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O que não aprendi com meus pais

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Sandro Torres

Pastel sabor pizza, pizza de estrogonofe, estrogonofe de chocolate, chocolate  sabor bacon, bacon de soja. Quem dera isso fosse apenas uma ideia ruim para um poema vanguardista, mas são ideias gastrofantasiosas colocadas em prática pelos seres humanos atuais habitantes do planeta terra. Meus pais não me ensinaram como lidar com esse excesso de liberdade da criatividade humana, assim como também não me ensinaram praticamente nada sobre as mudanças de comportamento das pessoas nos últimos 30 anos. Aliás, seria mais fácil listar o que aprendi com meus pais, tendo eles tido intenção de me ensinar ou não. Me ensinaram as palavrinhas mágicas, por exemplo: “isso não é seu!”, “passa pra dentro agora!“ e “tira esse negócio da boca, menino besta!”. Nada como palavras de estímulo e encorajamento pra formar caráter. E por falar em caráter, sou de um tempo que caráter era um troço que forjava-se em casa, à custa de muita conversa e umas doses salpicadas de chineladas, cintadas, varadas e palmadas. O caráter vinha de qualquer jeito!

Para a pessoa com mais de 40 anos é recorrente soltar um “sou de um tempo” no meio das conversas, relacionado a tudo, como se o tempo não fosse o mesmo, como se a cronologia não fosse uma causalidade cujos efeitos são carregados de resquícios,  reminiscências e sintomas sobrepostos de um tempo no outro. Relatividade, pra que te queremos, meus caros. E já que mencionei, sou de um tempo que não existia feed, ifood e VAR, tampouco prevíamos uber, drone e tinder, nem imaginávamos ter que lidar com spotfy, netflix e podcast; sou de um tempo que é o mesmo da pessoa que nasceu hoje e da outra que morrerá amanhã; sou de um tempo quando era psicodélico ser careta e será careta ter tatoo; sou de um tempo que me preenche muito mais de dúvidas que de certezas, apesar da informação estar a um clique digital; sou de um tempo que está mais rápido que o mais fulgurante raio de luz no céu. É isso mesmo? Que tempo é o nosso? Fechamos com Aby Warburg e seu atlas mnemosyne, com o Big Bang científico, com Einstein, com Stephen Hawking ou com Deus? E Deus deve entrar mesmo nessa pendenga e, caso entre, deve usar o coro de sua torcida de quase toda população mundial? É tempo, é massa, é espaço, é matéria, é pau, é pedra. Qual o fim do caminho? Há?  Houve? Haverá?

O que não aprendi com meus pais? Não aprendi a meter estrogonofe numa pizza, isso é certo que não, mas o que mais? A não viver com pressa? A não aprender a pedir perdão? A não entregar sempre meu melhor? A não salivar, sangrar, suar e sorver o máximo dos amores? A mentir, a roubar, a trair, a praguejar? Quanto do nada que aprendi foi o bastante para formar um tudo em minha personalidade? E, ao contrário, quanto do tudo que me ensinaram não se esvaiu entre os dedos pelo caminho ou simplesmente saiu no banho junto com a água do chuveiro?

Sei que posso ser irônico, mas a vida é mais e isso me deixa a certeza que tudo pode acontecer, inclusive a subversão da lógica, a contradição dos fatos. Posso até ir embora, saltar  desse carro desgovernado que é a vida antes dos meus pais. E isso acontecendo ou não, preciso ter comigo algumas convicções; coisas que eu possa me apegar para dar significado à minha existência e não comece a achar que o bacon de soja faz sentido. Sou fá de alguns santos e também tenho tentado um flerte com religiões; outra coisa que faço é escrever e é de posse dessa premissa que escrevo aqui minha sugestão para que cada um reflita sobre o que realmente é importante e, principalmente, quem é importante em nosso aprendizado com duração de uma vida. O que aprenderam com seus pais? O que ensinaram – ou não – para seus filhos? O que é o legado das pessoas para as outras pessoas? O que não aprendi com meus pais? Eu digo: a esquecer o que de amor me deram e o que de afeto me legaram. Por fim, tanto o que aprendi quanto o que não aprendi, formaram meu caráter, porque eu sou de um tempo que era possível errar e se dar ao luxo de aprender com os erros.