Durante anos, a promessa do digital esteve associada à praticidade absoluta: tudo acessível, imediato e disponível a qualquer hora. Com o tempo, porém, essa lógica também trouxe saturação, excesso de estímulos e a sensação de que nada se fixa ou permanece.
Nesse contexto, práticas culturais que pareciam restritas ao passado voltam a ganhar espaço — não como oposição ao digital, mas como complemento. O retorno da mídia física se apresenta como um ajuste de rota e uma decisão deliberada. Discos, revistas e fotografias impressas oferecem aquilo que as telas não conseguem reproduzir plenamente: ritmo, materialidade e vínculo sensorial.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Em 2024, o mercado de vendas físicas de música no Brasil cresceu 31,5%. O número de revistas que haviam migrado exclusivamente para o digital e decidiram retomar a circulação impressa segue em expansão. Já a procura por câmeras digitais antigas e analógicas em plataformas de venda registrou altas que chegam a 563% nos levantamentos mais recentes.
O prazer ritual da música
A venda de discos de vinil concentrou 76,7% do faturamento de vendas físicas de música no país e já ultrapassaram os CDs. Os números indicam uma mudança de hábito, mas a explicação passa pelo campo sensível. “O vinil para mim não é só ferramenta de trabalho, é paixão mesmo. Existe um ritual que começa na escolha do disco e termina na audição completa, com atenção e respeito à obra,” afirma o DJ Múcio que atua na cena goiana e promove eventos regados à boa música extraída dos bolachões .
Para ele, o retorno do vinil está ligado à necessidade de desacelerar. “Depois de um período em que tudo ficou muito imediato e descartável, as pessoas voltaram a valorizar a experiência. O disco entrega tempo, arte e conceito. Para quem trabalha com música, é uma reconexão com a essência. Para quem escuta, é um mergulho mais profundo.” Segundo Múcio, essa busca atravessa gerações e dialoga com o desejo de consumir cultura de forma menos automática e mais consciente.
Junto com a esposa Cássia, Múcio reúne uma coleção de cerca de 9 mil discos de vinil, construída ao longo de décadas de escuta atenta e garimpo paciente. Para ele, circular por lojas de usados, feiras e eventos especializados faz parte indissociável da cultura do disco. “Eu faço um pouco de tudo. Gosto muito de frequentar feiras, eventos e lojas físicas porque o garimpo é parte da experiência do vinil. Conversar, trocar ideia, descobrir discos inesperados… isso não tem preço,”afirma.
A internet entra como complemento, sobretudo na busca por títulos específicos, mas é na cena local que ele encontra vitalidade: “Em Goiânia, compro em lojas especializadas, feiras de vinil e eventos culturais que reúnem colecionadores. A cena é viva, tem muita gente apaixonada, e isso fortalece bastante o mercado”. E para lançamentos, ele faz parte de um clube do disco, onde recebe as novidades musicais em formato retrô.
O papel como permanência
A mesma lógica se manifesta no impresso. Depois de anos de retração, marcados pelo fechamento de jornais e revistas e pela migração da publicidade para o digital, o papel passa a ocupar outro lugar. Ele deixa de ser um produto de massa e passa a ser entendido como objeto de curadoria, permanência e valor simbólico.
Em Goiânia, esse movimento aparece na revitalização da Banca Opção, ponto tradicional da cidade há 25 anos. O projeto, assinado pela arquiteta Sammea Vilarinho, parte do reconhecimento da banca como um elemento afetivo do imaginário urbano. “Há um equilíbrio entre preservar a identidade do lugar e permitir que ele seja reinterpretado à luz das dinâmicas contemporâneas da cidade”, afirma.
Em um contexto de excesso de telas, o impresso, segundo Sammea, não disputa espaço com o digital. “Quando o impresso deixa de ser tratado como algo efêmero, ele muda de lugar culturalmente. A revista passa a ser escolhida, guardada, folheada com tempo e atenção”, explica “O impresso hoje não compete com o digital; ele oferece aquilo que o digital não entrega: presença, materialidade e silêncio.”
Revistas que resistem ao tempo
Essa mudança de percepção ajuda a explicar o retorno do impresso com novas estratégias editoriais. Nos últimos anos, títulos como Elle, Billboard e Capricho voltaram às bancas com periodicidade semestral ou trimestral. Sem disputar o imediatismo das redes sociais, a aposta recai sobre reportagens longas, ensaios visuais elaborados e conteúdos pensados para atravessar o tempo.
Há também as revistas nunca abandonaram o papel. Títulos internacionais como Vanity Fair, Vogue, The New Yorker e The Atlantic mantiveram suas edições impressas e conservaram um público fiel — só a The Atlantic soma mais de 1 milhão de assinantes. Em Goiânia, a revista Zelo segue a mesma lógica e caminha para seus 20 anos de circulação sem abrir mão da edição impressa.
A fotografia fora da nuvem
A busca por câmeras analógicas e instantâneas cresce como resposta ao excesso de imagens armazenadas e raramente revisitadas. A fotografia impressa reaparece como forma de fixar a memória no mundo concreto. Mariana Capelleti, fotógrafa e doutora em Arte e Cultura Visual, iniciou sua trajetória diretamente com filme e nunca abandonou o analógico. “No início, havia uma diferença grande de qualidade entre o filme e o digital. Mas, com o tempo, o que me fez continuar foi a surpresa. Revelar um filme sempre traz essa expectativa de não saber exatamente o que vai aparecer.”
Para ela, o analógico se tornou um espaço de experimentação. “Enquanto o digital se consolidava como algo mais profissional, no filme encontrei liberdade para errar, brincar e aceitar o imprevisível.” A fotografia instantânea ocupa um lugar especial nesse processo. “Ela materializa a imagem na hora. Gosto de criar álbuns, colar fotos na geladeira, ter essas imagens circulando pela casa.”
O limite físico do filme também altera a relação com o tempo. “Um filme tem 36 poses. Isso faz você escolher melhor o que quer registrar. Com o celular, você faz dezenas de fotos em minutos e, muitas vezes, nunca mais olha para elas.” Para Mariana, o excesso de imagens digitais fragiliza a memória. “A foto física convida mais ao contato, à revisita, ao afeto.” Ela não vê esse movimento como resistência ao digital. “Todo mundo que fotografa em analógico também fotografa em digital. É um espaço de liberdade, diversão e não compromisso. Existe beleza em aceitar o erro e a surpresa.”
Um movimento de desaceleração
Esse conjunto de práticas aponta para uma mudança mais ampla de comportamento. O físico reaparece como contraponto à saturação digital, oferecendo experiências mais lentas, sensoriais e conscientes. Não se trata de abandonar a tecnologia, mas de reequilibrar a relação com ela, criando espaços onde o tempo não escorre com tanta facilidade.
Entre o clique e o toque, entre a nuvem e o objeto, cresce a percepção de que algumas coisas precisam ocupar espaço no mundo real para fazer sentido. Em um cotidiano cada vez mais mediado por telas, o retorno da mídia física revela menos um apego ao passado e mais um desejo urgente de presença.
Serviço – Onde comprar
Monstro Discos
Telefone: (62) 3281-5358
Instagram: @monstrodiscos
Endereço: Rua 12, nº 35, Centro, Goiânia – GO
Banca Opção
Instagram: @banca.opcao
Endereço: Alameda Ricardo Paranhos, Quadra 257, Lote 18, Setor Marista, Goiânia – GO
Fotogravelab (revelação e venda de filmes fotográficos)
Instagram: @fotograve.lab
Endereço: Rua 8, nº 497, Centro, Goiânia – GO















