A Geração Z, formada por pessoas nascidas entre 1997 e 2010, se consolidou como a faixa etária de maior gasto médio em belas-artes entre os colecionadores de alto patrimônio líquido, enquanto a inteligência artificial (IA) e os canais digitais ganham espaço na pesquisa e na tomada de decisões de compra. Os dados fazem parte da Pesquisa Global de Colecionismo 2026, realizada pela Art Basel e pela UBS, que ouviu 3.100 colecionadores em dez mercados, incluindo o Brasil, e investigou as transformações no comportamento de quem compra e mantém obras de arte.
Segundo o levantamento, os colecionadores da Geração Z gastaram, em média, US$ 347.460 em belas-artes em 2025, valor 19% superior ao registrado no ano anterior e mais que o dobro da média de qualquer outra geração pesquisada. No conjunto dos entrevistados, o gasto médio anual chegou a US$ 124.265, alta de 13% em relação a 2024. Os valores continuaram a crescer no primeiro semestre de 2026, período em que os jovens mantiveram a liderança.
A presença dessa geração também se destaca nas aquisições de maior valor. Embora apenas 1% dos entrevistados tenha comprado obras por mais de US$ 1 milhão em 2025 e no primeiro semestre de 2026, a Geração Z representou quase metade desses compradores. Entre os jovens colecionadores, 13% haviam desembolsado mais de US$ 1 milhão em obras no primeiro semestre de 2026, ante 3% do total da amostra.
IA ganha espaço entre colecionadores
A pesquisa também aponta mudanças na maneira como os compradores descobrem artistas, avaliam obras e buscam orientação antes de adquirir peças. Em 2026, 72% dos colecionadores de alto patrimônio líquido realizaram pesquisas independentes moderadas ou significativas antes de comprar, dez pontos percentuais acima do resultado de 2025. Entre os integrantes da Geração Z, o índice chegou a 80%.
Nesse processo, os recursos digitais assumem um papel crescente. Segundo o relatório, 58% dos entrevistados utilizaram ferramentas on-line para obter aconselhamento, incluindo publicações digitais, aplicativos e recursos de inteligência artificial. O uso de aplicativos e ferramentas de IA passou de 4% em 2024 para 22% em 2026, indicando a expansão dessas tecnologias no universo do colecionismo.
As redes sociais também participam dessa dinâmica: 32% dos entrevistados citaram o Instagram ou o X, antigo Twitter, como fontes de aconselhamento. O uso foi mais frequente entre os colecionadores mais jovens e as mulheres. Ainda assim, os canais digitais convivem com fontes tradicionais de orientação, como especialistas de casas de leilão, consultores de arte, artistas e galeristas, mencionados por 31%, 30%, 29% e 27% dos participantes, respectivamente.
A percepção sobre a tecnologia é majoritariamente positiva. Cerca de dois terços dos entrevistados consideram que a inteligência artificial pode contribuir para a descoberta de artistas e obras (67%), oferecer recomendações personalizadas (66%), verificar procedência e autenticidade (65%) e apoiar análises de preços e avaliações (64%).
Novos hábitos, preferências tradicionais
Apesar da incorporação de ferramentas digitais, os dados não apontam para um afastamento das linguagens artísticas tradicionais. A pintura foi a principal porta de entrada para o colecionismo, citada por 43% dos entrevistados entre suas três primeiras aquisições. Em seguida aparecem escultura (25%), fotografia (17%), obras em papel e arte digital (15% cada).
A influência familiar também permanece relevante, especialmente entre os jovens. Quatro em cada dez colecionadores da Geração Z afirmaram ter começado a colecionar por influência da família, seja pelo contato com uma coleção familiar, seja pelo incentivo de parentes. No conjunto da pesquisa, essa foi a principal via de entrada, mencionada por 28% dos participantes, à frente das visitas a museus, galerias e feiras, citadas por 22%.
O levantamento mostra ainda que os jovens diversificam seus interesses para além das belas-artes. Em 2026, 42% dos colecionadores da Geração Z haviam comprado em pelo menos duas categorias adicionais de arte e colecionáveis. O grupo também liderou os gastos em praticamente todos os segmentos pesquisados, incluindo joias e pedras preciosas, nas quais a média chegou a US$ 151.310, mais de cinco vezes o valor registrado pela segunda geração que mais gastou nessa categoria, a Geração X.
Privacidade também orienta o colecionismo
O maior poder de compra dos jovens não significa, necessariamente, maior exposição pública. A pesquisa identificou a Geração Z como o grupo mais reservado em relação às próprias coleções, tanto presencialmente quanto nas redes. Entre esses colecionadores, 39% restringiam o acesso às obras a familiares próximos, amigos e pessoas da mesma residência. No ambiente digital, 42% preferiam compartilhar informações em grupos restritos ou acessíveis apenas por convite.
No conjunto dos entrevistados, 64% afirmaram preferir manter a posse de obras em sigilo, limitando o conhecimento sobre suas coleções ao ambiente doméstico ou ao círculo íntimo. Apenas 10% buscavam amplo reconhecimento público como colecionadores. A raridade ou singularidade das obras foi o aspecto mais valorizado na posse, citado por 43% dos participantes e por 48% da Geração Z.
Para Noah Horowitz, CEO da Art Basel, os resultados apontam para uma base de colecionadores mais informada, conectada digitalmente e ativa em diferentes categorias e canais. Segundo ele, a participação crescente dos jovens traz novas expectativas para a relação com o mercado de arte, que passa a combinar encontros presenciais, experiências digitais e formas personalizadas de descoberta e aquisição.
O estudo também registra otimismo em relação ao futuro do setor: 57% dos entrevistados esperavam crescimento do mercado de belas-artes até o fim de 2026, enquanto 58% projetavam expansão nos 12 meses seguintes e 60% demonstravam confiança no horizonte de dez anos.
Os resultados indicam que a transformação do colecionismo não se limita ao perfil de quem compra ou ao volume investido. A pesquisa autônoma, o uso de inteligência artificial e a circulação por diferentes canais passam a integrar a experiência de aquisição, ao mesmo tempo que a exclusividade, a procedência e as relações de confiança continuam a influenciar as escolhas dos colecionadores.














