Fernanda Montenegro completa 97 anos nesta sexta-feira (16). Nascida no Rio de Janeiro, em 1929, a atriz construiu uma trajetória que acompanha a própria formação da dramaturgia brasileira, dos primeiros anos da televisão à projeção internacional do cinema nacional. Com mais de oito décadas de atividade artística, tornou-se referência no teatro, no rádio, na televisão e no cinema, além de ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Sua história reúne pioneirismo, reconhecimento internacional e uma relação com a arte que permanece ativa quase um século depois de seu nascimento.
Antes de se tornar Fernanda Montenegro, era Arlette Pinheiro Esteves da Silva, menina nascida no bairro do Campinho, na Zona Norte carioca. A escolha do nome artístico também revela sua ligação com a literatura: Fernanda surgiu pela sonoridade que lhe remetia aos romances de Honoré de Balzac e Marcel Proust, enquanto Montenegro foi adotado em homenagem a um médico homeopata amigo da família. O nome atravessaria décadas e se tornaria indissociável da história das artes cênicas no Brasil.

A carreira começou aos 15 anos, na Rádio MEC, onde trabalhou como redatora, locutora e radioatriz, realizando traduções e adaptações de obras literárias. A experiência radiofônica foi decisiva para sua formação artística, especialmente no domínio da palavra e da interpretação. Em 1951, tornou-se a primeira atriz contratada pela TV Tupi no Rio de Janeiro, participando dos primeiros passos da teledramaturgia brasileira, quando a televisão ainda descobria sua linguagem e suas possibilidades narrativas.
Sua estreia na TV Globo ocorreu em 1965, ano de fundação da emissora, com uma participação no programa 4 no Teatro. Em 1981, estreou nas novelas da casa em Baila Comigo, de Manoel Carlos. A partir de então, integrou o elenco de mais de 30 produções da emissora, entre novelas, minisséries e especiais, transitando entre personagens dramáticas e cômicas com uma versatilidade que se tornaria uma de suas características mais reconhecidas.
Produções como Brilhante, Guerra dos Sexos, Cambalacho, Riacho Doce, Esperança, Belíssima e Babilônia ajudam a dimensionar sua presença na televisão brasileira. Em diferentes momentos, Fernanda deu vida a mulheres complexas, autoritárias, vulneráveis, contraditórias e bem-humoradas, sem restringir sua atuação a um único registro. Sua permanência nas telas também permitiu que sucessivas gerações de espectadores conhecessem seu trabalho.
Reconhecimento internacional

O longa-metragem representou um dos momentos de maior projeção internacional de sua carreira. Pela interpretação de Dora, Fernanda conquistou o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim, em 1998, e, no ano seguinte, tornou-se a primeira brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz. A estatueta ficou com Gwyneth Paltrow, por Shakespeare Apaixonado, mas a indicação consolidou o reconhecimento de Fernanda entre os grandes nomes do cinema mundial.
O desempenho em Central do Brasil também sintetiza uma característica recorrente em sua atuação: a capacidade de construir personagens a partir de gestos contidos, silêncios e mudanças sutis de expressão. Na trajetória de Dora, uma mulher inicialmente endurecida pela rotina que gradualmente estabelece uma relação de afeto com Josué, Fernanda encontra espaço para uma interpretação que dispensa excessos e confia na força dramática de pequenas transformações.
O reconhecimento internacional voltaria a se repetir em 2013, quando venceu o Emmy Internacional de Melhor Atriz por Doce de Mãe, especial da TV Globo no qual interpretou Dona Picucha. A personagem, uma viúva de 85 anos que enfrenta as interferências dos filhos em sua vida, permitiu à atriz explorar o humor e as contradições do envelhecimento. A produção posteriormente ganhou uma série, ampliando a presença de Picucha na televisão.
Da ABL ao Guinness

Em novembro de 2024, outro acontecimento demonstrou a dimensão de sua presença na cultura brasileira. Aos 95 anos, Fernanda reuniu cerca de 15 mil pessoas no Parque Ibirapuera, em São Paulo, para uma leitura dramática de A Cerimônia do Adeus, de Simone de Beauvoir. A apresentação entrou para o Guinness World Records, estabelecendo um recorde de público para uma leitura filosófica. Sem personagens, figurinos elaborados ou recursos cenográficos grandiosos, a atriz mobilizou uma multidão por meio da literatura e de sua interpretação.
O episódio também revelou uma dimensão particular de sua trajetória: mesmo após décadas de reconhecimento, Fernanda continua encontrando novas formas de aproximação com o público. A leitura de Beauvoir, autora que aborda questões como envelhecimento, liberdade, amor e mortalidade, estabeleceu um diálogo entre literatura e experiência de vida, conduzido por uma artista cuja própria longevidade se tornou parte de sua presença pública.
Aos 97 anos, Fernanda Montenegro segue vinculada a novos projetos artísticos. Em 2026, integra o elenco do filme Velhos Bandidos, dirigido por Claudio Torres, e participa da produção Emergência 53. A continuidade de seu trabalho reforça uma característica que atravessa sua biografia: a disposição de experimentar diferentes formatos e permanecer em contato com as transformações do audiovisual brasileiro.
Sua influência também encontra continuidade na trajetória da filha, Fernanda Torres, protagonista de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama em 2025. A relação entre as duas artistas aproxima diferentes momentos da história do cinema nacional e evidencia uma herança construída não apenas pelo vínculo familiar, mas também pela dedicação ao ofício da interpretação.
Celebrar os 97 anos de Fernanda Montenegro é revisitar parte significativa da memória cultural do Brasil. Sua carreira atravessou a era de ouro do rádio, a consolidação da televisão, as transformações do teatro e diferentes ciclos do cinema brasileiro. Mais do que a soma de prêmios, personagens e homenagens, sua contribuição está na permanência de uma obra que continua encontrando novos espectadores. Aos 97 anos, Fernanda não representa apenas a história da dramaturgia brasileira: permanece como uma de suas protagonistas.



































