CULTURA - 08/02/2019

Sebastião Salgado: conheça a trajetória de um dos maiores fotógrafos brasileiros

Com um trabalho dedicado às questões sociais, o mineiro é premiado e reconhecido internacionalmente pela empatia e sensibilidade com que retrata o mundo



Julie Tsukada

O fotógrafo Sebastião Salgado e a edição de luxo de seu livro "Gênesis", seu mais recente trabalho (Foto: Divulgação)

Se tornar fotógrafo não estava nos planos de Sebastião Ribeiro Salgado. Com uma brilhante carreira e estudos na área da economia, a fotografia chegou à vida do mineiro natural de Aimorés na França, enquanto ele fazia doutorado na Université de Paris. Eram os anos 70. Recém-casado, foi sua esposa, Lélia Wanick Salgado, que trouxe a nova paixão para a vida do então jovem economista.

Lélia havia comprado uma câmera para fazer fotografias relacionadas à arquitetura, sua área de estudo na época. Ao emprestá-la para o marido, tudo mudou - quando Salgado, pela primeira vez, enxergou o mundo pelos olhos da lente da câmera, ele sentiu sua vida mudar.

Brasil, 1981 (Foto: Sebastião Salgado / Amazona Images)

De lá para cá, Sebastião nunca mais parou. A carreira como fotógrafo profissional começou em 1973, ainda em Paris. No começo como freelancer, ele entra para a agência Gamma em 1974, onde fotografa a Revolução dos Cravos em Portugal e a guerra civil em Angola e Moçambique. Na agência Sygma, onde ficou de 1975 a 1979, Salgado viajou para mais de 20 países da Europa, África e América Latina. Depois, entrou para a Magnum Photos, onde ficou até 1994, que ele e Lélia criaram, juntos a Amazonas Images, uma agência dedicada exclusivamente para o trabalho de Salgado.

O primeiro livro de Sebastião foi publicado em 1986. Intitulado Autres Ameriques (“Outras Américas”), a publicação reúne fotografias de camponeses na América Latina. No mesmo ano, publicou Sahel: l’homme em détresse (“Sahel: o homem em perigo”), sobre a seca e posterior guerra que ocorreu na região de Sahel, na África, durante os anos de 1984 e 1985. Lá, ele fotografou em países como Mali, Chade, Etiópia, Sudão e Eriteia, onde trabalhou em conjunto por 15 meses com o grupo Médicos sem Fronteiras. Em 1998, ele publica Sahel: el fin de camino (“Sahel: o fim do caminho”), também sobre os mesmos conflitos.

Criança refugiada a num comboio na estação de Ivankovo, na Croácia (Foto: Sebastião Salagado / Amazona Images)

Em 1993, Sebastião apresenta o livro Workers (“Trabalhadores”), resultado de um trabalho que vem desde 1986, com uma série de fotografias sobre o trabalho manual, e exibido em exposições pelo mundo entre os anos de 1987 e 1992. Depois, veio Trabalhadores: uma Arqueologia da Era Industrial , em 1996, decorrente da série Trabalhadores; Terra, publicado em 1997, que retrata a pobreza e a questão agrária no Brasil; e Retratos de Crianças do Êxodo, em 2000, também voltado para a realidade brasileira.

Também em 2000, Salgado publica Migrations (Migrações), resultado de um trabalho de mais de sete anos realizado em mais 35 países. Na obra, ele documenta as migrações em diferentes partes do mundo. Decorrentes de guerras, desastres naturais, degradação do meio ambiente, crescimento explosivo da população e o aumento da desigualdade entre ricos e pobres, revelando não só o sofrimento destes grupos mas também a dignidade e a coragem dos indivíduos retratados em suas fotografias. O trabalho também rendeu o livro Exodus (Êxodo), republicado em nova edição em 2016.

Em 2007, Salgado publica África, que faz um apanhado de seu trabalho de cerca de 34 anos no continente. Posteriormente, vem Gênesis, série de fotografias voltadas à beleza da natureza, que resiste em meio às inúmeras destruições causadas pelas atividades humanas. O livro é resultado de um trabalho feito à longo prazo, iniciado em 2004 e concluído em 2012.

Reconhecimento

A tribo brasileira Awá-Guajá (Foto: Sebastião Salgado / Amazona Images)

Durante sua carreira, Sebastião Salgado já contribuiu com organizações humanitárias, como o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e a Anistia Internacional. Entre os reconhecimentos, ele já ganhou prêmios como o Eugene Smith de Fotografia Humanitária, em 1982, como recompensa pelo trabalho de pesquisa sobre os camponeses na América Latina e ajuda para a complementação do mesmo; o de Publicação pelo livro “Workers”, em 1994, pelo International Center of Photography dos EUA.; o Jabuti, na categoria Reportagem, pelo livro “Terra”, em 1998; e o da Unesco, na categoria cultural no Brasil, em 1999.

Sebastião Salgado também foi eleito membro honorário da American Academy of Arts and Sciences, dos EUA, em 1992. Ele é também o primeiro brasileiro a integrar a Academia de Belas Artes da França.

Em 2013, Salgado realizou uma conferência para o TED. Com o tema “O drama silencioso da fotografia”, ele palestra sobre seus projetos e conta uma história, apresenta imagens de Gênesis, na época recém-lançado, e divide uma história pessoal de como seu trabalho, ligado a questões sociais tão dolorosas e brutais, o afetou pessoalmente.  

Em 2014, foi lançado o documentário “O Sal da Terra”, sobre as viagens de Salgado e seu trabalho. Com direção conjunta do diretor alemão Wim Wenders e de Juliano Ribeiro Salgado, filho de Sebastião, o trabalho foi indicado ao Oscar de documentário, recebeu o Prêmio do Júri na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2014 e também o César como melhor documentário.

Veja também