Templo de tradições

As histórias do Restaurante Árabe e da capital goiana se confundem. Dizer que ao longo dos seus 50 anos o estabelecimento ajudou a construir os hábitos alimentares em Goiânia não é nenhum exagero. A saga da família Abrão com o restaurante é um ciclo, como naqueles contos de mil e uma noites, cuja mensagem principal é o respeito às tradições. Se lá na década de 60, Elias Abrão fundou o Árabe, seu filho Miguel o consolidou como referência, e agora o neto Marcelo dá continuidade ao legado da família.
“Eu gostava de observar meu avô e meu pai conversando”, conta Marcelo, que não nega as fontes do seu conhecimento e respeito aos costumes. Ele cresceu junto com o restaurante, lavou pratos, arrumou as mesas, não faltou nem nos dias de folga. A história do lugar também não existe sem o menino. Aos 13 anos, ele começou a trabalhar de fato no empreendimento e hoje, aos 39, Marcelo protagoniza as novas páginas da história do restaurante.
Se por muito tempo pratos árabes foram conhecidos como “comida de turco”, o restaurante contribuiu com sua popularização. “Nós fizemos essa inserção cultural em Goiânia. Hoje é difícil encontrar um estabelecimento que não tenha quibe ou esfirra”, garante Marcelo. O restaurante foi fundado em 1964 na Praça Joaquim Lúcio, em Campinas, mudou-se para duas localidades da Avenida Araguaia, até que chegou à Avenida 83, onde permanece. “A cidade era pequena, muito concentrada. Nós estávamos onde o movimento estava”, diz.
Marcelo segue à risca a cartilha do pai, principalmente no que diz respeito ao trato com clientes, fornecedores e aos costumes firmados, mas de olhos abertos aos novos tempos. “A hospitalidade libanesa é cantada aos quatro cantos do mundo, então nós temos uma herança que não pode mudar”, diz o empresário. Saudoso, ele se lembra da época em que as pessoas tinham mais tempo para conversar no balcão, e afirma que esse elemento até fazia parte do tempero da casa. “Minha luta maior é pela preservação do sabor, por manter qualidade e padrão. Quem volta está em busca de algo que já consumiu”, pondera.
“Nós sempre levantamos a bandeira de que a comida árabe é a mais saudável do mundo. Meu avô era muito atento a isso”, enfatiza Marcelo. Uma comida baseada em grãos, como lentilha, grão-de-bico, trigo, castanhas, não apenas em quibe, esfirras abertas e carneiro, como prega o senso comum. E as gerações também se sucedem na cozinha. A avó de Marcelo passou o bastão para sua mãe, Joana D’Arc, que segue como mestre-cuca do Árabe. A variedade de pratos foi ampliada, as refeições são servidas tanto em rodízio quanto à la carte, e os serviços delivery e de eventos também foram inseridos.
Essa adesão a medidas hodiernas já foi um receio, como admite Marcelo. “Meu avô era um homem muito conservador. Papai já era um árabe mais polido, um gentleman. E eu tento aliar tradição e modernidade”, analisa. Receber um convidado é algo muito importante para o povo árabe, todas as honras da casa são apresentadas. Nessa linha, o charme do Restaurante Árabe está nos laços familiares construídos em meio ao ambiente e à culinária. Uma história escrita em detalhes e continuada em respeito. Daqui a alguns anos, novas páginas serão contadas.
  • Marcelo Abrão (Foto: Ângela Motta)

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