LIFESTYLE - 25/04/2016

A conspiração do solitário

Em entrevista à Zelo, durante a exposição “Totalitarium” no MAC, Pitágoras crítica, questiona e se diverte com situações da vida moderna



Alexandre Parrode

Camiseta preta, jeans e um senso de humor afiadíssimo. Pitágoras recebeu a reportagem da revista Zelo em sua exposição no museu de arte Contemporânea de Goiás como se estivesse em casa. Sem amarras e zero afetação, o goiano, que já ganhou prêmios e expôs no mundo inteiro, nem parecia ser o autor da exposição “Totalitarium”, que decora as paredes do museu, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. Hiperativo, Pitágoras até tentou manter certa postura de entrevistado “sério”, mas já na primeira pergunta se soltou, atacou e questionou sobre os mais diversos assuntos possíveis, sempre mantendo a simpatia no mesmo nível da acidez. Em vez de erudição e longas explicações remetendo ao renascentismo, o artista prefere debater suas obras e define o trabalho como a externalização de suas vivências. O que deveria ser uma entrevista sobre a nova exposição no MAC acabou tratando de casamento, sociedade, busca pela felicidade e solidão. Tudo sob um olhar muito divertido e até jocoso da realidade. Até mesmo quando o assunto clamava por seriedade, Pitágoras soltava uma palavra ou expressão em inglês ou francês – línguas que aprendeu sozinho –, desconstruindo a densidade do tema. Inclusive, leitor, pedimos que não estranhe a inclusão de vários “(risos)” pelo texto. A verdade é que, caso fôssemos transcrever literalmente o encontro, talvez toda esta edição não seria suficiente. Confira (e divirta-se)!

Exposição traz obras voltadas para o “jeito totalitário de ser” do artista

ZELO - Como surgiu a ideia da exposição? Por que Totalitarium?

Pitágoras - Eu formatei o projeto e decidi que se chamaria Totalitarium. Nós vivemos tempos totalitários, paralelos ao que vivemos. Além disso, o título pode também expressar a tirania do meu trabalho. Eu misturei um monte de trabalhos e coisas que me representam, obras voltadas para mim mesmo, sem pesquisas contemporâneas. Eu fui mesmo Totalitarium. Trabalhos que remetem ao passado, readquirir a pintura, o desenho, tudo outra vez. Embora tenha muito de história, a exposição representa meu presente, minhas memórias não ficam voltando. Seriam registros.

ZELO - Há alguma linearidade ou cronologia nas obras?

Pitágoras - Não mesmo. Na verdade, eu quero me afastar cada vez mais dessa ideia, embora acredite que farei a mesma coisa a vida inteira. Dizem, inclusive, que todos os artistas são assim. eu tento mudar o máximo de um quadro para o outro. É um exercício pessoal. Mudo e mudo para mim.

ZELO - Como se dá seu processo de criação?

Pitágoras - Ultimamente até as atividades de recreação, beber, sair com amigos - tenho pouquíssimos amigos - são na minha casa. Eu faço a linha ‘lonely guy’, entende? (risos) moro na mesma casa, no Setor fama, desde que nasci.

ZELO - Por que continua morando lá?

Pitágoras - Sou um pouco conservador, eu diria. Moro ao lado da minha mãe, sou solteiro e serei para sempre. Não vou me casar com ninguém, eu odeio casamentos!

ZELO - Mesmo? E namoros?

Pitágoras - Eu amo o ‘tótum’, a essência, as coisas, amo minha agressividade, meus interlúdios e os sentimentos, como a profunda tristeza e a alegria. Estou pleno, sem ambicionar uma felicidade utópica, acho isso muito careta.

ZELO - Mas se diz conservador e afirma, agora, que a “busca pela felicidade” é algo muito careta?

Pitágoras - Eu acho a luta pela felicidade uma angústia humana boba. Você fica cego e passa a sentir o estigma dos que não são felizes. Eu sou amor fati de nietzsche. Vivo com intensidade as coisas, mas da minha maneira conservadora, pois não vou mais a festas, não vou a lugares badalados, não sou hipster, meus amigos não são hipsters, não ando com bolsa Louis Vuitton e encontro meus amigos afetados... não tenho amigos chiques, são ótimos, mas se você chamar algum deles de chique, eles te olharão torto. Meus amigos são elegantes, não têm nada de chique. O chique é cafona hoje em dia.

ZELO - E como seria isso?

Pitágoras - Nós estamos passando por um período de muita decadência, sabe? É um excesso de ter e decadência de significado. A sociedade é um pouco escusa no que concerne à educação, à degradação do meio ambiente, ao amor ao próximo, à compreensão dos novos comportamentos. É um tempo estúpido que estamos vivendo. Mas eu entendo. Entendo a juventude “rolezinho”, por exemplo. Acho todas essas modinhas bobas, mas as entendo.

ZELO - Por falar na juventude, como você se relaciona com as redes sociais?

Pitágoras - Eu tive e excluí porque uma professora “barbuda” da universidade encrencou comigo e acabei por sair (risos). Mas adoro o mundo online, não sou nada careta. A internet oferece acesso a coisas que muita gente não tinha no passado. Você pode acessar bibliotecas... vejo de tudo, até essas coisas mais trash, eu acesso.

ZELO - E como todas essas ideias, essa personalidade forte e opiniões formadas se traduzem no seu trabalho?

Pitágoras - É bem voltado para meu selfie mesmo. Não vou pesquisar a angústia de outro artista, por exemplo, não vivo perseguindo as estéticas de outros artistas. Minhas obras são materializadas através de minhas sensações, minha experiência solitária, mas nunca infeliz.

ZELO - E o que seria felicidade para você?

Pitágoras - Então, acho o conceito de felicidade muito pobre, atualmente. Vivo o segundo próximo. Não dá para viver de ideologia, como Cazuza, que “disparo minha metralhadora cheia de mágoas”. Eu não sou o tipo de artista que passa por aquela fase de “poeta de final de século”, mesmo porque estamos no começo de um século. Sei que tudo está se degradando, mas, ao mesmo tempo, se renovando, umas ideias vêm e outras vão.

ZELO - Como é sua vida na comunidade artística goiana, como você se relaciona no meio?

Pitágoras - Nenhum dos meus amigos é artista. Não tenho amizade com artista nenhum de Goiânia. Insiro-me no meio com meu trabalho. A verdade é que você não precisa conviver com outros artistas para fazer arte. Aliás, conheço pessoas que fazem arte e não são artistas.

ZELO - Você consegue dizer o que há nos seus quadros?

Pitágoras - Eu não consigo te dizer o que é, mas posso afirmar que é um conteúdo que vai e volta dentro de mim. Há espaço para todo tipo de sentimento. Os sombrios assim são por força de estética e não porque haja algum tipo de confronto interno meu. Não mesmo. Reafirmo que não sofro o ‘angst’ (conflito intenso de angústia). Acredito que a gente precisa ficar triste, precisa beber mesmo uma cerveja, precisa sentir a tristeza. A perda dos amores, dos humores. É preciso sentir a juventude se esvair, o número da idade aumentar, mas no fundo saber que é o mesmo. A sociedade atual não aceita o envelhecer, trata isso como algo deteriorante. Como se isso não fosse digno.

ZELO -  Para você, como é morar em Goiânia?

Pitágoras - Vivo bem aqui. Claro que faço minhas viagens. Vou a São Paulo, estou indo para Venezuela e é possível que faça uma exposição na Espanha. Viajo muito também em literatura. Recentemente retomei a leitura de Nietzsche e Oscar Wilde, o que me tem feito questionar as relações da sociedade e do estado. Seria legal ter uma sociedade na qual as pessoas tivessem acesso à educação e se tornassem perigosas e corrosivas. Não com armas na mão, sim com pensamento.

ZELO - O que você espera do futuro?

Pitágoras - Como eu vivo o amor fati, não espero nada do futuro. O futuro pode ser daqui 20 minutos só, então, como já sou muito ansioso, procuro não pensar nele. Porque se eu paro para pensar, como vivo disso, entro em crises, crises... daí empaca. E não quero empacar. Quero viver como um garoto, que acredita que tudo vai dar certo no final. Meio paradoxal, mas esse sou eu. É a conspiração do solitário.

ZELO - Vale ser só?

Pitágoras - Gosto muito. Vivo assim, sem reclamar. Mesmo amando todos, sou só. O lance é encarar isso! Como não quero me tornar religioso, aceito a cruz que carrego.

ZELO - No campo profissional, você...

Pitágoras - olha (antes que pudesse terminar a pergunta, que seria sobre ter alguma aspiração, Pitágoras já lança outro questionamento), eu acho essa palavra “profissional” perigosa. Sou um artista, o “profissional” meu é um pouco trágico. Sou profissional porque cumpro meus prazos, mas quase não acredito no artista profissional. O profissionalismo talvez seja organizar a carreira. Outra palavra que tenho muito medo. Sou obstinado pelo que faço. Única palavra que realmente me agrega.

ZELO - Uma aspiração de trabalho para o futuro.

Pitágoras - Queria fazer uma exposição em que os quadros fossem mudando de acordo com os humores do dia. Todos os dias eu iria lá e os editaria. Se ela durar 30 dias, por exemplo, eu mudaria a exposição 30 vezes. Vou fazer isso aqui ainda.

ZELO - Por falar nisso, como você sabe que uma obra está pronta?

Pitágoras - É um processo, não tem exatidão. Na verdade, todas as obras estão sempre prontas, no sentido de que, quanto mais eu estiver trabalhando nelas, mais elas vão mudar.

Obra de 2013, 300 x 150 cm, sem título, mista sobre tela

Obra de 2013, 125 x 195 cm, sem título, mista sobre tela

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