O mês de janeiro é dedicado à conscientização sobre saúde mental e se insere em um contexto marcado por jornadas exaustivas, responsabilidades familiares sobrepostas e pressão constante por produtividade. Com isso, diferentes gerações convivem com níveis elevados de sofrimento emocional. No Brasil, ansiedade, depressão e esgotamento mental deixaram de ser exceção para se tornar parte do cotidiano. É nesse contexto que o Janeiro Branco ganha relevância ao propor uma discussão pública sobre saúde mental. Para a psicóloga Soraya Oliveira, do Centro Clínico do Órion Complex, em Goiânia, o adoecimento psíquico precisa ser compreendido a partir das estruturas sociais, culturais e geracionais que moldam a vida contemporânea.
“É preciso ampliar a visão sobre saúde mental”, afirma a especialista. Para ela, o Janeiro Branco surge como um momento estratégico para compreender como fatores culturais, sociais e geracionais impactam diretamente o bem-estar psíquico. Criado em 2014 pelo psicólogo brasileiro Leonardo Abrahãoa campanha propõe diálogo, prevenção e redução de estigmas. A escolha do mês se relaciona ao simbolismo do início do ano, entendido como uma “folha em branco” para reflexões e recomeços emocionais.
Desde 2023, o Janeiro Branco integra oficialmente o calendário nacional por meio da Lei Federal nº 14.556/23, segundo o portal Serviços e Informações do Brasil. O reconhecimento fortalece iniciativas públicas e privadas voltadas ao cuidado psicológico. Atualmente, a campanha também ocorre em países como Portugal, Espanha, Estados Unidos e Japão, ampliando seu alcance internacional.
Saúde mental como questão coletiva
Para Soraya, tratar saúde mental como escolha individual limita o enfrentamento do problema. Ela defende uma abordagem coletiva, que considere as condições sociais e culturais. O Janeiro Branco atua justamente nesse campo, ao estimular debates públicos e ações preventivas em escolas, empresas e serviços de saúde. Os dados reforçam essa urgência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 1 bilhão de pessoas vivam com algum transtorno mental no mundo. No Brasil, até 15,5% da população pode desenvolver depressão ao longo da vida, segundo o Ministério da Saúde. A ansiedade lidera os índices de sofrimento emocional no país.
A geração X, formada por pessoas nascidas entre 1965 e 1980, ocupa hoje um lugar de grande sobrecarga social. Segundo Soraya, trata-se de uma geração que atravessou profundas transformações no trabalho, na família e na tecnologia. Ao mesmo tempo, mantém responsabilidades herdadas de uma cultura altamente exigente. “Muitos cuidam dos filhos e dos pais ao mesmo tempo”, explica a psicóloga. Esse papel de cuidador integral gera fadiga emocional e financeira. Por isso, a geração X passou a ser identificada como a “geração do cansaço”, expressão que sintetiza uma exaustão contínua e pouco reconhecida socialmente.
“O cansaço não é apenas físico, mas existencial e moral”, afirma Soraya. Segundo ela, o fracasso em dar conta de todas as demandas costuma ser vivido como falha pessoal. Esse processo ignora que o adoecimento resulta de um sistema excessivamente exigente e pouco acolhedor. Esse cenário se manifesta por meio de ansiedade generalizada, depressão, sentimento de culpa e somatizações físicas. Muitas pessoas têm dificuldade de reconhecer esses sinais, o que prolonga o sofrimento e dificulta o cuidado adequado.
Sobrecarga emocional
Soraya aponta que parte desse esgotamento está diretamente ligada às desigualdades de gênero. Apesar de mudanças recentes, muitas mulheres da geração X acumulam funções. Elas atuam como provedoras financeiras, cuidadoras dos pais e responsáveis pela organização emocional da família. “Essa cultura cobra que a mulher ocupe esse lugar de cuidado, e quando ela não ocupa, mesmo delegando, vem a culpa”, explica a psicóloga. O julgamento social intensifica a culpa quando essas mulheres não ocupam esse lugar integralmente, mesmo ao delegar cuidados. Esse processo reforça a sensação de invisibilidade e amplia o adoecimento emocional.
Para Soraya, quebrar esses ciclos não depende apenas de força de vontade. A mudança exige reposicionamento subjetivo, relacional e simbólico. “A sociedade está adoecida e a saúde mental precisa ser tratada como prioridade, não como escolha”, afirma Soraya, reforça, ao defender uma leitura menos individualizante do sofrimento. “O ciclo pode ser quebrado, porém não sem conflito, culpa inicial e perdas simbólicas”, afirma. Segundo ela, os ganhos aparecem após esse processo. Entre eles, estão relações menos assimétricas, mais saúde psíquica e envelhecimento com menos ressentimento. “A geração X precisa aprender a não se sacrificar como única forma de existir”, diz.
Estímulos e Imediatismo
A geração Z, formada por pessoas nascidas entre meados dos anos 1990 e 2012, cresceu em um ambiente hiperconectado. Nativos digitais, esses jovens tiveram acesso precoce a telas, estímulos constantes e respostas imediatas. Esse contexto moldou um perfil marcado pela agilidade, mas também pela urgência. Segundo Soraya, o imediatismo não é escolha consciente. “O imediatismo funciona quase como um ansiolítico, numa tentativa de aliviar frustrações e respostas que não são encontradas nas necessidades emocionais”, explica Soraya.. Sem mediação psíquica, transforma-se em ansiedade e esgotamento. Para ela, a urgência atua como estratégia de regulação emocional diante de um mundo instável.
Os números confirmam essa leitura clínica. Cerca de 33% da geração Z já recebeu diagnóstico de ansiedade, segundo levantamentos internacionais. No Brasil, aproximadamente 65% dos jovens entre 18 e 24 anos relatam sintomas de ansiedade, conforme dados da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Além disso, 50% dos jovens brasileiros avaliam sua vida emocional como ruim ou muito ruim, de acordo com relatórios da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do Instituto Cactus. No trabalho, pesquisas da McKinsey e da Deloitte indicam que 25% da geração Z sente ansiedade laboral.
Reconstruir tempo, vínculo e sentido
Para Soraya, o desafio não passa por demonizar a tecnologia. Também não envolve romantizar o sofrimento das gerações anteriores. O caminho está na reconstrução da experiência do tempo, do vínculo e do sentido. “A paciência precisa ser aprendida”, afirma. Segundo ela, o desconforto inicial faz parte do processo. Quando aprende a esperar, a geração Z não perde potência. Pelo contrário, ganha profundidade, sentido e saúde mental.
Em 2026, o Janeiro Branco adota o tema “Paz · Equilíbrio · Saúde Mental”, conforme o site oficial da campanha. A proposta reforça a urgência de desacelerar e priorizar o cuidado emocional. Mais do que um mês simbólico, o Janeiro Branco propõe uma mudança de postura coletiva. Como lembra Soraya Oliveira, ampliar a visão sobre saúde mental é essencial para atravessar o presente com mais consciência, responsabilidade e cuidado.














