O Dia Mundial da Poesia, celebrado em 21 de março, foi criado pela Unesco em 1999 para valorizar a diversidade linguística e incentivar a troca cultural. A poesia é uma das formas mais antigas e ricas de expressão artística, proporcionando o desenvolvimento da linguagem, da imaginação e da empatia, e pode ser uma ferramenta poderosa para despertar o interesse pela leitura.
“Reconhecer o trabalho dessas poetisas é essencial para que novas gerações tenham referências de criatividade, coragem e sensibilidade literária. Muitas dessas mulheres enfrentam barreiras sociais e culturais para publicar suas obras e hoje suas vozes precisam ser revisitadas e celebradas”, afirma Aline Souza Silva Santos, bibliotecária do Brazilian International School – BIS (São Paulo/SP).
Cada obra publicada por uma escritora contribui para ampliar os horizontes da leitura e da reflexão sobre gênero, sociedade e arte. Segundo Aline, “a poesia dessas mulheres não é apenas expressão artística, mas também resistência, memória e inspiração. Incentivar a leitura de suas obras ajuda a manter viva a história da literatura e a reconhecer a importância de cada contribuição feminina no cenário cultural do país”.
Para celebrar o Dia Mundial da Poesia e incentivar a leitura, confira dez poetisas brasileiras e suas obras mais importantes, que merecem ser conhecidas e lidas por diferentes gerações:
1. Cora Coralina (GO, 1889–1985)
Foi poetisa e contista cuja trajetória literária ímpar reafirma o poder da voz poética que floresce apesar das adversidades. Publicou seu primeiro livro de poemas Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (1965) aos 75 anos, traduzindo em versos a vivência do cotidiano interiorano, a memória das ruas de Goiás Velho, o imaginário popular e a resistência da mulher simples diante das durezas da vida. Antes de ser reconhecida nacionalmente, trabalhou como doceira e gestora de pequenos negócios, experiência que enriqueceu sua escrita com uma sensibilidade humana singular, que combina simplicidade, profundidade e consciência social. Sua obra, revisitadas por várias gerações e amplamente celebrada pela crítica e pelo público, transformou-a em símbolo de perseverança literária e em uma das grandes vozes da poesia brasileira do século XX. Entre seus títulos mais conhecidos estão Estórias da Casa Velha (1967) e Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha (1976).

2. Adélia Prado (MG, 1935)
É poetisa, professora e escritora. Uma das vozes mais singulares da poesia contemporânea, destaca-se pela celebração do cotidiano, da fé, do amor e da experiência feminina em linguagem simples, lírica e profundamente espiritual, situando-se entre os grandes nomes da poesia em língua portuguesa. Sua poesia foi inicialmente reconhecida com o apoio de Carlos Drummond de Andrade e ganhou notoriedade crítica e popular, culminando em prêmios como o Camões e o Machado de Assis. Entre suas obras mais conhecidas estão Bagagem (1975) e O Coração Disparado (1978), este último premiado com o Jabuti e considerado marco de sua produção poética.

3. Cecília Meireles (RJ, 1901–1964)
Foi uma das mais consagradas poetisas brasileiras, cuja voz lírica e sensível atravessou o modernismo com profundidade espiritual, musicalidade e reflexão sobre tempo, memória e transcendência. Iniciou sua carreira ainda jovem, destacando-se não apenas na poesia, mas também como jornalista, professora e cronista cultural, contribuindo para a circulação da literatura em diferentes espaços sociais e educativos. Sua obra, marcada por imagens delicadas e ritmo harmônico, recebeu amplo reconhecimento crítico e popular, influenciando gerações de leitores e escritores. Entre seus livros mais emblemáticos estão Viagem (1939), expressão madura de sua poética introspectiva, e Romanceiro da Inconfidência (1953), que reinterpreta episódios históricos com lirismo e intensidade temática, consolidando-a como um dos pilares da poesia em língua portuguesa.

4. Conceição Evaristo (MG, 1946)
É poetisa, romancista, ensaísta e uma das mais influentes vozes da literatura afro-brasileira contemporânea, cuja obra resgata ancestralidade, memória e experiência negra com profundidade estética e compromisso social. Formada em sociologia e mestre em literatura, Evaristo desenvolveu o conceito de “escrevivência” — uma escritura que entrelaça vida, memória e resistência — para dar voz às histórias de mulheres negras e às experiências marginalizadas no Brasil. Sua poesia e prosa articulam linguagem sensível e engajamento político, reafirmando identidades historicamente silenciadas e ampliando os cânones literários nacionais. Poemas da Recordação e Outros Movimentos (2008) é sua obra poética destacada, uma coletânea de poemas que explora memoriais pessoais e coletivos, identidade negra e resistência social.

5. Hilda Hilst (SP, 1930–2004)
Foi uma das escritoras mais importantes e provocativas da literatura brasileira do século XX, atuando como poetisa, dramaturga e romancista. Sua poesia aborda temas como amor, desejo, morte, espiritualidade e os limites da existência humana, sempre com intensidade emocional e forte questionamento sobre a vida e Deus. Em livros como Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), construiu uma linguagem marcante, que mistura sensibilidade, erotismo e reflexão. Embora tenha sido mais reconhecida pelo grande público após sua morte, hoje é considerada uma autora fundamental da literatura brasileira, celebrada no Brasil e no exterior pela coragem e originalidade de sua obra.

6. Ana Cristina Cesar (RJ, 1952–1983)
Foi poetisa, tradutora e crítica literária, uma das principais vozes da chamada poesia marginal dos anos 1970, cuja obra combina lirismo confessional, fragmentação, intertextualidade e diálogo com a tradição moderna, explorando temas como intimidade, desejo, escrita e identidade feminina. Com circulação inicial em edições independentes, consolidou-se como referência da poesia contemporânea brasileira pela linguagem coloquial e sofisticada ao mesmo tempo. Entre seus livros mais conhecidos estão A Teus Pés (1982), considerado marco de sua produção, e Inéditos e Dispersos (1985).

7. Angélica Freitas (RS, 1973)
É uma das mais vibrantes e inovadoras vozes da poesia brasileira contemporânea, cuja obra se caracteriza pelo humor ácido, crítica social e inventividade formal. Sua obra de estreia, Um útero é do tamanho de um punho (2012), já lhe rendeu circulação internacional e tradução em vários países, e alcançou amplo impacto crítico e de público com livro que reafirma o feminino e questiona, com ironia e intensidade, imagens sociais do que é ser mulher no mundo atual.

8. Auta de Souza (RN, 1876–1901)
Foi poetisa simbolista, mulher preta e uma das vozes pioneiras da literatura potiguar e brasileira, cuja obra se destaca pela profunda religiosidade, misticismo e lirismo marcado pela dor e pela contemplação espiritual. Órfã ainda na infância, morreu precocemente de tuberculose aos 24 anos, tendo encontrado na poesia um espaço de expressão sensível e transcendência. Seu único livro publicado em vida, Horto (1900), reúne versos de musicalidade delicada e intensa introspecção, consolidando-a como nome fundamental do simbolismo no Brasil e referência histórica para a presença feminina e negra na poesia nacional.

9. Gilka Machado (RJ, 1893–1980)
Além de poetisa, foi jornalista e uma das figuras mais audaciosas da poesia simbolista brasileira, cuja obra rompeu com as convenções morais de sua época ao tematizar o desejo, o corpo e a subjetividade feminina com intensidade e originalidade. Iniciou sua carreira ainda jovem, publicando em jornais e revistas literárias, e tornou-se uma voz central no cenário cultural do início do século XX, combinando lirismo apaixonado com crítica social e autonomia estética. Seu livro mais conhecido, Cristais Partidos (1915), reúne poemas marcados por imagens fortes e linguagem vibrante, que celebram a experiência feminina sem subserviência. Além de sua produção poética, Gilka Machado teve atuação destacada no jornalismo e na cultura carioca, sendo lembrada como uma das vozes pioneiras da mulher na literatura e na imprensa brasileiras.

10. Lya Luft (RS, 1938–2021)
Foi poetisa, romancista e ensaísta referência na literatura brasileira, cuja obra explorou com sensibilidade temas como amor, identidade, memória e relações familiares. Formada em letras e com ampla trajetória acadêmica, Lya começou publicando poesia, destacando-se pela clareza e profundidade emocional, e alcançou grande público também com romances e crônicas que combinam reflexão íntima e lirismo. Ao longo de sua carreira, publicou dezenas de títulos, entre eles Canções de Limiar (1964), livro que oferece um olhar poético sobre os limites do existir. Reconhecida por sua capacidade de falar com leitores de diferentes gerações, Lya Luft permanece como uma das vozes mais queridas e influentes da literatura em língua portuguesa.















