A vida fora das redes: por que desconectar virou escolha de saúde mental

vida fora das redes sociais
Foto: Unsplash/Vitaly Gariev
vida fora das redes sociais
Foto: Unsplash/Vitaly Gariev

Reduzir ou abandonar as redes sociais deixou de ser um gesto radical para se tornar uma escolha cada vez mais consciente. Esse movimento de desconexão cresce impulsionado pela busca por saúde mental, atenção plena e relações mais presenciais. Especialistas apontam que o excesso de estímulos digitais tem impactado diretamente o cérebro, o sono e a forma como as pessoas percebem sucesso e felicidade.

No Brasil, plataformas como WhatsApp, YouTube e Instagram concentram grande parte do tempo de uso diário, especialmente entre pessoas de 18 a 44 anos. Ainda assim, cresce o número de usuários que optam por reduzir drasticamente o tempo de tela ou repensar a forma de consumo digital. Dados do Instituto Delete, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indicam que a procura por estratégias para diminuir ou abandonar o uso das redes sociais tem aumentado, ainda que de forma gradual.

Para a psiquiatra Mariana Cardoso, o movimento atual reflete uma mudança profunda de valores. “As redes sociais podem ser tão danosas que quem as consome em demasia percebeu, por si só, que é impossível seguir vivendo apenas rolando feed. Não é mais sobre fazer mais, mas sobre acalmar a mente”, afirma. Segundo ela, a lógica da produtividade constante começa a perder espaço para escolhas mais intencionais. “Preservar energia virou prioridade. Estar presente de verdade, sem a preocupação de performar para uma foto, faz parte desse novo olhar, e isso inclui diminuir drasticamente o uso das redes sociais”, completa.

Uso excessivo das redes é prejudicial

O uso excessivo das redes sociais mantém o cérebro em estado de alerta contínuo. De acordo com Mariana Cardoso, esse comportamento eleva o cortisol, acelera o pensamento e desregula o sono. “Há prejuízo da atenção e da memória recente, além de um movimento constante de comparação, que leva à frustração”, explica. Estudos recentes reforçam essa percepção.

Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade Harvard, publicada na revista JAMA Network Open, acompanhou jovens adultos que reduziram drasticamente o uso de plataformas como Instagram, TikTok e Facebook por apenas uma semana. Os resultados indicaram redução de 25% nos sintomas de depressão, 16% de ansiedade e 15% de insônia.

Outro ponto central do debate é a comparação social estimulada pelas plataformas. “Chegamos a um ponto em que acreditamos que o sucesso só existe se for visível e material”, observa a psiquiatra. Segundo ela, o crescimento interno, seja emocional, espiritual ou psicológico, deixou de ser reconhecido como progresso. Essa lógica impacta diretamente a autoestima e a percepção de valor pessoal, sobretudo em ambientes onde a validação acontece por curtidas, números e alcance.

Na prática: quem aprende a usar com parcimônia

O chamado detox digital pode ser uma ferramenta válida, desde que encarado como ponto de partida. “Ele funciona como um pontapé inicial, mas o objetivo deve ser uma redução duradoura das horas de consumo de telas”, pontua Mariana Cardoso. Sinais de alerta incluem dificuldade de se manter presente, irritação ao se afastar do celular, preferência pelo ambiente digital em detrimento de encontros sociais e checagens constantes durante conversas.

A jornalista Jéssica Chiareli decidiu mudar sua relação com as redes ao perceber que o uso automático do Instagram aumentava seus níveis de ansiedade. “Os dias em que eu passava mais tempo no celular eram justamente os mais ansiosos”, relata. Ela desinstalou aplicativos, desativou contas e passou a consumir conteúdos de forma mais seletiva. “Troquei o tempo de descanso por podcasts, quebra-cabeças e atividades manuais. Sinto saudade de um tempo mais analógico”, diz. O resultado foi uma melhora significativa no foco, na saúde mental e no equilíbrio cotidiano.

Para Jéssica, aprender a usar as redes com parcimônia também significou rever a própria relação com informação e pertencimento. “No começo, existe a sensação de estar ficando de fora, de não acompanhar tudo o que viraliza”, conta. Com o tempo, porém, essa ansiedade foi dando lugar a uma percepção mais clara do que realmente importa. “Passei a me informar mais por conversas, trocas reais, e isso funciona como um filtro. Nem tudo precisa atravessar a gente”, afirma. A jornalista diz que hoje se sente mais presente nas relações e menos pressionada a opinar ou reagir o tempo todo, o que trouxe mais leveza à rotina.

o Instagram soma entre 140 e 146 milhões de usuários no Brasil. Mesmo com números expressivos, o debate sobre limites digitais ganha força. Celebridades como Wagner Moura, Adriana Esteves, Tony Ramos, Malu Mader e Marieta Severo também optam por manter a vida longe das redes, priorizando privacidade e foco no trabalho. Mais do que desaparecer, a tendência aponta para uma relação mais consciente com a tecnologia, em que estar online deixa de ser obrigação e passa a ser escolha.

Quem nunca entrou nesse fluxo

Enquanto muitos tentam reaprender a usar as redes com moderação, há quem nunca tenha se deixado capturar por elas. O servidor público Pedro Franco afirma que sempre manteve uma relação distante com plataformas como Instagram, Twitter e TikTok. “Talvez seja mais fácil falar das redes que eu uso. Tenho conta no Facebook, mas acesso muito pouco, e uso o LinkedIn uma ou duas vezes por semana. Nenhum desses aplicativos está instalado no meu celular”, conta. No celular, Pedro mantém apenas WhatsApp e Messenger, usados de forma funcional.

Segundo ele, a decisão nunca foi exatamente consciente ou militante, mas fruto de um perfil mais discreto. “Nunca me importei muito com a rotina de outras pessoas e sempre entendi que a dinâmica das redes consumiria um tempo que eu prefiro dedicar a outras atividades que me dão prazer”, explica.  Apesar de reconhecer a importância das redes para diversos setores profissionais, ele afirma que nunca se sentiu prejudicado por estar fora delas. “Na carreira que escolhi trilhar, o impacto das redes ainda é pequeno. O bom uso pode potencializar resultados, expandir vínculos e propagar ideias, mas isso não é uma regra universal”, avalia.

Pedro também acredita que é possível se manter bem informado sem estar constantemente conectado. “Consigo acompanhar informações regionais, nacionais e globais de forma suficiente para mim.”, afirma. Ao observar pessoas mais conectadas, ele percebe diferenças claras na relação com o tempo e a atenção. “Existem pessoas que estão constantemente perdendo a batalha para os aplicativos. O uso se torna doentio, especialmente entre os mais jovens”, diz.

Nem todos conseguem alcançar esse grau de desapego digital. Ainda assim, a psiquiatra Mariana Cardoso reforça que exercitar limites é fundamental para construir “uma relação mais saudável com o próprio tempo e com a própria identidade”, segundo ela. Já no cotidiano, Pedro Franco encontra esse equilíbrio ao priorizar experiências simples, vividas longe das telas. “Nunca deixo de lado coisas que não precisam de smartphone e que me dão prazer: música, livros, filmes, séries, família e amigos”, conclui.

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