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Este mundo existiu por duas horas: Pitágoras, Rodrigo Flávio e Fabíola Moraes criam imagens, artistas. Ranulfo Borges e Carlos Brandão escrevem a vida, jornalistas. Gilmar Camilo guarda tesouros, diretor de museu. Ângela materializa a cena, fotógrafa.Rosângela agrupa idéias. Começo de noite. Nuvens de chuva. Vento refrescante de 10 de dezembro, Blend, Setor Oeste. Pedi um café, cinzeiro. Não dá para bater a cinza no chão. “A felicidade não existe fora de nós” era a mensagem aos clientes, afixada na entrada. Chegaram o café e o Brandão. Pedimos cerveja. Rodrigo Flávio e Fabíola cumprimentam, puxam a cadeira, acendem cigarros. Pitágoras e Gilmar, logo em seguida, sentam entre nós. Pitágoras canta uma paródia. Delícia ouvi-lo. Mesa pequena. Mesa grande. Ranulfo se aproxima em silêncio. Ângela chega com a máquina. Mudamos de lugar. Mezanino confortável, fotográfico. Rosângela acaba de chegar. Vozes. Paralelas: a instalação de idéias se inicia com energia absoluta. “Você vai morrer de qualquer forma.” Não sei ao certo quem disse. Ou a voz era do Pitágoras mesmo? “Viver!”. Sim, ele mesmo.

“A gente podia unir uns artistas e fazer uma estação de metrô de mentira, na Anhangüera.” Observa, cria Pitágoras, que canta versão cabeludinha da música de Amelinha. “Fudeu quem fez você…”. Imprima o ritmo da música na leitura. A original: “Foi Deus quem fez você…”. Voltando: Gilmar concorda com o “mutirão” na Avenida Anhangüera, na construção do falso metrô. Declaração. Obra de arte gigante. Assuntos mil. Idéias surgindo, planos revelados, cerveja. Fumaça desenha na atmosfera. Traços e pessoas.

Nara Leão, Dolores Duram. Gilmar lembrou da beleza das duas. Ana Cristina César e Silvia Plath logo ali, na conversa entre Brandão e Pitágoras. “Uma escritora que se suicidou. Ela colocou a cabeça no forno do fogão, com o gás ligado.” O artista leu os poemas de Plath e disse gostar. Ana Cristina César, poeta marginal carioca, que também se suicidou, foi tradutora de Silvia, no Brasil. “Belo o texto delas.”
Gilmar lembra de músicas que surgiram de um guardanapo. Brandão, compositor, ouve. Ele sabe muito bem o que é isso. “Acho tão francês mesa pequena”, dispara Pitágoras. Piada infame: “O padre que comeu a Rosário.” Não me faça contar a piada.

Sticker. Adesivos. Rola o papo. Gilmar apóia a interferência no espaço. Stickers são artistas que imprimem e colam traços nas ruas. Gesto. Quadro urbano. Galeria dos sem-galeria? Não mesmo. Arte e conceito. “Não entendo nada de arte”, mente Brandão. “Com esta frase, logo entende”, retruca Pitágoras. Pardon, diz o artista. Volta: colocar algo mais na cidade, comenta Pitágoras a função dos adesivos nas ruas. Política poética, define Gilmar. Nível de sobrevivência: idéias, mentais.
Do nada, surge o nome de Daura Sabino. Foto de Daura foi elogiada por Matthew Barney, marido da cantora islandesa Björk. Como a foto foi parar nas mãos dele? Pergunte ao Gilmar. Mas esclareço parte da história: o artista Caio Reisewitz, durante a Bienal do ano passado, folheava uma revista goiana quando o marido de Björk estava por perto. Ele se encantou com a nossa colunista.
É impossível manter o texto equilibrado. Tive de subir e descer escadas do pensamento. Durante a conversa, os assuntos se entrelaçam. Pé de Flor, cantada por Amaury Garcia, é uma composição do Brandão: “Vou passar esta música para o inglês, para a Cláudia (Vieira) cantar. O que acha, Brandão?”, pergunta Pitágoras. O jornalista responde que “de boa” e acrescenta: “Fizeram uma versão em francês, foi gravada em Bruxelas.” Ranulfo observa. Fabíola e Rodrigo pedem uma cerveja. Rodrigo é um menino inteligente. Fabíola é também estudiosa. De pára-quedas, Pitágoras revive Rute e Raquel, personagens de Glória Pires em Mulheres de Areia. Interfere com humor. Sempre. Ele ainda lança palavras ácidas na atmosfera: pensamento novo no ar.
Quase um happy hour. Uma tertúlia. Censores.
E a cantarola de Pitágoras rolando… Agora uma versão de My Mistake. “Quem lembra do Lindomar Castilho?”, pergunta o artista. Lembra o nome da Vanuza, cantando Paralelas. Falam de Gota DÁgua. Fabíola ao celular. “As pessoas da noite são diferentes das de dia…”, passa a voz de Pitágoras. Fabíola desliga o celular. Puxo o papo. “Busco também o desenho numa estrutura que já existe.” Cena de uma foto. Cena da História da Arte. Pensar o desenho. À mão. Diz que aprendeu tirar o drama do papel em branco. Escorre a mão com intimidade. Abstrato gráfico. Objeto de design. Têm a ver com Fabíola. E mais a ver com ela: projeção de imagens. Paisagens. “Consigo me explicar”. Em telas e painéis. Interferência. Paredes. “Objeto comercializável, mesmo que ele não venda.” Ela acha complicado se posicionar como artista. “Vou me exercitar dentro destas condições predeterminadas.” Por ela. Arquitetura. “Todos os objetos têm infinitas possibilidades de se revelarem.” Encontra-se imagem em seus traços. Cognição de cada um. Por que os corações? “Coração associa com amor.” Evolução do repertório: “Antes de colocar o desenho para fora, ele está na garganta, agonizando.”

Processo do olhar.

“Olhos nos olhos”, canta Pitágoras. “Artista plástico que pinta com olho.” Com óleo… “A acrílica é pós-guerra”, data Rodrigo Flávio. “Queres a paz, prepare-se para a guerra”, parafraseia Pitágoras. “Tem coisa mais burguês que artista?”, e ri. Ninguém sofre mais que artista, segundo ele, que não pára com as paródias. Entre a conversa de Brandão e Gilmar: “A galeria Frei Confaloni vai ocupar o grande salão que ocupava o antigo Mac.” Museu de Arte Contemporânea. Belo lugar, amplo, alto. Falando de espaço: “Galeria de arte é mais poética.” Vem Pitágoras: “Volto da Jump abatida…”. Uma versão de Ronda. “Parece que boate deixa a gente deprimida.” E canta. Todos falam ao mesmo tempo. Normal. A minha cerveja não bateu. Peço mais uma. Ela chega. Uma taça inteira, num gole. Volto a falar. “O artista é o produto final.” Não ouvi quem falou. “Igreja gay é um absurdo?” Esta eu ouvi: Pitágoras diz. A arquitetura dentro da produção de uma mostra de arte. “Importantíssimo”, fala Gilmar.
Um breve silêncio. Breve mesmo, o único.
Siron foi lembrando ali. “Siron tem o seu papel.” Perdi a fala. “Me despertei artista por causa de um desenho dele, aos oito anos”, diz Rodrigo Flávio. “A cabeça dele é uma zona”, comenta Brandão. “É um prazer escutar o Siron”, completa Rodrigo. “Azeitona é salgada demais”, solta Pitágoras, sempre do nada. Do tudo. O espaço é tudo. Viver.
“No espaço, sempre estabelecer e executar com propriedade”, diz Gilmar. “O que eu estava falando”, perde-se Fabíola. Visão aplicada. “Falo de uma pintura aplicada.” Raciocinar o espaço. “Qual o ambiente que me foi dado para criar em cima?” Ela analisa o lugar da aplicação. “Palavras são Palavras…”, canta Maria Bethânia o Pitágoras. “Tudo é decorativo”, considera Gilmar. “Decor não é crime”, emenda ele. “Professor é professor e tio é tio”, lança Pitágoras.
Respostas.Respeitos.
“Chamar meu pai de você, não consigo”, escuto Ranulfo dizer. “Arte é uma necessidade.” “Devia ter arte na cesta básica”, propõe Brandão. Dali. “Salvador nem Jesus foi”, lança Pitágoras. Arte lado a lado com a existência. “Sou um artista bom de cama”, brinca. De novo: “Quero tirar esta seriedade esquisita que está entre nós.” E tira: “Arte salva gente da gente mesmo. Tenho medo de achar meu trabalho como terapia. Balsâmica, sim.” E continua: “A solidão de um artista é potencializada. Um vento que bate atinge você de uma maneira.”
Humanidades.Diversos.
Gilmar lembra de Juliano de Morais e Marcelo Solá. “Artista é um estranho. Espanto é arte”, alguém diz. Reflexão. “A praça ao lado do Cine Ouro vai ganhar arte”, promete Brandão. “Na arte não tem verdade absoluta”, as palavras de Gilmar. “Penso em reabrir a Máquina Rock”, conta Ranulfo. Um lugar. Mais lugares. Espaço.
Relações de amizades. “Inventar o amor para fugir da morte”, frase de Nietzsche, de Pitágoras. “Viver intensamente, lutar contra a velhice. Tem excesso de botox no mundo”, dele também. O tempo é a velhice invisível. Pessoas que jamais crescem: de uma forma ou de outra.
Lembranças… “Os jovens têm de ser rebeldes mesmo. E rebeldia não é só visual. Vamos amar os travestis, eles merecem o nosso carinho”, outra de Pitágoras. Outras: “Não tenho nada que quero, mas chupo tudo que tenho.” “Adoro pegar ônibus. Vejo sensibilidade e olhares.”
“Não é só ler, ler, ler. Ler é compreender.”“Odeio pseudo-intelectual. Nada mais chato que intelectual. Intelectual goiano é ainda pior. Eles os lêem.” “Sou social heavy.”E o riso de Augusta Faro ri… “Não suporto Salvador Dali mais, me canso um pouco”, diz Gilmar.“O vinho mais caro que eu já tomei foi o Marcus James”, menti outra vez Brandão.
As delícias da voz. “Preciso ver o novo filme da Gretchen”, lembra Pitágoras, que canta uma paródia para Elis Regina: “Os bofes mais lindos eu fiz…”. O tempo se foi e eu não pude escutar todas as palavras.im de papo na Blend. E recomeço no ateliê da Fabíola, ali perto. No ateliê: mais cérebros. Aparecem, gostosamente, Larissa Siqueira e Sérgio Paiva. Outros cérebros, brindes e fui obrigado a ir embora. Acordava muito cedo no outro dia e tal. Logo mais, outros encontros… Z