Curta goiano “A Curva do Rio”, de Kassio Pires, estreia em festival de cinema em Madagascar

Filme será exibido no 20º Madagascourt Film Festival e propõe um olhar sobre identidade e pertencimento no interior de Goiás
Curta goiano A Curva do Rio
(Foto: Kassio Pires)
Curta goiano A Curva do Rio
(Foto: Kassio Pires)

O curta-metragem goiano “A Curva do Rio” (2025), dirigido e roteirizado por Kassio Pires e produzido por Wadih Elkadi, terá estreia internacional em fevereiro no 20º Madagascourt Film Festival, em Antananarivo, Madagascar.  Entre os dias 20 e 25 a produção participa da mostra “À Chacun Son Cinéma”, dedicada a obras autorais que exploram identidades, territórios e diferentes linguagens do cinema contemporâneo. O filme acompanha Anair e o Rio Paranaíba, que conduzem a narrativa sobre identidade e pertencimento no interior de Goiás.

Para o diretor Kassio Pires, a seleção representa um momento de expectativa e observação da recepção do público, de compreender como um filme de linguagem regional dialoga em um festival africano. “É uma oportunidade de estreitar laços e compreender as múltiplas relações identitárias que os povos ao redor do mundo constroem ao longo dos anos”, comenta.

Segundo ele, a presença do curta no festival amplia as leituras sobre o Brasil Central. “Esse encontro traz mais camadas para a identidade da região e, sobretudo, para a identidade goiana, ao colocá-la em diálogo com outras culturas e experiências cinematográficas”, afirma.

O filme aborda a construção da identidade no interior do Brasil e sua pluralidade, conceito que Kassio define como neocaipirismo, e, como consequência, o próprio Cerrado. O projeto nasceu como documentário, mas ao longo do processo assumiu um formato híbrido, aproximando-se da ficção, explica o diretor.

A partir de pesquisa bibliográfica, Kassio Pires investigou diferentes vivências do interior do país em contraponto ao estereótipo do caipira, consolidado por Monteiro Lobato na figura de Jeca Tatu. O recorte narrativo se concentra em Anair, de 60 anos, que vive uma relação conflituosa com a ideia de pertencimento ao interior de Goiás.

Para aprofundar esse tema, o Rio Paranaíba surge como segunda personagem e fio condutor da narrativa. “O rio funciona como metáfora da discussão interna da personagem principal. Interessa revelar os diferentes perfis de pessoas que vivem no interior e, no caso do filme, que compartilham o mesmo espaço: a margem do Rio Paranaíba”, explica.

Pertencimento

Curta goiano A Curva do Rio
(Foto: Kassio Pires)

A escolha de Anair não é casual. Avó de Kassio, ela também representa o movimento de retorno e reencontro com as próprias raízes que atravessa o filme. O rio, por sua vez, funciona como referência simbólica de pertencimento, diz o diretor. “O filme entra na questão dos jovens que saem do interior e, de alguma forma, se sentem deslocados”, afirma.

Segundo ele, ao voltar para a cidade natal, essas pessoas encontram uma identidade modificada, mas ainda ligada às relações do passado. “A gente nunca deixa de ser caipira. É isso que a Anair do filme quer nos dizer”, resume.

O trabalho de Kassio mantém relação direta com o Cerrado e sua representação no audiovisual, colocando o bioma como elemento ativo da narrativa. Há também uma atenção recorrente a personagens anônimos e aos corpos do interior do Brasil em seu cotidiano, em conexão com seus ambientes e histórias, frequentemente pouco representadas no cinema.

Produzido em agosto de 2024, “A Curva do Rio” foi filmado em Itumbiara, cidade natal do diretor, às margens do Rio Paranaíba, que divide o sul de Goiás do Triângulo Mineiro. “A partir do diálogo entre Anair e o rio, revisitamos momentos históricos da região e observamos pessoas comuns que mantêm uma relação direta com suas margens e suas águas”, diz Kassio.

O curta é uma produção da Baloo Filmes em coprodução com a Céu do Cerrado Narrativas Audiovisuais e foi financiado pela Lei Paulo Gustavo, por meio da Secretaria de Cultura do Estado de Goiás.

Neocaipirismo e música sertaneja

A relação entre o Rio Paranaíba e a identidade do interior de Goiás também está no centro de novos projetos do diretor. O longa de ficção “Água Doce”, em desenvolvimento, acompanha um jovem produtor de eventos que se apaixona por um cantor sertanejo. O projeto recebeu o Prêmio Paradiso no ExternaLab, em Brasília, no início de julho, e conta com consultoria de Marcelo Caetano, diretor de Baby (2024).

“Todo o meu trabalho passa tanto por essa construção de identidade, que chamo de neocaipirismo, quanto pela música sertaneja”, explica Kassio. Ele também está em pré-produção de seu segundo curta, “Circo Cerrado”, que acompanha duas irmãs que desejam deixar um ambiente conservador no início dos anos 1990. Além disso, desenvolve o documentário “Dourado Progresso”, sobre a Cachoeira Dourada, submersa após a construção de uma usina hidrelétrica voltada ao fornecimento de energia para Brasília.

 

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