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Vik Muniz abre mostra indédita em Goiânia com três décadas de produção artística

Mostra “REVER: imagem e reflexão”, na Vila Cultural Cora Coralina, reúne 60 fotografias e investiga a relação do artista com obras da história da arte
Vik Muniz (Foto: Sesc Goiás)
Vik Muniz (Foto: Sesc Goiás)
Vik Muniz (Foto: Sesc Goiás)
Vik Muniz (Foto: Sesc Goiás)

A Vila Cultural Cora Coralina recebe, até 31 de janeiro de 2027, a exposição Vik Muniz_REVER: imagem e reflexão, que reúne 60 fotografias e percorre mais de três décadas da produção de um dos artistas brasileiros de maior projeção internacional. Aberta ao público nesta segunda-feira (5), a mostra tem entrada gratuita e apresenta um recorte dedicado a trabalhos em que Muniz recria obras de outros artistas a partir de materiais como chocolate, poeira, sucata e outros elementos cotidianos.

A exposição acompanha diferentes momentos da trajetória de Muniz e inclui releituras de obras de nomes como Botticelli, Monet, Picasso, Andy Warhol, Joseph Beuys e Yves Klein. A partir dessas referências, o artista investiga as relações entre imagem, matéria e percepção, deslocando obras conhecidas da história da arte para novos contextos e materiais.

Para Muniz, o recorte de REVER permite ao público conhecer sua produção a partir de uma perspectiva específica. “REVER é uma mostra muito completa, com um recorte específico sobre obras que são feitas a partir de outras obras de arte. Ela conta também um pouco da minha história e de como interajo com obras de artistas que vieram antes de mim”, afirma.

O artista começou a trabalhar com obras de outros autores nos anos 1980, quando o conceito de apropriação estava em evidência. Muniz prefere, porém, definir seu procedimento de outra maneira. “Eu não me aproprio das obras. Eu copio mesmo”, diz. Para ele, a cópia permite que uma obra seja atravessada pelo tempo e pela maneira como é percebida em diferentes momentos históricos.  “Copiar é uma coisa honesta. Você tenta fazer com as ferramentas, com o aparato cognitivo da sua época, e a maneira como você vê aquilo é completamente diferente de como uma pessoa do século passado estaria vendo. De certa forma, você coloca o tempo dentro da obra”, explica.

A escolha das imagens também passa por uma relação pessoal com as obras originais. Muniz afirma que não procura necessariamente criticá-las ou comentá-las, mas recriá-las a partir do interesse e da curiosidade que despertam. O processo envolve reconstruir cada referência com seus próprios instrumentos e materiais, criando uma distância entre o trabalho original e sua nova representação.

“Existe um espaço entre a percepção de uma obra, o momento em que ela é feita, o momento em que é vista e o momento em que é refeita. Esse espaço conta uma história que o espectador pode traçar novamente”, afirma. Para o artista, essa experiência pode levar o público a retornar às obras originais e percebê-las de outra maneira, já atravessadas por uma leitura contemporânea.

Imagem e sociedade

A relação entre arte e sociedade também aparece na trajetória de Muniz, embora o artista diga evitar uma abordagem diretamente didática ou política em sua produção. “No momento em que você coloca opiniões no seu trabalho, você divide a sua audiência. Sou muito mais ambicioso em relação à minha audiência”, afirma.

Muniz diz preferir atuar como cidadão quando se envolve com causas políticas e culturais. Entre os projetos mencionados pelo artista está seu trabalho com a Escola Vidigal, no Morro do Vidigal, voltado a crianças e que reúne arte e tecnologia. Ele também cita uma iniciativa realizada com o Museu Nacional depois do incêndio.

Para o artista, uma das dimensões mais importantes de seu trabalho está na maneira como a arte pode estimular o público a olhar e a perceber. “Acho que a parte política do meu trabalho que é mais tocante está no fato de você aprender a ver as coisas e perceber que a visão é muito importante. Os sentidos são importantes”, afirma.

A reflexão se estende ao próprio papel das imagens em um momento em que elas circulam de forma cada vez mais independente de seus suportes originais. “Nesse momento crucial da nossa relação com esses instrumentos que estendem os nossos sentidos, acho que é importante restabelecer uma relação saudável, consciente e com discernimento com a maneira como nos relacionamos com as imagens”, diz.

É também nesse contexto que Muniz explica a escolha por materiais cotidianos e por uma iconografia reconhecível. “Para mim, o mais importante é atingir o maior público possível, o mais eclético possível, porque acho que a arte contemporânea tem esse poder e essa importância dentro da nossa cultura.”

Acesso à arte

A exposição é uma realização do Sesc em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura de Goiás. Para Leopoldo Veiga Jardim, diretor regional do Sesc, a mostra também estabelece uma conexão entre a produção de artistas de projeção nacional e a cena artística de Goiás. “Abre hoje mais uma exposição muito importante em Goiás, trazendo um dos mais importantes artistas plásticos do país, o Vik Muniz. O público vai ter acesso a uma exposição com obras inéditas, que o próprio artista está vendo pela primeira vez algumas dessas obras nas dimensões que nós trouxemos”, afirma.

Segundo o diretor, a proposta é aproximar o público de diferentes gerações e linguagens artísticas. “E o mais importante é a conexão dos artistas, grandes artistas que o Sesc traz com os artistas que produzem em Goiás. Nós temos um celeiro de produção muito importante, uma fábrica de artistas que tem ganhado cenário mundial”, diz.

Leopoldo também destaca a programação do Sesc voltada às artes visuais. “O Sesc tem uma agenda de exposições importantes. A gente acaba de sair de uma importante exposição do Ciro Franco, que foi talvez uma das maiores da sua carreira. Entra Vik Muniz e, na sequência, a gente vai trazer uma exposição do Picasso em 2027, um recorte muito interessante que foi feito pelo Departamento Nacional do Sesc”, conta.

Para ele, a programação cumpre uma função de formação de público. “A gente busca com essas grandes exposições trazer as pessoas para que se formem plateias, para que conheçam os artistas nacionais e busquem, consequentemente, o interesse pelo artista regional. Então é o Sesc cumprindo sua missão institucional de promover cultura e fazer com que as pessoas reflitam sobre a sociedade e sobre suas próprias vidas através da arte.”

Vik Muniz e Leopoldo Veiga Jardim (Foto: Sesc Goiás)

Segunda exposição

E a partir desta terça-feira (6), a Capital recebe uma segunda exposição de Vik Muniz. Na Galeria Leo Romano, “Vik Muniz – Dinheiro Vivo” apresenta um recorte da produção recente do artista, que transforma fragmentos de cédulas em imagens de animais e paisagens brasileiras.

A série começou em 2022, depois de uma visita à Casa da Moeda do Brasil. Na ocasião, Muniz conheceu o processo de fabricação do dinheiro e soube que cédulas com imperfeições eram retiradas de circulação antes de serem trituradas e recicladas. Parte desse material foi disponibilizada ao artista, que passou a utilizá-lo como matéria-prima.

A exposição reúne dois conjuntos de trabalhos. No primeiro, Muniz reconstrói animais representados nas cédulas brasileiras, como mico-leão-dourado, arara, garça, garoupa, lobo-guará e onça-pintada. Cada imagem é composta exclusivamente por fragmentos da nota que traz aquela espécie impressa.

O segundo conjunto utiliza o papel-moeda para recriar paisagens brasileiras representadas por artistas viajantes do século 19, com releituras de imagens de Johann Moritz Rugendas e Franz Keller Leuzinger. A série estabelece uma relação entre o dinheiro como símbolo de valor econômico e as imagens associadas à fauna e ao território brasileiros.

Serviço – Vik Muniz em Goiânia

Vik Muniz_REVER: imagem e reflexão
Visitação: até 31 de janeiro de 2027
Local: Vila Cultural Cora Coralina, Goiânia
Entrada: gratuita

Vik Muniz – Dinheiro Vivo
Abertura: 6 de outubro de 2026, às 19h
Visitação: até 31 de janeiro de 2027
Local: Galeria Leo Romano, Goiânia
Entrada: gratuita

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