Antes de virar chocolate, o cacau passa por um longo processo de transformação. Com Ariana Silva Ribeiro aconteceu algo parecido. O que começou como curiosidade, despertada por um chocolate provado por acaso, atravessou anos de testes e amadurecimento até se transformar na C’alma Chocolates, marca que hoje leva o nome de Goiás para premiações internacionais.
A história da C’alma começou por volta de 2020, em um momento de reinvenção na vida de Ariana. Após o nascimento da filha e o fechamento da loja de roupas esportivas que mantinha ao lado da irmã, ela enfrentava os desafios do puerpério enquanto tentava descobrir qual seria seu próximo passo profissional. Formada em engenharia de produção, estava há anos distante da área e chegou a cogitar voltar a estudar antes de encontrar um novo caminho.
A inspiração surgiu de um chocolate artesanal trazido dos Estados Unidos por uma tia. O sabor diferente despertou uma inquietação que logo virou pesquisa. “Acabei me apaixonando pelo sabor, pelo processo e surgiu a ideia de tentar fazer algo parecido. Comecei a fazer testes na minha própria casa.” Entre os cuidados com a filha Catarina, ela passou a dedicar as horas livres ao estudo do cacau e do movimento bean-to-bar (do grão à barra).
Em plena pandemia, Ariana decidiu investir em aprendizado. Pegou dinheiro emprestado com uma familiar para fazer um curso em São Paulo. Pouco depois, recebeu do sogro uma máquina de moer amêndoas de cacau trazida dos Estados Unidos. Foi nesse universo que encontrou um propósito. Ariana descobriu que era possível produzir chocolate em pequena escala, controlando todo o processo.
Os primeiros meses foram marcados por tentativa e erro. Durante cerca de seis meses, Ariana testou receitas, ajustou processos e contou com a ajuda dos familiares para avaliar os resultados. Na época, fazia praticamente tudo sozinha: torrava, quebrava e descascava as amêndoas manualmente, além de produzir as embalagens que acompanhavam cada barra.
Mulheres que empreendem
O que começou como uma experiência na cozinha de casa logo despertou o interesse de familiares e amigos. As primeiras encomendas surgiram antes mesmo de existir um plano de negócios estruturado. “Quando percebi que as pessoas queriam comprar, entendi que aquilo poderia se transformar em algo maior”, relembra Ariana.
Mas transformar uma paixão em empresa exigiu muito mais do que dominar técnicas de produção. Era preciso encontrar espaço para um produto de maior valor agregado em um mercado dominado por grandes marcas e hábitos de consumo consolidados. Ariana apostou no caminho mais longo: educar o público sobre a origem do cacau e mostrar que o chocolate poderia ser apreciado como um vinho ou um café especial.
A trajetória da C’alma acompanha uma transformação que vai além da história de uma empresa. Ela ajuda a explicar o avanço do empreendedorismo feminino em Goiás, onde 374 mil mulheres estão à frente de negócios e respondem por 44% das empresas em atividade. O número representa 12% das goianas em idade de trabalhar e revela um movimento cada vez mais relevante para a economia estadual, segundo o estudo Perfil da Mulher Empreendedora 2026.
Os dados mostram que, nos últimos dez anos, a renda média das empreendedoras goianas cresceu 44%. Para Polyanna Marques, coordenadora da pesquisa, a profissionalização tem papel decisivo nesse avanço. “A educação é central, especialmente nas áreas financeira, marketing e uso de ferramentas digitais”, afirma. Segundo ela, tão importante quanto o conhecimento técnico é o acesso à orientação prática para ajudar as empreendedoras a identificar oportunidades e tomar decisões mais estratégicas.
Foi justamente esse processo que Ariana vivenciou ao longo da construção da C’alma. Além de aperfeiçoar a produção, ela buscou capacitação em gestão, produtividade e expansão de mercado por meio de cursos, consultorias e missões comerciais internacionais promovidos pelo Sebrae. O acesso a ferramentas de planejamento e gestão ajudou a transformar uma iniciativa que nasceu de forma intuitiva em uma empresa estruturada, preparada para crescer sem abrir mão do cuidado artesanal que se tornou sua principal marca.
O crescimento veio de forma gradual. Quando decidiu levar os produtos para pontos de venda, Ariana precisou formalizar o negócio, deixar a produção doméstica e contratar a primeira funcionária. Seis anos depois, a empresa produz cerca de 300 quilos de chocolate por mês e comercializa seus produtos pela loja física, e-commerce e rede de revendedores.
As barras da C’alma já chegaram a diferentes estados brasileiros, à Suíça e até a hotéis de Gramado, um dos principais polos de chocolate do país. A marca também passou a integrar eventos e vitrines de alto padrão, como a CasaCor Goiás 2026. E em 2024, a empresa produziu cerca de 600 kits personalizados para ações de relacionamento ligadas à novela Renascer, da TV Globo, cuja trama tem o universo do cacau como pano de fundo.
Sabores locais

Se o empreendedorismo feminino costuma ser associado a pequenos negócios criados dentro de casa, a história da C’alma mostra como esses negócios podem ganhar escala ao investir em diferenciação. Ariana aprendeu a dominar as técnicas e processos que fazem com que amêndoas de cacau cheguem à cozinha de seu negócio e saiam na forma de doces de especialidade.
Diferente da grande indústria, que compra a massa de cacau já processada, a C’alma acompanha a matéria-prima desde a fazenda. Os grãos vêm da Bahia e do Pará para Goiânia, onde passam por torra, descasque, moagem e temperagem. “Sempre buscamos fazer um produto artesanal, com ingredientes de qualidade e sabores autênticos”, afirma Ariana.
Essa busca por autenticidade também ajudou a posicionar a empresa em um mercado que passou por mudanças significativas nos últimos anos. O interesse por alimentos locais e experiências gastronômicas sofisticadas abriu portas para a marca, que passou a incorporar ingredientes do Cerrado, como baru e cagaita. “Hoje as pessoas valorizam mais os produtos locais, artesanais e de qualidade real. Existe uma preocupação maior com a origem e com a forma como eles são produzidos”, observa a empresária.
Em 2022, a barra Coco e Café 55% conquistou medalha de bronze na Academy of Chocolate, uma das principais premiações internacionais do setor. No ano seguinte, a empresa repetiu o feito com uma criação inspirada no tradicional pastelinho da Cidade de Goiás, reforçando sua aposta em sabores ligados à identidade cultural goiana.
Autonomia e criatividade
Enquanto o negócio crescia, o perfil das empreendedoras goianas também mudava. O levantamento do Sebrae mostra que 53% delas são chefes de família, com idade média de 43 anos e alta escolaridade. Contudo, a desigualdade de gênero permanece: homens ainda ganham, em média, 35% a mais que mulheres no ambiente de negócios.
Para Polyanna Marques, coordenadora do estudo, o empreendedorismo feminino cresce atrelado à busca por autonomia e à necessidade de flexibilidade de tempo para conciliar responsabilidades familiares. É por isso que tantas empresas lideradas por mulheres nascem em casa antes de se estruturarem.
Hoje, a C’alma mantém uma fábrica com loja e café integrados em Goiânia e se prepara para iniciar um novo capítulo. A empresa planeja inaugurar uma nova unidade, com mais espaço e localização mais acessível, além de ampliar sua rede de revendedores pelo país. O objetivo é levar seus produtos para novos mercados sem abrir mão do controle artesanal que marcou sua origem. “Nosso principal objetivo é expandir a marca pelo Brasil e levar chocolate de verdade para mais consumidores”, afirma Ariana.
Assim como as amêndoas de cacau precisam passar por transformações para revelar seu potencial, a trajetória de Ariana foi moldada por adaptação e persistência. Para Ariana, o próximo capítulo da C’alma tem o mesmo ingrediente que marcou sua origem: a disposição de continuar aprendendo. O que começou entre os cuidados com uma recém-nascida e os testes em uma cozinha doméstica tornou-se um negócio premiado, mas a empreendedora acredita que a construção da marca ainda está apenas começando.
















