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O retorno dos girassóis

Não. Não era outono. Era primavera, e havia muitos girassóis, assim como trigos. E também havia corvos sobrevoando sobre os campos. Que distração a minha! Eu estou falando do outono de um pensamento, de um sentimento, de uma percepção. Há tantas formas de “outonizar” a vida, o olhar.

É que eu vou falar de um vilarejo francês, que remete a Baudelaire, que lembra o Simbolismo, que é o retrato do outono. Incrível mesmo é essa capacidade tão rápida e criativa que nosso cérebro tem de associar imagens, conhecimentos, histórias, cenários. Tudo em algo único e novo. A tão falada sublimação, o poder da criação, a nova ideia se materializando.

O caminho dessa nova ideia vai se revelando, pouco a pouco. É um mistério, mas, ao mesmo tempo, é fruto de tudo o que já estamos buscando. O mundo das ideias é tão infinito, que às vezes tememos entrar nele, hesitamos em seguir o caminho que nos é revelado. Nós e essa mania de “mistificar” tudo. O poder da criação, materializado através de obras primas, exige coragem. Coragem para mergulhar no rio da “Água da Vida”. Assim, mergulhados nessa água, recebemos, dentro de nós mesmos, a nova criação.

A responsabilidade de trazê-la à tona, trazê-la ao mundo físico, está nas mãos de cada artista. Alguns ignoram, têm medo de se expor, outros, como fonte, entregam, transbordam, seguem o fluxo. Seja através da escrita, de fotografia, das Artes Plásticas, ou qualquer outra obra prima.

Não é à toa que Van Gogh disse “Procura compreender o que dizem os artistas em suas obras primas, os mestres sérios, aí está Deus.” Há que se ter muita sensibilidade para enxergar, não só a obra prima, mas o grande poder do Criador, explicitado através do artista. Há de se valorizar o momento, o poder da criação, em cada nova ideia que se materializa. É a expressão de algo novo que veio de uma outra dimensão. Por isso, todas a s vezes que você  observar uma obra prima, tente também sentir a energia do poder de criação que ela        carrega. Isso é surreal. E esse texto nasceu nessa atmostera. Na contemplação de um cenário, que marcou minha vida para sempre.

Auvers-Sour-Ois, França, março de 2018.

Era véspera de meu aniversário. Eu saí de Portugal,

onde morava, e fui passar uma semana na França.

A ideia era celebrar meu dia em Cochrel, junto com

minha irmã, na casa de um  casal de amigos,

daqueles que a vida nos dá de presente,

Celso e Isabel Parollini. Os dois, hospitaleiros que só, logo sugeriram que fôssemos conhecer a cidade onde Van Gogh viveu os últimos dias de vida.

O vilarejo é pequeno, é charmoso, é despretencioso. É uma espécie de “museu” aberto. Há réplicas das obras do artista espalhadas pela cidade, nos locais exatos onde ele pintou. Observar as telas diante dos cenários que o inspirou é algo meio instigador. Impossível parar diante de cada uma e não sentir a atmosfera dos momentos de criação.

Chegamos bem cedo. O pequeno vilarejo ainda dormia. E fomos acompanhar as exposições das obras do grande gênio. Cada uma remete a uma história, um sentimento, uma indagação. A primeira delas está na praça principal, e retrata a “prefeitura” do lugar. É linda e mostra a arquitetura daquele prédio com muita particularidade. Ao fundo, bem do outro lado da rua, está a pensão onde ele viveu. Ela permanece simples, o quarto onde ele viveu continua da mesma forma.

Fomos para a mesa de um café, bem no meio da praça. De lá, eu observava o albergue, a distância entre a tela e o cenário. Era tudo mágico. Do lugar que ele ficava, pegava as árvores, o céu. Eu também vi girassóis pintados nos comércios, vi caixas do correio com réplicas das obras do pintor. “Ele” está presente em toda a cidade.

O sentimento de observar a vida, mesmo depois da morte, consola a alma da gente. Van gogh se foi, não suportou a depressão e as crises psicóticas. Mas a obra dele ficou, e daquela forma retratada em Auvers-Sour-ois, permaneceu mais viva ainda. Achei fantástico a forma que posicionaram aquelas réplicas. Dá uma uma ideia do momento da sublimação, da criação, é muito vivo.

Aos poucos, pessoas de diversas partes do mundo foram chegando, a vila começou a ficar bem cheia. A atmosfera da arte foi crescendo, contagiando. Eu confesso que chorei. Chorei de gratidão, pelo privilégio de estar ali, chorei de tristeza pela forma trágica que Van Gogh deu fim à própria viada. Mas também chorei

de emoção, ao sentir aquela energia tão viva.

É incrível o poder da vida nas obras primas.

É como se houvesse uma batalha entre a vida e

a morte a ser contemplada. A morte do pintor

e a vida das obras, imortalizadas.

A minha atenção também se voltou para

o carinho tao peculiar que os visitantes tinham.

Bom, era primavera, e era possível

encontrar girassóis. E assim eu via acontecer

“O RETORNO DOS GIRASSÓIS.” Naquele outono

de primavera. Ou seria uma primavera “outonizada”? Não

Sei definir, pois era um outono do meu pensamento, vivido na primavera.

Enquanto aquela pequena multidão passava pela igreja que ele pintou, pelo campo dos corvos, pelo campo de trigo, levavam girassóis. É que a última tela (O campo e os corvos) fica já bem próxima do cemitério, onde foram enterrados os irmãos Vincent e Theo.

É uma caminhada sublime, surreal. É se sentir dentro das telas, dos sentimentos do artista. E lá chegamos nós, nos túmulos, cheios de girassóis. Como se quiséssemos dizer:

– Você se foi, mas seu legado ficou, sua arte foi imortalizada, os seus girassóis caminham pelo mundo. E sim, conforme você nos alertou, compreendemos sua arte como algo vindo de Deus, do criador. Sim, nós aprendemos a achar belo, a contemplar mais, como você sugeriu. Sim, nós aprendemos a observar mais a natureza.

– Nós não sabemos se é verdade a versão popular sobre sua tela “Girassóis”: que você a pintou para deixar o quarto da pensão mais alegre para receber Gaugin. Mas temos a certeza de que você deixou o quarto mais alegre sim. Aliás, você deixou o mundo mais alegre, mais nobre, com sua arte e com suas palavras escritas nas cartas ao seu irmão.

Eu também deixei os meus, eu também faço parte do “RETORNO DOS GIRASSÓIS.”

Sueli Lopes é formada em Letras pela UFG, pós graduada em Literatura pela Universidade de Salamanca, MBA em Business (Londres) e trabalha atualmente como coautora, escritora e mentora linguística.