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Novo tratamento é esperança para quem tem refluxo crônico no Brasil

Recém-aprovado pela Anvisa, dispositivo médico Esophyx implantado por procedimento endoscópico, minimamente invasivo, liberta pacientes do uso de medicamento contínuo e tem risco de complicação muito menor que a cirurgia convencional
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A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), popularmente conhecida como azia, é um mal que atinge, segundo dados da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), 30% da população adulta do Brasil. Quando não tratado, o problema compromete em muito a qualidade de vida da pessoa. Afeta o sono, agrava doenças pulmonares como pneumonias, bronquites e asma, ocasiona  úlcera do esôfago, causa alteração das células da porção final do esôfago, o que pode levar a uma patologia chamada esôfago de Barrett, que pode evoluir para um câncer de esôfago. Outras complicações da doença também são inflamação das cordas vocais, engasgos frequentes e noturnos e dificuldades para engolir, entre outras.

Ainda segundo dados da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), do total de pacientes que sofrem de refluxo no País, 40% não tem resultados efetivos apenas com o tratamento medicamentoso e precisam apelar para um tratamento cirúrgico.  Mas um novo dispositivo médico, que teve seu uso aprovado em outubro pela Agência Nacional de Vigilância em Saúde (Anvisa), pode ser uma alternativa para tratar a doença de forma mais simples e rápida.

Trata-se do Esophyx, implantado entre o esôfago e o estômago por meio de um procedimento endoscópico denominado TIF (do inglês Transoral Incisionless Funduplication, ou Procedimento Transoral de Funduplicatura). O dispositivo já é amplamente usado nos Estados Unidos(aprovado pelo FDA em 2007) e Europa.  Estudos clínicos com “follow up” de 3 anos conduzidos pela Endogastric Solutions, fabricante do dispositivo, apontam que 75% dos pacientes ficam livre da medicação(PPIs) e 82% tem a esofagite completamente cicatrizada.

“Normalmente o paciente faz o procedimento pela manhã e já à noite ele está liberado para retornar para casa. É uma intervenção segura, os riscos de complicações são bem menores do que a cirurgia convencional e é um tratamento com resultados efetivos”, afirma o gastroenterologista, cirurgião e professor afiliado de Cirurgia da Faculdade ABC de Medicina, Manoel Galvão Neto.

Ele avalia que a tecnologia médica recém-aprovada pela Anvisa representa uma grande evolução para o tratamento do refluxo crônico no Brasil. “Além disso, ele tem uma vasta base de pesquisa comprovada no exterior, principalmente nos Estados Unidos, onde estudos apontam para uma eficácia tal qual da cirurgia convencional, porém com muito menos riscos de complicações”, ressalta o cirurgião.

A implantação do Esophyx para tratamento da doença de refluxo poderá ser feito por médicos endoscopistas e por cirurgiões que também tenham treinamento endoscópico. Como a técnica é nova para a comunidade médica brasileira, ele explica que já está se mobilizando para formar turmas para receber treinamento com médicos americanos com experiência no procedimento”, informa Galvão Neto.

O cirurgião do aparelho digestivo Eduardo Grecco também destaca como principal vantagem do novo método os baixíssimos índices de complicações, por ser um procedimento endoscópico e não cirúrgico. “Ele terá menos invasibilidade, menor nível de complicação, resultados efetivos, menos tempo de afastamento do seu trabalho e do seu dia a dia”, ressalta o médico, que é Coordenador do Serviço e da Residência Médica de Endoscopia da Faculdade de Medicina do ABC-São Paulo e membro titular da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (SOBED).

Causas do refluxo
A doença do refluxo tem causa multifatorial e está especialmente relacionada a alguns hábitos alimentares como ingesta de grandes volumes de comida, uso frequente de bebida alcoólicas, muito consumo de bebidas gasosas, como os refrigerantes, a quem se deita logo depois de comer muito e à obesidade.

Eduardo Grecco  salienta que  o refluxo é um mal que tira muito da qualidade de vida do paciente  e pode trazer prejuízos na vida profissional e nos relacionamentos interpessoais. “Além da baixa produtividade no trabalho, são muitos os pacientes que têm problemas em casa por causa da doença. Homens, por exemplo, que ouvem muitas reclamações por parte das esposas, pois ele nunca está bem, não dorme direito, não para de tossir. Esse paciente também não se alimenta de forma adequada, começa a se privar de todo o tipo de alimentação, e com isso, se priva até de ir a eventos sociais. Então é uma doença que interfere em todos os âmbitos da vida do paciente, seja ele familiar, social e profissional”, afirma.

Mas, além do impacto na qualidade de vida deste paciente, outra preocupação são os riscos futuros da doença do refluxo não tratada, salienta o médico Manoel Galvão. “Imagine que você tem um esôfago que é banhado por ácido e bílis por tanto tempo, sendo que não foi preparado para isso. A consequência é a alterar do órgão, principalmente em sua mucosa, ocasionado lesões e pequenas feridas. Esse quadro de inflamação do esôfago,  quando crônica, pode evoluir para o ‘Esôfago de Barrett’ e, em estágio seguinte, a um câncer”,  diz. Essa evolução para regenerações malignas, embora seja em índice menor, precisa ser observada.

Uso prolongado de medicamentos

O novo tratamento para a doença de refluxo pode ser uma alternativa mesmo aos pacientes que conseguem resultados com o uso contínuo de medicamentos. “Temos muitos pacientes que não toleram o uso de algumas medicações, sem falar dos efeitos colaterais do seu uso a longo prazo. Não podemos crucificar os inibidores de bombas de protões(PPIs), afinal são medicações importantes que revolucionaram muitas afecções de esôfago e estômago. Porém, sabemos que o uso prolongado desse tipo de medicamento pode sim trazer efeitos ruins para o organismo”, sugere o médico Eduardo Grecco.

Manoel Galvão Neto também observa que livrar-se da dependência do uso contínuo de remédio é também outro forte indicativo para a realização do novo procedimento de TIF com Esophyx, mas a prescrição do tratamento adequado para o paciente deverá ocorrer depois da realização do exame chamado PHmetria esofágica. “Esse exame consegue medir com bastante precisão a intensidade do refluxo e selecionar muito bem o paciente que é indicado ou não para passar pelo procedimento endoscópico”, esclarece.