LIFESTYLE - 20/09/2016

Onde mora a cumplicidade

Arquiteto Pedro Ernesto Gualberto e a designer de interiores Leandra Castro revelam como funciona a parceria de anos no trabalho e na intimidade de casa



Lucas Pereira

(Fotos: João Carlos Fotografia)

Foi ao som dos pássaros e sob a luz do pôr do sol invadindo o living – integrado à varanda – que Pedro Ernesto Gualberto e Leandra Castro receberam a equipe de reportagem da Zelo na casa deles, no Condomínio Alphaville Cruzeiro do Sul. Parceiros na vida e no ofício, o arquiteto e a designer de interiores, que são casados há 13 anos e comandam juntos o escritório de arquitetura na Capital, abriram as portas para falar sobre família, rotina, trabalho e intimidade.

Discretos e donos de uma sintonia afinada, vivem em um recanto quase à parte do restante do mundo, abraçados por uma mata frondosa e recolhidos em uma casa projetada pelos próprios. As duas filhas, Liz, de 10 anos, e a caçula Sofia, de 7, além da cachorrinha Chanel, uma poodle muito fofa, completam a família. “Nós ficamos muito juntos, o dia inteiro”, comenta Leandra. “Não temos o hábito de ficar separados”, complementa Pedro Ernesto, como se fizesse uma declaração à esposa. E a casa concorda; cada detalhe ali parece pensado para abrigar, agregar e acolher.

A adega projetada por Pedro com espaço para degustação, acompanhada por um piano

“Conseguimos separar bem os momentos profissionais dos familiares. É tudo muito natural”, afirmam. Juntos praticamente 24 horas por dia, o casal fez dessa circunstância o ponto alto de suas vidas. O arquiteto conta que não costuma ‘levar trabalho para casa’ e que ambos têm papéis bem delimitados no âmbito profissional. “A criação dos projetos é minha. A Leandra entra justamente na parte da decoração, da escolha de materiais, do layout”, explica. “Mas em todas as etapas de criação, nós estamos trocando ideias”, acrescenta ela.

Mesmo com tantas afinidades, o casal garante que tem pontos de vista bastante diferentes. “Quem sai ganhando nesse caso é o cliente”, brinca Pedro Ernesto. Em meio às divergências, os dois garantem que ceder se torna um exercício saudável. Agitação no trabalho e tranquilidade em casa, esse poderia ser o lema do par.

A casa tem como ponto forte a vista para a mata, que abraça a residência

CASA

Com o desafio de serem seus próprios clientes, o arquiteto e a designer ergueram um projeto com a cara deles. Pedro Ernesto conta que, ironicamente e de maneira inusitada, nesse caso, seu primeiro insight se tornou o que a casa é hoje. O living, composto por sala de estar e jantar, é aberto para a varanda, que possui pé-direito com alturas diferentes e um imponente jardim vertical. Uma escadaria em madeira rústica dá acesso à área íntima, tendo abaixo um espelho d’água. Na sala de jantar, uma adega e espaço para degustação. “Ter a natureza tão perto ajuda a deixar tudo mais calmo”, reflete Leandra.

Na sala de estar, grandes aberturas horizontais para entrada de luz natural, situadas junto ao piso, liberam espaço na parede para as obras de arte

No mobiliário, peças clássicas e contemporâneas dialogam em meio ao décor aconchegante e intimista. Na sala de estar, uma mesa de centro semelhante a um tronco de árvore é um dos xodós. Sobre o sofá do estar, almofadas com obras de Gustave Klimt convidam a sentar-se. Na varanda, uma mesa chinesa preta, que era uma cama de fumar ópio com mais de 100 anos, também é um dos destaques. O vintage é um elemento forte no lugar, o que deixa os espaços ainda mais convidativos. “Nós amamos viajar”, garantem. E nessas oportunidades, o amor pelo design toma novas formas. Eles contam que têm o hábito de colecionar xícaras das viagens que fazem.

Com festas e reuniões informais muito presentes na agenda familiar, o casal é conhecido pelas recepções impecáveis que costuma organizar. A integração de espaços na residência foi, inclusive, muito pensada para esses momentos. “Mas eu acho que o canto favorito da casa nessas horas é o balcão ao lado da churrasqueira”, garante Pedro Ernesto. “Parece que tem um ímã”, brinca Leandra. Eles contam que diversas reuniões se deslocaram para o lugar espontaneamente. Uma dessas ocasiões foi quando ofereceram um jantar ao arquiteto e decorador Sig Bergamin, quando o mesmo esteve em Goiânia para lançar seu livro. “Depois da refeição, foram todos para lá, foi inevitável. Ele (Sig) ainda disse que aquele era o melhor lugar da casa”, relembram com bom humor.

Leandra tem a arte como paixão quase inata, assim como a gastronomia. Ela é uma cozinheira de mão cheia. Uma gourmeteria totalmente equipada, com mesa para 16 lugares, integrada à varanda, foi pedido dela. Já Pedro Ernesto, por influência dos pais, tornou-se um ávido colecionador de arte. Para abrigar suas telas, ele implantou grandes aberturas horizontais na parte inferior da parede lateral da sala de estar, na intenção de liberar mais espaço para a disposição das obras.

A religiosidade ganha destaque no hall de entrada

Pela casa, nomes como Amílcar de Castro, Siron Franco, Antônio Poteiro, Romero Britto, Aldemir Martins, Ana Maria Pacheco e Carlos Scliar convivem cordialmente.“O nosso primeiro quadro do Siron é muito especial para mim”, conta ele. “Tenho carinho por todos, mas o retrato que o Romero Britto fez para mim tem lugar especial”, revela Leandra sobre o quadro disposto em uma parede do hall de entrada.
Nesse espaço também está o oratório, envolto por uma serenidade que cobre a imagem de Nossa Senhora, ou emana dela. “Somos católicos. A religiosidade é uma herança familiar que buscamos passar para as meninas”, afirmam.

LIZ E SOFIA

O lar da família recebeu o nome de Casa Liz e Sofia em homenagem às herdeiras do casal. É nítida a preocupação dos pais com as crianças na hora de projetar a casa, desde as áreas de convívio social até a área íntima.
As suítes das duas, por exemplo, têm vista para a mata e possuem uma sacada comum que faz comunicação entre elas. “As meninas, desde muito pequenas, curtem a natureza”, conta Pedro Ernesto. Na área externa, os atrativos para as duas são vários. Além da piscina, com fundo infinito, bar molhado e raia de 20 metros – segundo Leandra, um dos locais favoritos das filhas –, uma casa de pássaros convida as aves a brincar a vida ali.
Eles, que sempre quiseram ter duas meninas, revelam que em casa as pequenas comandam. “Passamos muito tempo no quarto, os quatro juntos”, comenta o arquiteto. “Estamos sempre vendo TV juntos. As meninas adoram acompanhar programas sobre culinária e arquitetura”, destaca Leandra. Se vão seguir o caminho dos pais ainda é cedo dizer, mas a arte ali flui naturalmente.

A casa para os pássaros é lugar cativo das crianças, que aproveitam ao máximo a natureza

Os quartos das duas crianças não têm televisão propositalmente; é mais um incentivo à união familiar nos momentos de lazer. “Conhecemos profundamente a programação de desenhos animados”, brincam. A sintonia ali é assim, singela, tão harmoniosa quanto as linhas dos projetos que o casal tira do papel.

 

Matéria publicada na 36ª edição da revista Zelo

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