LIFESTYLE - 25/04/2016

Perfumes para Leonora

Designer de joias Leonora Rocha Lima abre as portas de sua casa para falar sobre o trabalho e a paixão pelas artes. E confessa: “Como boa perfumista que sou, ‘meto o nariz’ em tudo”



Alexandre Parrode

“Não sou madame. Sou uma jovem contemporânea, criativa, apreciadora de arte e fragrâncias”, se define a designer de joias e perfumista

Marilyn Monroe certa vez sugeriu, durante uma entrevista, que quando ia dormir usava algumas gotas de perfume. “Perguntam o que uso para dormir? ‘a parte de cima do pijama? A de baixo? Uma camisola?’ eu respondo: ‘chanel n° 5’”, sentenciou a icônica loura. Também pudera, o perfume – não só o nº 5 – encanta e envolve as pessoas desde a antiguidade.

A designer de joias Leonora Rocha Lima, no aqui e agora, se declara uma aficionada por cheiros. Atualmente a goiana está à frente do Eau de Leonora, fragrância desenvolvida por ela a partir de uma fórmula da família. “Como boa perfumista que sou, meto o nariz em tudo. O olfato fica curioso, quero sair cheirando tudo, até coisa ruim”, brinca ela.

Em seu apartamento no entorno do parque areião, que intitula descontraidamente como “Central Park Goianiense”, Leonora mora com o marido, o engenheiro Luiz Nogueira, e o filho, o pequeno e fofo Davi, de 2 anos. Exalando não somente perfume, a elegante Leonora se define como uma mulher moderna e de bom gosto, mas alerta logo de início: “Nada de afetação. Não gosto da pecha de madame. Eu não sou madame. Sou uma jovem contemporânea, criativa, apreciadora de arte e fragrâncias”, se define.

 

Identidade

O (bom) gosto pela arte é visível já na entrada da casa. As paredes abrigam obras de egrégios, como Antônio Poteiro, Pitágoras, Rodrigo Flávio e Oscar Fortunato. No mobiliário, basta citar Sérgio Rodrigues. A anfitriã conta que cada um deles faz parte de sua própria história. “São escolhas muito pessoais, tudo aqui foi composto por mim. Eu amo cuidar de casa”, explica. Com tantos detalhes, um desavisado poderia até duvidar.

Entretanto, a certa altura da entrevista, Leonora discretamente reorganiza um pequeno objeto da mesa de centro. “Desculpe-me, mas é que a funcionária colocou no lugar errado”, constata sem alarde. Questionada sobre tamanho cuidado, ela confessa: “Sou muito detalhista, sei exatamente onde cada coisa está. Não tem nada pior que uma casa que mais se parece a um showroom de loja.”

Ao detalhar a composição do apartamento, a designer relata que a autora do projeto é sua irmã, a arquiteta Andréia Rocha Lima Rassi. “Nos mudamos em uma segunda-feira, e na quarta eu dei à luz [Davi]. Me lembro direitinho: a Andréia colocando as coisas no lugar e eu amamentando e dando as coordenadas”, se diverte. Mesmo tendo uma opinião profissional “dentro de casa”, Leonora é enfática: “Não basta contratar um arquiteto renomado. O desafio é imprimir sua personalidade no trabalho dele. E isso não tem como fazer do dia para a noite.”

Para provar sua teoria, ela se levanta e apresenta os “companheiros mais fiéis” da casa. “Minha vaca da Daniela Ktenas e o Valentino [um cachorro dourado em tamanho real] vivem comigo há mais de cinco anos. Ela tem suas próprias joias, Donachic, claro [marca que Leonora comandou em Goiânia durante nove anos]”, elenca ela, assumindo seu lado “travesti”. “Meu marido sabe que se casou com uma drag queen”, gargalha ela.

O interesse pelas artes se revela em Valentino, o cachorro dourado, e nos quadros, como o de Rodrigo Flávio; ao lado, cerâmica pintada pela mãe

Essa personalidade forte de Leonora tem raízes em sua história. “Aos 18 anos, me mudei para Paris, para estudar. A verdade é que foi muito mais uma experiência de vida. Aprendi muita coisa, vivi anos intensos na Europa”, se lembra ela. Começou com arquitetura, terminou com design de moda. Leonora se apaixonou pela capital francesa e é lá que busca a maior parte de suas inspirações.

Uma ligação que não é por acaso. Regina Rocha Lima, a mãe artista nata e autora do predecessor do Eau de Leonora, também ama a cidade luz. “Todos os anos, desde quando eu tinha uns 12 anos, ela aluga um apartamento e passa uma temporada em Paris”, explica. E não foi só o amor por Paris que a anfitriã “herdou” da mãe. “Minha veia artística veio dela. Pinta porcelanas e não é por hobby, não. Sempre foi muito profissional”, relata. Tanto a lembrancinha de casamento quanto a de batizado do filho Davi levam a assinatura da progenitora.

 

Faro para o sucesso

Embora Leonora garanta que as predileções pela música clássica venham do pai, o jornalista Luiz Fernando Rocha Lima, o “dom” mais marcante herdado dele foi o faro. Não o jornalístico, mas o sentido fisiológico mesmo. “Quando eu viajo, a primeira coisa que procuro são os cheiros”, conta animada. Velas, lavandas, perfumes, essências... Tudo volta dentro da mala da designer. “Imagina só, bem! A louca que traz velas do exterior.” Mas por um bom motivo, pois elas acabam virando objetos de decoração e motivo de “ostentação”. “Minha casa tem sempre um cheiro diferente, uma lembrança nova”, salienta.

Por todos os ambientes, estão “escondidas” diversas fragrâncias. Em cada canto, há um borrifador, um aroma, um perfume diferente. Ela vai mostrando algumas, apontando outras, enquanto conta sobre lugares na França, nos estados unidos, elencando ervas e elementos, além de lojas e perfumarias especializadas que visita quando está fora. “Desde pequena minha mãe me chamava a atenção: ‘pra que ficar cheirando tudo, menina?’.” Aparentemente, ela encontrou o motivo. E fez dele parte de seu futuro.

Coruja, ela perde um pouco o foco da entrevista para dar um beijo no recém-chegado da escola, Davi. Primogênito, o garoto de 2 anos tem tudo para se sentir o príncipe da casa. “Estou desenvolvendo o Eau de Davi. Uma nova fragrância que vai ser o cheirinho dele. Âmbar e mel serão as notas mais marcantes”, adianta à Zelo. Tais escolhas não foram fortuitas. “No meu quarto, deixo uns cristais de âmbar que comprei há algum tempo. O Davi gosta tanto do cheiro que por vezes o pego com eles na boca”, cai na gargalhada. “Já o mel vem do ‘cheirinho’ dele pela manhã”, complementa, apaixonada.

No que diz respeito à aposta no segmento da perfumaria, Leonora Rocha Lima – que já se enveredou por diversos ramos – destaca que os negócios estão se expandindo. De forma discreta, ela já prepara um novo lote do Eau de Leonora – que caiu nas graças de um seleto grupo de goianos – como também a versão para ambientes da fragrância. “Os bons perfumes e as perfumarias de nicho estão sendo descobertos pelo público agora. Os diferenciais são exatamente a alta qualidade, os ingredientes superiores e a exclusividade”, comenta.

Vale lembrar que o movimento das perfumarias de nicho chega de forma tímida ao mercado brasileiro. Contudo, assim como os vinhos, o café e a cerveja, os perfumes “mais elaborados” devem garantir espaço em segmentos da sociedade que primam por uma qualidade única. Quem sabe, daqui a alguns anos, todos nós não estaremos “fazendo a linha Marilyn” e pingando algumas gotas antes de ir para a cama?

Paris é fonte de inspiração

 

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