da personagem de Mariana Ximenes. “A Flavia Costa, figurinista da novela, entrou em contato conosco para a produção da personagem da Mariana Ximenes, com quem até já temos uma relação direta, antes das gravações começarem”, relata.
Segundo Eleonora, a parceria continua durante a novela e novas peças do ateliê já estão sendo encaminhadas para outra personagem nos próximos capítulos.

Joias na dramaturgia
A relação de Eleonora Hsiung com as produções da Globo começou ainda nos primeiros anos do ateliê. Segundo a designer, ela chegou a visitar o Projac, antigo nome dos estúdios da emissora, levando os primeiros protótipos que havia criado. O material despertou o interesse das figurinistas e algumas das peças foram utilizadas por Carolina Ferraz em O Astro. “Foi assim que ‘despontamos’ nacionalmente”, conta Eleonora.
A partir daí, outras criações passaram a integrar figurinos de produções e foram usadas por nomes como Xuxa, Adriana Esteves, Claudia Raia, Danielle Winits, Fernanda Lima, Marina Ruy Barbosa, Giovanna Antonelli, e Taís Araújo. Segundo ela, a presença das peças nas produções pode ocorrer de diferentes formas. Em alguns casos, o ateliê comercializa as joias para a produção. Em outros, realiza empréstimos para compor os figurinos.
Mais do que inserir um acessório em uma produção audiovisual, a designer vê esse processo como uma possibilidade de participar da construção dos personagens. Para ela, o trabalho começa ainda antes das gravações, quando é possível conhecer as referências visuais que orientam a criação do figurino. “É uma delícia participar desse processo, sobretudo quando temos a oportunidade de entrar ainda na pré-produção, em que a gente estuda os boards de inspiração que as figurinistas criam”, afirma.
Eleonora entende que a indumentária exerce uma função narrativa. A escolha de uma roupa, de um acessório ou de uma joia contribui para estabelecer características de um personagem e comunicar aspectos de sua personalidade ao público. “Indumentária é identidade. Então, contar isso através de personagens, que são forjados, estudados, construídos, é muito especial”, completa.
Autoria e cultura de massa
Para a designer, a presença de uma criação autoral em uma novela também provoca uma reflexão sobre a relação entre design independente e cultura de massa. Em vez de enxergar a grande circulação como uma ameaça à singularidade de uma peça, Eleonora considera que a exposição pode acrescentar novos significados à criação. “Acho especialmente interessante justamente esse encontro entre uma criação autoral e a cultura de massa”, diz ela.
Para ela, existe uma percepção de que trabalhos autorais precisam circular em ambientes restritos para preservar seu valor, mas essa não é a sua visão. Quando uma peça criada a partir de uma pesquisa particular passa a integrar uma novela, ela pode alcançar um público muito maior sem deixar de carregar a identidade de quem a criou. A joia também passa a fazer parte da narrativa visual de uma personagem e, consequentemente, do imaginário dos espectadores.
“A novela talvez seja um dos poucos lugares no Brasil em que universos muito diferentes ainda se encontram”, observa. “Gosto de pensar que uma peça que começou na intimidade da minha prancheta pode, de repente, estar diante de milhões de pessoas, compondo uma personagem, ajudando a contar uma história.”
Para Eleonora, autoria não tem a ver com exclusividade de acesso, mas com identidade. “É muito bonito perceber que uma criação pode manter sua identidade mesmo quando alcança uma escala tão grande.”
Trajetória
Formada em Direito e com pós-graduação pelo Instituto Europeu de Design, Eleonora Hsiung desenvolve joias inspiradas no cotidiano, na arte e nas formas orgânicas. Seu trabalho combina desenho autoral e uma pesquisa voltada a formas fluidas e contemporâneas.
O Ateliê Eleonora Hsiung é comandado pela designer ao lado da sócia, Julliana Araújo. O espaço também funciona como extensão da linguagem da marca, aproximando joalheria, design e arte.
Em fevereiro de 2026, a marca ampliou sua atuação internacional ao participar da Semana de Moda de Nova York com a coleção “Frame of Freedom”, apresentada em parceria com a Kennzai. A participação marcou a estreia da marca no evento e foi apresentada como a primeira presença de uma marca brasileira de acessórios em um desfile da programação.
E a parceria com a dramaturgia ainda terá novos capítulos. Eleonora adianta que o ateliê já está enviando outras peças para uma personagem que entrará em uma nova fase da novela. “Vem novidade aí!”, antecipa.

















