CULTURA - 17/03/2019

A arte de Tai Hsuan-An em solo goiano

Museu de Arte Contemporânea de Goiás recebe a exposição “Diáspora, Convergência e Conexões”, que celebra os 40 anos de produção do artista chinês Tai Hsuan An em Goiás



Julie Tsukada

Auto-retrato de Tai Hsuan-An (Foto: Reprodução - Tai Studio)

Década de 50, China. Em um pequeno povoado no sul do país, um menino se aventurava por troncos, galhos e cipós. O objetivo era encontrar um riacho, com a água agitada - um detalhe importante, que não passava despercebido pelo garoto. Ele agachava, se apoiava com as mãos na terra e colocava o barco de papel que havia feito. O rio levava, em sua corrente rápida, e o menino corria, ria, as pernas finas desviando de um obstáculo ou outro.

A cena, mesmo anos depois, não desaparecia da memória de Tai Hsuan-An - nem mesmo do outro lado do mundo. Viraria pintura em seu ateliê na cidade de Goiânia, cidade que escolheu para ser seu novo lar há mais de 40 anos. O trabalho produzido na capital goiana durante as últimas décadas rendeu a exposição Diáspora, Convergência e Conexões, em mostra no Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC) do Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON).

Sob curadoria e produção de PX Silveira, a mostra reúne 180 obras, entre esculturas, pinturas, desenhos e outros trabalhos produzidos por Tai desde 1977, ano em que se mudou para Goiânia. Suas diferentes fases e facetas como artista e, também, como professor de Design na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e de mandarim no Espaço Cultural Milagre dos Peixes, podem ser conhecidas na exposição, que vai até 30 de março de 2019.

O início

'Araras', por Tai Hsuan-An (Foto: Divulgação)

A arte não é novidade de Tai - sempre esteve com ele, desde criança. “Meu pais eram artistas. Meu pai era fotógrafo e minha mãe era professora, adorava arte e música. Nesse ambiente que eu cresci”, explica. Desde os 3 anos, ele já desenhava e pintava.

Era o início da carreira como artista. Tai entra para o grupo de pintores da escola primária em 1961 e começa a participar dos concursos anuais de pintura. Em 1961, ganha a medalha de ouro em uma competição regional, com a pintura “As maçãs”.  No ano de 1962, se forma no ensino básico e recebe do professor de arte He Zhang a mensagem que lhe seguiria para toda a vida:

“A maior felicidade é o resultado obtido pelo seu próprio esforço contínuo. Espero que se esforce, com a sua inteligência, para se tornar um grande pintor do século XXI e, com seus pincéis, traçar uma esplêndida vida”

Tai levou as palavras de He Zhang para além da China. A bordo do navio holandês Tjitjalenica, ele, aos 15 anos, a mãe e os irmãos vêm para o Brasil, onde desembarcam em agosto de 1965, no porto de Santos. Aqui, se reúnem ao pai, e começam a trabalhar em fazendas no Rio Ribeira de Iguape, em São Paulo, e em Rolândia, no Paraná.

Tai Hsuan-An pintando pássaros (Foto: Reprodução - Tai Studio)

A arte e a cultura chinesa continuavam presentes em sua vida. Nas horas livres, Tai produzia pequenas obras e começava a se interessar pela pintura tradicional chinesa. Em 1968, depois da família viver um tempo em Londrina, no Paraná, ele e a irmã se mudam para São Paulo, onde começam a trabalhar em uma floricultura.

Nessa época, Tai volta a pintar mais e começa a vender seus trabalhos na feira hippie da Praça da República. Lá, fica conhecido como o pintor de cavalos, devido a maior parte de suas pinturas na época serem dos equinos.

A guinada na carreira vem quando Tai se torna aluno de Sun Jiaqin, então um dos discípulos do grande mestre Zhang Daqian, considerado o maior artista moderno chinês. Ele viveu no Brasil, em Mogi das Cruzes, de 1953 a 1972. “Ele era tão renomado que era conhecido como o Picasso do oriente”, lembra Tai.

Com ele, o adolescente Tai começa a aprender e a ter mais contato com a arte de seu país natal. Depois, entra na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), onde conhece novas técnicas e linguagens de pintura. Além das técnicas chinesas, agora se familiariza mais com arte e a cultura ocidentais.

Zhang Daqian, um dos maiores artistas chineses (Foto: Lang Ching Shan)

Goiânia

Graduado, Tai chega a Goiânia em 1977, depois de receber um convite para substituir Frei Nazareno Confaloni, artista italiano radicado em Goiás, como professor nas aulas de desenho e pintura no curso de Arquitetura e Urbanismo na atual PUC Goiás. Desde então, Tai faz parte do corpo docente da universidade. Nos últimos 15 anos, somente leciona para o curso de Design.

Foi também em 1977 que Tai realiza sua primeira exposição individual. O trabalho presente na mostra, realizada no antigo Hotel Bandeirantes, era apenas de pinturas tradicionais chinesas, a guohua. Com pincel chinês, tinta nanquim e traços precisos, suas obras conquistaram a sociedade goiania. “Foi o maior sucesso. A repercussão foi enorme, porque ninguém conhecia pintura chinesa, chamou muita atenção. Vendi praticamente toda a exposição”, comenta.

Mesmo com o tamanho êxito da primeira exposição individual que havia feito na vida, Tai não estava feliz. “Cheguei em casa e pensei: ‘Nossa, tem algo errado. Eu estou em Goiânia, no Centro-oeste, com esse sol maravilhoso, esse povo completamente diferente, e a minha pintura está totalmente fora do contexto’. Senti um impacto. Eu queria mudar”, recorda.

Pintura de galinheiro da fase 'Fundos de Quintal' (Foto: Divulgação)

Decidido, Tai começa a ter mais contato com a natureza e a população local. Com artistas goianos, ele saía e ia para a periferia de Goiânia. Lá, descobria um novo mundo. As roupas nos varais, os gatos dormindo nas soleiras das portas, as galinhas e as bananeiras no fundo das casas, tudo fascina e vira arte, em tinta acrílica sobre tela. As novas pinturas fazem parte da fase “Fundos de Quintal”, que reúne as novas experimentações de Tai a partir deste encontro com um novo lado da capital.

Mesmo com as mudanças no estilo, o uso de novas materiais e a abundância de cores, a pintura de Tai não perde a essência da cultura chinesa. “Na minha pintura, você vê algo que tem essa estética chinesa. Isso está presente no modo de traçar um galho, de pintar uma folha”, explica o artista. “A pintura tradicional chinesa é feita com pincéis utilizados para fazer caligrafia. Então, o traço, cada linha, tem a ver com a escrita. Não é simplesmente traçar uma linha e fazer um traço, mas tem todo o uso da energia, que os chineses chamam de ‘chi’ ou ‘qi’, que nasce do interior e tem todo um sentimento envolvido. É muito característico do oriente’, completa.

O pensamento confucionista, taoísta e budista, que constituem a cultura chinesa, também continuam sempre presentes na obra de Tai. A natureza, a temática mais presente nas obras de Tai, é um reflexo dessas filosofias. “O pensamento taoísta fala da integração da humanidade com o meio ambiente. É por isso que os chineses dão importância à natureza”, afirma.

'Melodia que parece não ter ritmos', da fase mais recente de Tai Hsuan-An (Foto: Divulgação)

Depois dos fundos de quintal, Tai decide se aventurar agora pelos biomas brasileiros. O primeiro é o cerrado, depois foi o pantanal e assim, o artista passou a conhecer não só a fauna e flora brasileira, mas também outras regiões do país. Esta segunda fase de sua carreira é denominada Natureza Silvestre.

Na terceira fase, Tai se propõe a pensar: o que seria a natureza ideal? Aqui, ele deixa a imaginação aflorar e não se prende ao real para criar as paisagens figurativas de Natureza imaginária. No mesmo rumo, ele resgata e se inspira em suas memórias, na China e no Brasil, e parte para a última e mais recente fase, Sonhos e fantasias. Nela, ele mistura técnicas orientais e ocidentais e cria obras fantásticas  - os bambuzais retratados têm várias cores, as folhas das plantas podem ser roxa… “Nada disso existe, mas eu tenho vontade de expressar a emoção desse modo”, opina.

Outros trabalhos

'Relações', de Tai Hsuan-An, obra vencedora da Bienal Nacional de Arte Contemporânea em Goiânia (Foto: Reprodução - Tai Studio)

A natureza e seus mais mínimos detalhes também ganham forma nas esculturas de Tai. O trabalho como designer e os conhecimentos de arquitetura somam ao trabalho dele como  escultor em obras inventivas, feitas em papelão, que não têm o propósito de ser realistas. Dentre várias em exposição, o destaque fica para as inspiradas no cerrado e na infância, em trabalhos com um tom mais lúdico.

Crítica social também aparece nas obras de Tai. A coleção de pinturas Relações, expostas e vencedoras do primeiro lugar na Bienal Nacional de Arte Contemporânea em Goiânia, em 1993, trazem a estética da pintura tradicional chinesa com uma outra expressão. Nelas, Tai retrata ratos como seres humanos.

Pintura da fase 'Natureza Imaginária', de Tai Hsuan-An (Foto: Divulgação)

Os diferentes tons de preto dos roedores simbolizam as diferentes raças, que na tela, revelam o racismo presente na população brasileira. Em outra obra, eles seguem, desenfreados, um outro rato, que assume a liderança. “Na nossa sociedade, isso é muito comum. Existe um líder e as pessoas, seguem vão atrás, sem nem saber o que é”, comenta.

Além das pinturas e esculturas, outros trabalhos e experimentações, como as aquarelas da série não finalizada de pássaros brasileiros, xilogravuras, desenhos de estudo e os livros sobre design e os ideogramas chineses também estão em exposição. As obras da mostra serão lançada em catálogo nesta terça-feira (19), às 19h, no MAC.

Anote!
Diáspora, Convergências e Conexões - 40 anos na arte de Tai Hsuan-an
Data: até 30 de março de 2019
Local: Museu de Arte Contemporânea de Goiás | Centro Cultural Oscar Niemeyer - Av. Deputado Jamel Cecílio, nº 4490, Setor Fazenda
Gameleira, Goiânia - GO
Horário: Terça a sexta, das 09h às 17h, e Sábado, domingo e feriados, das 11h às 17h
Entrada franca
Site de Tai Hsuan-An

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