LIFESTYLE - 25/05/2016

Um tour de force chamado Eleonora Hsiung

Designer goiana recebeu a revista Zelo em seu “quadrado ao cubo” para revelar o mar de inspiração que rodeia os 5 anos do ateliê que comanda



Alexandre Parrode

Quem vê as obras da designer Eleonora Hsiung não tem dúvidas de que ela nasceu para o design. Transgressora, irreverente e de um bom gosto único, a goiana se tornou famosa em todo o Brasil.

Há cinco anos à frente da marca que leva seu nome, ela abriu as portas de seu apartamento na capital goiana e dividiu um pouco de sua história com a Zelo.

Embora tenha se encontrado no design de acessórios, Eleonora Hsiung precisou “se perder” na Europa para descobrir sua paixão pela moda. Formada em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG), ela abriu mão da profissão que fez sua mãe uma das juristas mais respeitadas do Estado e foi para Paris.

Se você pensa que foi fazer algum curso glamoroso em um instituto fashion está muito enganado. Foi auxiliar de cozinha, babá e vendedora. “O principal para mim não era entrar no mundo da moda, mas dar o passo para fora da ‘caixa’, sair do trio Direito, Medicina e Engenharia. Sentia que existia algo muito além para minha vida.” E não é que ela estava certa?!

ZELO - De onde vêm as inspirações, não só para as coleções, mas para sua vida?

Eleonora - O que eu estiver lendo vai me inspirar. Eu tenho muitas influências, sou muito sensitiva, influenciável pelo ambiente. O que eu mais adoro fazer é pegar todas essas influências, digeri-las e cuspir novamente no universo. Se formos revisitar as coleções, conseguiremos te dizer o que estávamos ouvindo, como isso influenciou no ensaio fotográfico. A criação é a história da vida de quem cria. Pode ser que no final do trabalho, ele pense em fazer algumas adaptações, mas a peça conta uma história. É mais ou menos assim: brinco grande está na moda. Beleza, então a galera quer “brincão”, mas eu quero ir para Saturno. E aí, como vamos fazer? Divirto-me muito fazendo isso. Tenho que reconhecer que faço parte de uma equipe que é fantástica.

ZELO - Como foi sair da designer Eleonora Hsiung para entrar no ateliê Eleonora Hsiung?

Eleonora - Foi muito natural. Foi uma sorte muito grande encontrá-los. Adoro dividir.

ZELO - É um desafio encontrar o meio-termo entre o conceitual e o comercial?

Eleonora - A preocupação sempre existe. É preciso ser usável. Algumas vezes tenho prazer em fazer essa derivação, de materializar uma peça, que será facilmente compreendida. É ótimo. Mas, às vezes, é um pé no saco. Em toda coleção há peças mais conceituais e outras mais comerciais. É uma dosagem que eu preciso e sempre faço.

ZELO - E como manter uma marca tão ousada em um mercado tão tradicional como o de Goiânia?

Eleonora - Goiânia está mudando. Percebemos que, às vezes, as linguagens são diferentes. É um pouco frustrante, mas nosso objetivo aqui é esse mesmo. Goiânia foi muito generosa comigo, houve uma razão para tudo começar aqui. A marca nunca teve como objetivo criar padrões, novos padrões, como dizem. Criar novas formas de ver as coisas, sim. Gosto muito também quando as pessoas me propõem maneiras de fazer, enxergar as coisas.

ZELO - Muitos não conseguem entender?

Eleonora - Sim. Mas isso não é problema, afinal, eu tenho uma empresa que vende brincos, se for só um brinco, ok, a pessoa compra só o brinco. Se for uma viagem, uma reflexão, melhor ainda. O mercado precisa de lojas de departamento, por exemplo, que podem não ter uma história tão profunda como a nossa. Só que isso não invalida nem diminui o valor das peças.

ZELO - O que você gosta de ler?

Eleonora - Cara, eu leio muita coisa diferente... (risos). Faço parte de um clube do livro e, inclusive, tenho que terminar um livro de Dostoievski para o próximo encontro. Depois leremos Allan Poe. Eu tenho um defeito, começo a ler vários livros ao mesmo tempo e não consigo terminar alguns. (risos)

ZELO - Aqui na sua casa... Como toda essa inquietude se transcreveu nesse espaço?

Eleonora - Eu sempre fui muito sensível ao espaço, extremamente. Sou uma pessoa que o que está tocando, a temperatura, a luz, tudo me influencia muito. Ter um canto meu, que eu possa organizar do meu jeito, colocar as referências que são cheias de significados para mim, é incrível. Eu adoro olhar para os objetos e lembrar da história que eles remetem. É um museu da minha vida. E das vidas que cruzaram a minha. Uma delícia!

ZELO - Que objetos são esses?

Eleonora - Eu não tenho muita coisa de design, de decoração... Tenho coisas tão simples que, para mim, têm um significado muito grande. Por exemplo, meu longboard. Está ali no canto, mas ele funciona meio que como minha mesa de centro. Comprei há algum tempo, pois eu queria aprender a andar. Andei três vezes e acabei deixando de lado. Mas tem um significado muito grande, porque me remete ao snowboard. Snowboard mudou minha vida.

ZELO - Como? (risos)

Eleonora - Você só consegue ficar em pé no snowboard e esquiar se estiver relaxado. Se ficar tenso, se sua postura estiver tensa, você vai cair. Então, você tem que esquiar relaxado. Para mim, isso tem uma profundidade muito grande. Não importa onde você esteja, a situação que estiver enfrentando, tem que estar relaxado. O processo tem que ser prazeroso, bom. Não é que eu viva no mundo da Pollyana, não é isso. Acho que a sabedoria é conseguir transformar tudo que você faz em algo prazeroso. Por isso, para mim, tudo tem que ser sincero e verdadeiro. Não finjo, não copio. É história da minha vida.

ZELO - E como unir tantas histórias na sua casa? Como criar algo?

Eleonora - As composições são criações também. É como o trabalho de um DJ, que pega pedaços de músicas e cria algo novo. Muita gente diz que DJ não é músico, e isso é errado. É tão criador quanto um músico de um instrumento tradicional. Independente se o que você está usando seja uma matéria-prima completamente crua ou um pedaço de algo que já existe (ao qual se dá um significado diferente), tanto faz. É criação.

ZELO - Sua casa, então, nunca é a mesma?

Eleonora - Não. Isso é uma “dificuldade” que quem convive comigo tem. Tudo meu tem que ser móvel, não gosto de nada embutido, nada afincado. Eu queria minha casa toda com rodinhas (risos). Queria morar em um galpão enorme, onde eu pudesse ter paredes móveis.

ZELO - Nessas mudanças, é difícil abrir mão de algumas coisas?

Eleonora - Não muito. Assim, tem coisas que eu não gostaria de me desfazer... As malas da minha avó, vários objetos que comprei nas viagens – e que são completamente nonsense. Eu adoro esses objetos nonsense. A boneca que achei na rua em Paris, o molho de chaves que comprei em Praga... Fico viajando no que essas chaves abrem. Eu tenho uma carta que tem o selo de Hitler, acredita?!

ZELO - Tem alguma parte preferida da casa?

Eleonora - Não. Na verdade, eu tenho uma coisa muito forte com o chão. Não sei se vem das minhas origens orientais ou indígenas, mas eu preciso sempre estar no chão. Por isso que fiz um tatame próximo a minha cama, por isso que tenho almofada e carpete. Gosto muito de ficar no chão.

Lembranças de viagens e objetos que marcam a vida de Eleonora mistura-se à decoração

As palavras no título são uma brincadeira com nomes de coleções do ateliê Eleonora Hsiung: Tour de Force, Quadrado ao Cubo, Mar que Nos Rodeia e 5.

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